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Tancredo não queria Sarney

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Data de Publicação: 23 de setembro de 2008
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Hélio Duque

Testemunha da história era o “slogan” do Repórter Esso, que durante décadas dominou o noticiário radiofônico brasileiro. O testemunho que se segue é de quem viveu o tempo e a história dos fatos relatados, envolvendo a redemocratização do País. Nele aflora a sensibilidade política e a visão premonitória daquele que se tornaria o ponto de encontro da sociedade brasileira com o desejo de ver restabelecido o Estado democrático. Derrotada a emenda que definia o restabelecimento da eleição direta para a Presidência da República, a saída para o impasse desembocaria na escolha indireta pelo colégio eleitoral vigente há duas décadas.

O nome do governador mineiro Tancredo Neves foi consensualizado na condição de melhor candidato no pleito indireto. Enfrentaria Paulo Maluf, escolhido pelo PDS (sucessor da Arena) para ser o candidato do sistema autoritário. Essa escolha, em lugar do coronel Mário Andreazza, levou a um cisma político no grupo governista que apoiava o general João Figueiredo. A ruptura levou a debandarem para a institucionalização da dissidência em um novo partido político: o PFL. O objetivo era impedir a eleição de Maluf como sucessor de Figueiredo. Em função disso a única alternativa era apoiar a candidatura lançada pelo PMDB. O principal avalista do acordo foi o honrado mineiro Aureliano Chaves, vice-presidente da República, que ao longo do mandato entrara em rota de colisão com o titular João Figueiredo.

Ulisses Guimarães e os governadores do PMDB conduziram as negociações com os dissidentes, com a supervisão ativa de Tancredo Neves. Em reunião no Palácio Jaburu, residência de Aureliano Chaves, consensualizou-se que o vice-presidente seria indicado pelo PFL. O candidato Tancredo Neves, com astúcia e sabedoria política premonitória, fixou-se no nome do ex-governador de Pernambuco e senador eleito em 1982, pelo PDS, Marco Maciel. Infelizmente o seu desejo não pôde se materializar. Tendo sido eleito pelo PDS senador e em função desse partido ter candidato próprio à presidência, temeu-se a impugnação da candidatura. Buscou-se um nome que tivesse sido eleito pela Arena, já extinta, e que houvesse sido eleito em 1978. O único nessa situação era o senador maranhense José Sarney e que fora , por vários anos, presidente da Arena e até semanas antes do próprio PDS. A condição era a obrigatoriedade da sua filiação ao PMDB.

A circunstância de não se querer correr riscos fez de Sarney o nome indicado e avalizado por Aureliano Chaves. A tragédia se consumaria com a morte de Tancredo, antes da posse, e a ascensão do oligarca maranhense à chefia da nação. A vanguarda do atraso ganharia fôlego em um governo incompetente. Estadista pigmeu, ao deixar o governo foi buscar mandato senatorial pelo Amapá transformando o PMDB, partido que o homiziou, em um valhacouto de tenebrosas transações. Na capitania hereditária do Maranhão, sob o seu domínio há 40 anos, estruturou o sistema de poder responsável por atraso, miséria e subdesenvolvimento feroz, expressado do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

A jornalista Sônia Racy de O Estado de S. Paulo publicou, há algum tempo, interessante roteiro sobre o domínio da família Sarney, no Maranhão: “Para nascer, a Maternidade Marly Sarney. Para morar Vila Sarney ou então a Sarney Filho ou a Kiola Sarney. Para estudar as escolas Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marley Sarney ou José Sarney. Para pesquisar vá até a biblioteca José Sarney. Para informar, leia o Estado do Maranhão, veja a TV Mirante ou ouça a Mirante AM ou FM, todos da família. Para saber sobre as contas públicas, vá até o Tribunal de Contas Roseana Sarney. Precisando do poder judiciário, vá ao Fórum José Sarney.”

O sonho alimentado pelo inesquecível e saudoso Tancredo Neves de estabelecer uma Nova República foi também vitimada naquela noite em que entrou no Hospital de Base em Brasília, na véspera da sua posse. Ao invés de um pacto nacional pela governabilidade, calcado na experiência espanhola do Pacto de Moncloa, seu grande objetivo, tivemos o pacto das oligarquias políticas atrasadas e patrimonialistas. Onde a política republicana fundamentada em servir ao bem comum foi substituída pelo balcão de negócios, onde o vale-tudo prevalece e impõe diretrizes à governabilidade, submetendo diferentes governos nas últimas duas décadas. Implantaram a chamada política de resultados que passou a ser sinônimo de política de ativíssima corrupção. É preciso dar um basta a essa canalhice que faz da sociedade brasileira a sua grande vítima.

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