José Reinaldo
O senador José Sarney, ex-deputado, ex-governador, ex-presidente da República, membro da Academia Brasileira de Letras, um homem que conseguiu muito mais na política do que poderia alcançar por seus méritos, a olhos de muitos, deve parecer um homem feliz e completamente realizado. Teve muito mais do que poderia sonhar, e gente assim geralmente se torna um conselheiro e uma pessoa especial que pensa em gastar os anos que lhe restam ajudando, aconselhando e dando exemplos. Mas não é assim que ele demonstra se sentir.
Juscelino, pelos seus méritos, ganhou tudo o que quis na política. Foi um presidente amado por todos os brasileiros por tudo O que proporcionou ao país e ao seu povo. O Brasil de Juscelino era uma euforia só. Chutamos para longe o famoso “complexo de vira-latas” que o grande Nelson Rodrigues enxergava em nós. De repente, em 1958, nos tornamos campeões mundiais de tudo. Futebol, boxe, tênis, basquete etc. Criamos a bossa-nova, que mudou e deu charme ao país, o Rio de Janeiro era uma maravilha incomparável, um verdadeiro paraíso. O brasileiro se tornou orgulhoso de seu país, e éramos admirados pelo mundo inteiro. Era a época de Marta Rocha e puxando tudo estava o “presidente bossa-nova”, Juscelino. Foi inesquecível a foto do presidente dirigindo o primeiro carro inteiramente fabricado no país.
Por isso Juscelino sofreu tanto pelas perseguições que passou a enfrentar. Eu tenho a impressão de que não entendia direito o que se passava com ele. Juscelino, que a tudo perdoava e que tinha uma imensa compreensão das dificuldades do povo brasileiro, que o amava, não suportou o exílio e os inquéritos que lhe foram impostos e acabou por se tornar um homem triste antes de morrer tragicamente em acidente de carro. Mas sempre amado pelo povo brasileiro, que não o esquece até hoje.
Uma tarde eu exercia a superintendência da Novacap, Companhia Urbanizadora da Nova Capital, em Brasília, e recebi a visita do grande arquiteto Oscar Niemayer. Não era uma visita de trabalho como foram tantas outras. Ele vinha pedir por Juscelino. A anistia havia sido decretada e restava um processo aberto, que não havia sido concluído, na Justiça. Era uma ação movida anos atrás pela Novacap contra o ex-presidente. Ele era acusado de ter usado funcionários da companhia para pintar e reformar o seu apartamento na avenida Atlântica, Copacabana, Rio de Janeiro. Era um processo considerado por todos um verdadeiro absurdo, e Oscar Niemayer vinha pedir o seu arquivamento para que Juscelino pudesse voltar em paz ao Brasil. Chamei o saudoso dr. Dario, consultor jurídico da Companhia, e dentro de pouco minutos decidimos retirar a ação, nunca concluída, permitindo assim a volta do grande presidente ao Brasil.
Dois homens que, de maneira diversa, chegaram ao topo da política, Juscelino e Sarney. Juscelino, amado sempre, nunca perseguiu ninguém e sempre usou a sua influência para unir o país e lutar pela conciliação e pelo desenvolvimento. Nunca usou o imenso poder que teve em suas mãos para perseguir adversários, nem em Minas nem no país. Sarney, ao contrário, tornou-se muito mais poderoso à sombra da popularidade do presidente Lula do que quando exerceu a Presidência. E usou toda a força que lhe caiu nas mãos para impedir que o Maranhão recebesse grandes projetos públicos ou privados de dimensões capazes de desenvolver o estado. Além disso, chefiou uma oligarquia durante 40 anos que atrasou o estado e empobreceu sua população.
Mas, principalmente nos últimos anos, notabilizou-se pela perseguição sem tréguas aos seus adversários políticos, novos ou velhos, da maneira mais torpe disposto a arrasar com todos os que ousam ter outra opinião ou contrariar os interesses da família.
Agora se notabiliza por perseguir jornais e jornalistas. Uma ironia para quem se dizia orgulhoso de portar carteira de jornalista. Uma dupla ironia para quem é dono do maior complexo jornalístico do estado. Não consegue mais defender a sua trajetória política com os próprios meios de mídia que dispõe simplesmente porque os fatos são mais fortes que versões.
Bandeira Tribuzzi, grande intelectual e mentor do pensamento e dos propósitos dos primeiros anos da trajetória de Sarney e do seu grupo, que com a morte dele se tornou muito diferente, dizia que “não adiantava lutar contra os fatos”. Só insultar já não lhe basta. Passou a perseguir jornalistas por meio de processos em que exige indenizações milionárias ou mais recentemente processos penais. Quer que eles sejam algemados e presos. Única forma de sentir-se contente.
Já são nove jornalistas no Amapá e aqui a perseguição é total sobre o Jornal Pequeno e sobre Lourival Bogéa. Quer R$ 220 mil, a prisão de Lourival e mais a falência do jornal. É o mundo ideal de Sarney. Sem contraditório, só ele mandando insultar todo mundo. E quem viu a peça inicial garante que é embasada não só em matérias do jornal como em reportagens transcritas da Veja, de O Estado de S. Paulo e outros veículos. Por que então não processar a Veja? Medo de mostrar ao Brasil quem ele é realmente?
Deve ser muito triste para alguém que foi o que ele foi viver seus anos de vida avançada amargurado, só pensando em fazer o mal a quem ele considera adversário. É uma tragédia pessoal. Que vida, onde tenta se imortalizar na marra tomando, por meio de chicanas jurídicas, um prédio público, tombado, o Convento das Mercês, onde pensa ter sua última morada. Nos seus devaneios, o povo em romaria vai visitar o seu túmulo, conforme disse à revista CartaCapital. Muito triste.
O ex-governador José Reinaldo Tavares escreve para o Jornal Pequeno às terças-feiras.