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ColunasSEBASTIÃO NERY

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29 de abril de 2009 às 08:27

NEM TUDO FORAM CRAVOS

RIO - O major Sanches Osório, membro da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas e ministro da Comunicação Social do Governo Provisório do general Spínola, foi ao gabinete militar da Presidência, onde estavam os generais Galvão de Melo, Silvério Marques, Diogo Neto, Pereira de Melo, vários coronéis, tenentes coronéis e majores.

Foi convocado o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que entrou no gabinete. Estendeu a mão ao general Galvão de Melo:

- Como está, meu general?

O general ficou imóvel.

- O meu general não me aperta a mão?, perguntou Vasco Gonçalves.

- Não, eu não falo a filhos da puta, respondeu Galvão de Melo.

- O meu general é um estupor, respondeu o primeiro-ministro.

Para evitar o pior, o general Diogo Neto interpôs-se entre os dois e, de frente para o primeiro-ministro, levantou a mão e exclamou:

- Tu és uma vergonha, meu comunista ordinário, que queres levar o país para uma guerra civil. Se abres a boca, parto-te a cara.

VASCO GONÇALVES

O ministro Sanches Osório disse ao primeiro-ministro:

- O governo incitou os partidos, o que é pelo menos desonesto.

- Isto é uma calúnia. O senhor está a insultar-me.

- Não estou. São os fatos tais como se passaram.

O general Diogo Neto interrompeu o diálogo e declarou, virando-se para o primeiro-ministro:

- És um merda.

E o general Silvério Marques acrescentou:

- Olha-me bem de frente. Tenho quatro estrelas, mas só duas são da Revolução. Deixo-as aqui, atiro-as à tua cara. Tu vais dar ordem ao teu partido, ao Partido Comunista Português, para acabar com a rebelião.

Chegou o presidente da República, general Spínola, que ainda viu parte da cena. Era no Palácio de Belém, em 27 de setembro de 1974.

SALTO NO ESCURO

Esta história, mais completa e mais grave, está contada no livro "O Equívoco do 25 de Abril", do coronel e ministro Sanches Osório, e em meu livro "Portugal, um Salto no Escuro" (Editora Francisco Alves, 1975).

Portugal e os amigos de Portugal celebramos sábado os 35 anos da "Revolução dos Cravos". Mas nem tudo foram cravos. Do 25 de abril de 74, quando o MFA (Movimento das Forças Armadas) derrubou o governo salazarista de Marcelo Caetano em Portugal, depois de meio século de ditadura, até o 25 de abril de 75, quando Mário Soares e seu Partido Socialista ganharam as eleições para a Constituinte portuguesa, Portugal viveu um ano de anarquia, à beira de uma fratricida guerra civil.

Saía de uma ditadura e quase caiu em outra, numa irresponsável aliança do Partido Comunista Português com alguns dos mais radicais capitães, majores e coronéis das Forças Armadas.

Isso Portugal deverá sempre a Mário Soares e seus socialistas.

25 DE ABRIL

Era exatamente meia-noite de 24 de abril de 1975. O Pabe, o melhor bar-restaurante do centro de Lisboa, na rua Duque de Palmela, a dois passos da praça Marquês de Pombal, bem no coração da cidade, estava cheio de políticos e jornalistas. A campanha eleitoral tinha acabado na véspera, as eleições iam começar às oito daquele 25 de abril. Portugal parara um dia, depois de um luta eleitoral frenética, alucinante, total.

Mário Soares e a direção do Partido Socialista jantaram na mesa grande, recurvada, e acabavam de sair. Entrava Pinto Balsemão, diretor do "Expresso" e líder do Partido Popular Democrático. Jean Daniel, do "Le Nouvel Observateur", cochichava ao lado com um grupo de franceses. Cardoso Pires, diretor do "Diário de Lisboa", incrivelmente parecido com Yves Montand de "A Confissão", conversava com três espanhóis.

GRÂNDOLA

Nós, os brasileiros, estávamos quase todos lá. Irineu Garcia, José Silveira e Maria Tereza Siqueira, do Jornal do Brasil. Roberto Paulino e Cristina Gurjão, de O Globo. Hermano Alves, de O Estado de São Paulo, Cezar Mesquita, diretor da Editora Francisco Alves, transava negócios ultramarinos. Eu bebia tranqüilo um "reserva especial" da casa, muito bom.

Chegam Augusto, o maitre (do Partido Comunista) e Carapatello, garçom (do Partido Socialista), à minha mesa:

- Você quer ouvir uma coisa bonita? Não temos rádio aqui dentro. Mas nosso carro está aí fora e todas as rádios tocam, neste momento, a "Grândola", a música da Revolução. Faz um ano, agora, que ela começou.

MÁRIO SOARES

Saímos. Lisboa era toda uma canção. Das janelas dos edifícios, dos carros que passavam, das esquinas que se agitavam, da fria bruma que vestia a noite, derramava-se sobre a cidade, como quente cantar de amor, a maravilhosa canção de José Afonso, "Grândola, Vila Morena".

Abraçados, os grupos andavam, cantando. Abrindo-se, as janelas se iluminavam, cantando. Parados, dois jovens beijavam-se, cantando. Na curva da rua surge uma bandeira, um cravo vermelho, aberto em campo verde. E a multidão atrás, sorrindo e cantando, gritando e cantando.

O PS de Mário Soares fez 37,87%. O PPD de Pinto Balsemão, 26,38%. O PC de Álvaro Cunhal, 12,53%. E Mário Soares salvou Portugal.

(www.sebastiaonery.com.br)

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