Eudes Oliveira de Alencar
eudesalencar@hotmail.com
— Como foi o filme?
— Muito legal. Um homem chamava o Indiana Jones de “jonesinho”. Engraçado, não é? Ele lutou contra uma mulher muito má e os homens que ela comandava.
— Que mais você viu? Quem eram os companheiros do Indiana?
— Vi um monte de coisa. As formigas gigantes. A mulher má foi sugada pelos ets. Os olhos dela espocaram. E o Indiana foi ajudado pela ex-mulher dele e pelo ex-filho.
— Ex-filho? Que história é essa?
— É que ele não conhecia o filho, mas depois ele se tornou filho de novo porque o Indiana Jones casou com a mãe dele, entendeu?
— Entendi, mas não existe ex-filho. Um filho é para sempre. Ele só não sabia que o filho existia porque ninguém contou, nem a mãe do menino.
Ele desviou o tema, e continuou contando de forma épica as peripécias do ator no filme. Aquela conversa estava ficando complicada. A pergunta que fiz era para provocá-lo e para ver no que daria esta história de ex-filho.
Como cinéfilo, lembro de uma fala do ator Michael Caine em “O sol de cada manhã”. Ele diz a seu filho, representado por Nicolas Cage: “Os filhos são uma preocupação eterna.” Na história, seu filho está perdido, separou-se, mas não consegue esquecer a ex-esposa, tem uma filha de quem não cuida e está às voltas com mudanças profissionais. O pai, mesmo com uma doença terminal, esquece-se de si e preocupa-se com o filho desorientado.
Nesta época em que os jornais de quando em vez se ocupam de catástrofes familiares, o mais recente e que dominou a atenção do país, o caso Isabela, revela um lado humano que a todos soa como algo tão antinatural quanto o tempo andar ao revés. Embora pais sejam capazes de matar seus próprios rebentos, abandoná-los, negá-los, um filho ou filha jamais deixará de sê-lo, pelo simples fato de que não se pode arrancar a metade da carne que ali se instalou e formou um novo ser.
O mais comum, porém, ainda bem, é que pais e mães jamais esqueçam seus filhos. Estes, aos seus olhos, parecem nunca crescer, pois o tempo mental para os pais anda muito devagar. Inda outro dia, lembram sempre, era só uma meninazinha, um moleque a quem se ensinava a portar-se à mesa, com quem se ralhava para não enfiar o dedo no nariz em público. Por favor, não me entendam mal, não defendo esta mesma visão como uma doença.
A parábola conhecida como o filho pródigo (Lucas 15. 11- 32) revela um destes pais, que mesmo tendo sofrido uma profunda decepção com seu filho, ainda sim, jamais o esqueceu. Um dado importante que nos falta nesta história é o tempo. Não se sabe quanto tempo aquele filho desmiolado viveu, segundo a Bíblia, dissolutamente. Algo que quer dizer, na mais absoluta devassidão, de forma libertina. Ele não se impôs nenhum limite. Enquanto houve dinheiro provou todos os prazeres que lhe bateram os olhos, a nada se furtou. Neste meio tempo, especulo, nem uma notícia ao pai, nem uma palavra.
O versículo 20 retrata a espera angustiada do pai. Por quanto tempo? Quantas vezes ele se postou na varanda da casa e olhou o horizonte do caminho e pensou: ah, se meu filho voltasse! Quantas vezes chorou, ali mesmo, sem saber o que havia acontecido àquele filho ingrato.
Aquele era mais um dia em que carregava seu fardo de perda. Parou um instante para olhar ao longe, empurrado pela esperança. Lá distante um vulto, um andrajoso a pé, um mendigo. Seus olhos espremidos pelo sol e pela vista já curta não lhe davam nitidez, mas algo naquele homem de quem sequer podia ver o rosto, dizia que era seu filho: “Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou.”
O filho altivo, orgulhoso, soberbo e arrogante era menos que nada. Agarrados e aos prantos, choraram, enquanto o filho pelejava para dizer as palavras tantas vezes ensaiadas ao longo da jornada de volta: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.” E quem disse que o pai ouviu ou foi passar-lhe um bom pito, ou dizer: bem que avisei?! Nada disso. O pai, naquele momento, era todo compaixão. Aquele homem era um filho perdido, agora achado, um filho morto, agora redivivo. Este pai encarna à perfeição o poema: “Nos demais,/todo mundo sabe,/o coração tem moradia certa,/ fica bem aqui no meio do peito,/ mas comigo a anatomia ficou louca,/ sou todo coração.” (Maiakovski)
Há momentos que palavras de acerto são desnecessárias. O olhar, tão somente o pedido de perdão, desculpa, por mais simples que seja, é suficiente para jogar num fosso sem fundo as mágoas doloridas, as tristezas, os rompantes de ignorância. É necessário, entretanto, que tudo comece com pedido de perdão e o perdão do ferido ou não haverá encontro. O que importava para aquele pai não era a história passada, o erro cometido que tantos insistem em alimentar todos os dias como a um bicho de estimação perverso. O que se pode fazer com o que foi feito senão matá-lo com o reencontro, com a misericórdia?
Aquele filho não fez outra coisa que não declarar seu pai morto quando pediu sua parte na herança. Testamento só tinha validade com a morte do testador, essa era a lei. De quantos modos um filho diz que seu pai está morto? De quantos modos um pai percebe o filho como morto? A cada pequena distância. A cada desconsideração. A cada indiferença. A cada desleixo no cuidado, na educação, no sustento. A cada afronta à autoridade. A cada imposição de vontade e humilhação. A cada desrespeito.
Há muitos filhos “mortos”, “perdidos”. Há muitos pais na varanda olhando o caminho. As distâncias, em muitos casos, fisicamente falando, são ínfimas. Convivem na mesma casa. Não se trata de diferença de gerações, trata-se de falta de cultivo do diálogo, de sentar juntos, de fazer coisas juntos, que deve começar bem cedo, quando os filhos ainda querem nossa companhia. Porque depois, você sabe, eles querem outras companhias, é natural que assim seja.
Esperar receptivo, dar meia volta, promove o encontro. Esta parábola resume o drama universal. Deus espera filhos. Ele nunca se cansa.