PALAVRA DE ESPECIALISTA
Manoel Rubim da Silva
Auditor Fiscal da Receita Federal – Professor do Decca-Ufma
email: manoel_rubim@uol.com.br
Voltamos, neste país, após mais de uma década, a manifestar a nossa apreensão com o processo inflacionário. Não estamos sozinhos, nessa escalada de aumento dos preços de vários produtos, especialmente dos alimentos. Desta feita, temos como companheiros de infortúnio vários países tidos como desenvolvidos, que também sofrem com o substancial aumento dos preços dos alimentos e, particularmente, dos preços do petróleo, que em cinco anos subiu de US$ 35, o barril, para US$ 140. O que mais preocupa os estudiosos dos assuntos econômicos, não é somente o processo inflacionário, e sim, ao mesmo tempo, uma redução do nível da atividade econômica, em alguns países, especialmente nos EUA, por decorrência dos efeitos deletérios da sua crise imobiliária, sub-prime, que abalou, por reflexo, várias grandes economias do mundo..
Observem que estamos diante dos seguintes números, em termos de inflação: 3,6%, ao ano, na Europa; 8,3% na China; 4,0 nos EUA e 12,7% na Rússia. Neste país que já conviveu com a hiperinflação, de 90% ao mês, nos anos oitenta, estamos com os olhos esbugalhados diante da inflação anual, segundo o Banco Central, da ordem de 5,8%, diante de uma meta anual de 4,5%. Enquanto isso, nossa economia, que cresceria, este ano, próximo dos 6%, deverá crescer 4,5%, e a economia mundial, que cresceu, no ano passado, em média, 4,9%, crescerá, apenas, 3,7%, segundo a “Perspectiva Econômica”, publicação do FMI. A redução do crescimento do ritmo da economia mundial, assim como deste país, tem o propósito de não assanhar muito os preços dos produtos e serviços, face à demanda.
A Ciência Econômica nos ensina que a inflação pode ser explicada por várias teorias, entre as quais destacamos: monetária, ou quantitativa, keynesiana, de custos, estrutural e inercial. Quais seriam as causas do atual processo inflacionário, que tanta inquietude tem causado aos gestores de vários países do mundo? O festejado colunista do Financial Times, Martin Wolf, em recente artigo, afirmou que duas tempestades estão sacudindo a economia mundial, quais sejam: a tempestade inflacionária dos preços dos commodities e a financeira deflacionária, que se não bem administrada, pelo “Concerto das Nações”, nos tempos de globalização, nos poderia levar ao pior dos mundos: a estaglação, redução da atividade econômica com a subida de preços. Após percuciente comentário acerca de como administrar a economia mundial, entre duas crises, Martin Wolf recomenda que os aumentos dos preços do petróleo devam ser repassados aos consumidores e não subsidiados, assim como deve haver maior investimento público e privado em pesquisas de energia, particularmente, as renováveis.
Tomando conhecimento do que acontece no mercado financeiro mundial, especialmente no mercado futuro de commodities, acredito que o mesmo está nocauteando a economia mundial, face aos absurdos aumentos de preços, causando, inclusive, fome, nos países mais pobres, pois os preços de arroz, trigo, milho, soja, carne e outros gêneros essenciais ao sustento da humanidade, subiram de forma acentuada. Os pobres estão sofrendo de forma cumulativa, reduziram o consumo de alimentos, que subiram muito, e ainda testemunham os seus parcos recursos serem canalizados, via especulação, para os mais ricos especuladores do mundo.
Os especuladores, que inflaram o mercado imobiliário americano, e depois deixaram o prejuízo de bilhões de dólares para o governo (povo), estão migrando do mercado acionário (pouco rentável, face às suas incomensuráveis ganâncias) para o mercado futuro de commodities, especulando de forma desenfreada, sob o beneplácito dos governos, especialmente dos EUA, local em que se encontram as grandes plataformas de operação dos mercados de commodities, quais sejam: as bolsas de Chicago e Nova York. Para que se tenha idéia do tamanho da especulação no mercado futuro de commodities alimentares, em 2003 foram investidos U$ 13 bilhões, em março de 2008, chegou-se a U$ 260 bilhões de dólares. Por outro lado, o volume de grãos negociados na Bolsa de Chicago, no mercado futuro, já é superior a 30 (trinta) vezes a produção anual americana de grãos. Esperem, pois, a Reunião do G8, no Japão, que o Brasil participará, como convidado, para verem “o pau quebrar”. O Banco Mundial deverá continuar atribuindo o aumento de preços dos alimentos ao incremento da produção de biocombustíveis, todavia, o Presidente Lula, que chega ao Japão, no dia 08/07, com o feeling apurado, apontará o dedo para a maldita especulação financeira. Vamos aguardar.