O secretário de Meio Ambiente e Recursos Naturais, Othelino Neto trouxe para São Luís o V Fórum de Recursos Hídricos do Nordeste e de Órgãos Gestores Estaduais, o que nos povoa de reflexões e estatísticas sobre o potencial hídrico do mundo, do Brasil e do Nordeste.
Não faz muitos dias, diante de um desses vazamentos de água que duram dias seguidos em São Luís, um de nossos repórteres foi surpreendido pela frase de um velinho que passava: “a humanidade ainda vai se arrepender amargamente disso”.
Embora alguns vejam uma certa dosagem de catastrofismo e falta de ciência na maioria das previsões sobre o Meio Ambiente, é bom desconfiar que o velinho pode estar certo. A Conferência Internacional sobre Meio Ambiente (1992) realizada em Dublin, estabeleceu, entre seus pontos principais, que: a água doce é um recurso finito e vulnerável essencial para a conservação da vida e manutenção do desenvolvimento e do meio ambiente; a água tem valor econômico em todos os seus usos competitivos e deve ser reconhecida como bem econômico.
De fato, de toda a quantidade de água existente no mundo 97,2% é água salgada, lembra o secretário Othelino Neto acrescentando que a água presente na neve ou no gelo corresponde, 12,1%, a água doce a apenas 0.8% e o restante existe em forma de vapor atmosférico. A água doce tem reservas estimadas em 8,2 milhões de metros cúbicos, mas desse total apenas 1,2 % se apresenta na forma de rios e lagos, o restante 98,8% é água subterrânea. Os continentes mais favorecidos em reservas de água doce são Ásia, América do Norte e América do Sul.
Zilda Maria Ferrão Borsoi e Solange Domingo de Alencar Torres em referências de apurada busca bibliográfica (Banco Mundial, BNDES etc) mostram em artigo que a metade da água subterrânea da terra é considerada inviável para o ser humano, pois está a mais de 800 metros de profundidade, embora sirva para o consumo devido á filtração e reações biogeoquímicas. Mesmo assim, existem países como a Arábia Saudita, Dinamarca e Malta onde as águas subterrâneas são o único recurso hídrico disponível. Em outros países, como Áustria e Alemanha 70% da água utilizada é subterrânea, o que nos encaminha na direção de um outro problema. Segundo a Water Ressources Association entre 8 e 11 milhões de pessoas morrem anualmente no mundo por causa de problemas relacionados ao controle da qualidade da água, ou seja, doenças provenientes da contaminação ou da quantidade (inundações e secas).
Os conflitos entre países usuários de uma mesma bacia são resolvidos através de tratados internacionais, mas não se pode dizer até quando, pois, segundo o Banco Mundial existem mais de 200 bacias hidrográficas comuns a 2 ou mais países, o que corresponde 80% da superfície do mundo.
O potencial hídrico do Brasil é de 53% do total referente à América do Sul e prováveis 15% da água de todo mundo está em território brasileiro. De acordo com o Departamento Nacional de Água e Energia Elétrica DNAEE, a bacia amazônica concentra 72% do potencial hídrico nacional. Infelizmente, a distribuição desse potencial hídrico é injusta: 70% para a região Norte, 15% para a região Centro Oeste; 12% para as regiões sul e sudeste e apenas 3% para a região Nordeste.
Valério Igor P. Victrorino, no artigo “Monopólio, conflito e participação nos recursos hídricos”, cita DUNLAP, 1997: “durante um século os sociólogos trabalharam majoritariamente pensando que os constrangimentos causados à natureza não seriam relevantes para a formação e o desenvolvimento das instituições sociais. Como ciência criadora do Iluminismo, a sociologia partiu do pressuposto de que o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e das comunicações permitiria à sociedade isentar-se da natureza superando o determinismo geográfico e biológico”. Cita também BUTTEL: mesmo que seja possível achar alguns elementos de estudo das relações entre sociedade e natureza em Karl Marx, Émile Dukheime e Max Weber é como se a organização social pairasse acima do mundo natural, com uma dinâmica independente e explicável somente pela correlação entre as variáveis puramente sociais.
Inegável que a sensibilização global para a questão ambiental nas últimas décadas do século XX – representada pela escassez e poluição crescentes generalizadas e mais significativamente perigosas – leva inúmeros sociólogos hoje a crerem em seu reflexo sobre a própria transformação das instituições sociais.
Deve ser tudo isso que aquele velinho tentou resumir em uma única frase.