Eudes Oliveira de Alencar
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Existe horóscopo para tudo quanto é gosto. O princípio é o mesmo em todos, de modo que, parece-me, a coisa fica mais naquela de preferência, o que não se discute. Uns querem ser bichos, agarram-se ao chinês. Outros são mais astrológicos e vão fazer passeios no sistema solar. Há quem goste de outros exotismos, então há horóscopo asteca, egípcio, e o das árvores ou druídico. Outro dia deparei-me com este último que me chamou a atenção por relacionar árvores e datas de nascimento. A partir disso se tem um perfil da personalidade do consulente.
Eu, por exemplo, sou um cedro. Lá é dito que, como bom cedro, gosto de ser o centro das atenções. Os nativos desta árvore são inteligentes, práticos, bons administradores. São racionais no amor, não se iludem e só querem para compartilhar sua casinhola alguém que tenha boas perspectivas em todos os setores da vida. Aqui pelo Nordeste se conhece esta atitude como aquele ou aquela que só se achega a árvore que faz sombra. Recomendação sábia de pais e mães que não querem ver seus filhos com inúteis.
Até que peguei gosto de ser um cedro, mas sabendo-me um pouco, desisti de sê-lo, pois sei razoavelmente meus defeitos e o tal do horóscopo não falava em nenhum deles. Causou-me estranheza que os druidas conhecessem um cedro. Não consta que existissem na Europa. Tomei a liberdade de ver as árvores que botei no mundo e deparei-me com eucalipto, bambu, acácia e, um susto, um cajueiro. Não é que os tais druidas também conheciam um cajueiro?! As plantas anteriores já eram um espanto constarem na lista oracular por serem todas tropicais e ainda nem haviam começado as viagens marítimas que uniriam o mundo 1.500 anos depois. Agora, um cajueiro, nativo da América do Sul, essa foi demais.
Enfim, leitores e leitoras, usei esta história como desculpa para falar de uma coisa bem mais interessante. As árvores estão intimamente ligadas às culturas de todo o mundo. Se falarmos da Bíblia, o homem começa sua história num jardim cheio de árvores, sem falar que havia duas árvores especiais – a árvore da vida e a do conhecimento do bem e do mal. Na travessia do deserto o povo chega a uma fonte de águas amargosas que se tornam doces por causa de uma árvore da qual Moisés, orientado por Deus, usou folhas e galhos.
Instalados na terra prometida, o povo de Israel muitas vezes pegou-se adorando deuses cujos altares eram árvores consideradas sagradas. Um incidente com Jesus envolve uma árvore, uma figueira. Ele sentiu fome, olhou-a à margem da estrada. Parecia ter frutos, estava enfeitada de vigor e aparência de árvore produtiva, mas ao chegar-se para apanhar um fruto viu o Mestre que nada havia. Disse a ela: Nunca mais nasça fruto de ti e ela secou-se até estorricar. Certamente de árvores se extraiu as duas peças que formaram a cruz onde se deu o maior sacrifício de amor no Calvário.
Depois do fim dos tempos, há uma árvore plantada numa praça da cidade-mundo cujas folhas serão fonte de cura para os povos. Seus frutos, em número de doze, alimentarão a humanidade com vida. Suponho que esta seja aquela que estava lá no Éden. Foi transplantada.
Para mim, porém, de todas as imagens de árvore, a que mais gosto está relatada no Salmo 1. “Felizes são aqueles que não se deixam levar pelos conselhos dos maus, que não seguem o exemplo dos que não querem saber de Deus e que não se juntam com os que zombam de tudo o que é sagrado! Pelo contrário, o prazer deles está na lei do SENHOR, e nessa lei eles meditam dia e noite. Essas pessoas são como árvores que crescem na beira de um riacho; elas dão frutas no tempo certo, e as suas folhas não murcham. Assim também tudo o que essas pessoas fazem dá certo.” (Sl 1-3 – NTLH)
Essas pessoas são como árvores... O salmista não se preocupa em identificar a espécie de árvore, percebem? Para ele, a árvore em si, por melhor que seja, é apenas criação, nada pode de si mesma se as condições que lhes sustentam não forem adequadas. Logo, penso, à árvore cabe manifestar sua característica frutífera, mas deve, antes, estar bem sustentada, nutrida. O lugar é a referência do salmista, pois somente no lugar certo a árvore demonstrará seu vigor, nunca num ambiente seco e estéril. Daí porque compara pessoas tementes a Deus a árvores que crescem à beira de um riacho.
Somos todos árvores, a questão é: onde estamos plantados? Sabe que sempre se pode transplantar árvores? Outro o faz,o que nos lembra que ninguém é auto-suficiente, nem que se pense assim. Àrvores, como se sabe, não tem pés. Ninguém precisa nascer e morrer no mesmo canto, fatalisticamente. Uma das técnicas de produção agrícola é a repicagem. A planta é semeada num lugar e depois de certo tempo, para que se desenvolva melhor, muda-se para terrenos especialmente preparados. Mude-se.
Convém, entretanto, escolher um bom lugar. Afirma o salmista que à beira de um riacho é o mais indicado. Ele não diz, faço-o por conta, o riacho é Deus. Ele, supremo bem, fonte perene de alimento e vigor. Árvore nenhuma murchará ao seu lado, ao contrário, dará frutos a seu tempo, as folhas estarão sempre verdes e viverá longuíssimos anos. Eis um sentido de ser árvore, eis um sentido de existir nesta terra: ser produtivo, estar encaixado, estar vinculado, não ser desterrado, doente, impróprio.
Árvore e riacho têm íntima comunhão. Nas profundezas da terra as raízes se entrelaçam e esticam-se em direção às águas. Isto é ignorar todos os outros apelos, nas palavras do salmista, não se deixar levar pelo conselho dos maus, pois a raiz de árvore que não busca a água realiza um feito antinatural. Levará a árvore à morte se se junta aos maus que “não querem saber de Deus e... que zombam de tudo o que é sagrado!” Equivale dizer que são secos, ásperos, áridos.
Assim, quero ser árvore, qualquer que seja, plantado à margem do rio da vida que alegra a cidade de Deus, a morada sagrada do Altíssimo (Sl 46.4).