P/ Pr. Irailton Melo
Vamos refletir hoje sobre uma dificuldade que está por detrás da maioria dos nossos problemas pessoais: a dificuldade que temos de identificar o que é primário e o que é secundário em nossas vidas e equilibrar o essencial e o funcional. Para isso, vamos analisar a história dois tipos de personalidades, duas características de comportamento, de duas mulheres denominadas de Marta e Maria. A história delas se encontra em Lucas 10:38-42: 38 Jesus e os seus discípulos continuaram a sua viagem e chegaram a um povoado. Ali uma mulher chamada Marta o recebeu na casa dela. 39 Maria, a sua irmã, sentou-se aos pés do Senhor e ficou ouvindo o que ele ensinava. 40 Marta estava ocupada com todo o trabalho da casa. Então chegou perto de Jesus e perguntou: - O senhor não se importa que a minha irmã me deixe sozinha com todo este trabalho? Mande que ela venha me ajudar. 41 Aí o Senhor respondeu: - Marta, Marta, você está agitada e preocupada com muitas coisas, 42 mas apenas uma é necessária! Maria escolheu a melhor de todas, e esta ninguém vai tomar dela. A história de Marta e Maria tem sido contada e recontada ao longo dos anos, quase sempre com uma exaltação do estilo contemplativo de Maria e uma condenação explícita do ativismo de Marta. Eu muitas vezes preguei mensagens nestes termos. Em alguns aspectos ia além, instigando os meus ouvintes a escolherem o tipo de comportamento que iriam adotar dali em diante: se o comportamento ascético, contemplativo e carola de Maria, ou o comportamento ativista, combatente e secularizado de Marta. 2
Numa conversa recente que tive com um pastor amigo, o meu entendimento se abriu para a compreensão de que esta história não está registrada na Bíblia para nos forçar a escolha de um estilo de personalidade beatificado, devotado, em detrimento da personalidade que se preocupa com as tarefas normais do dia a dia, da comida a fazer, da roupa para passar, do trabalho a realizar, das contas a pagar, etc. Entendi que a questão, aqui, está relacionada à nossa capacidade de equilibrar as coisas; de saber discernir o primário do secundário, o essencial do funcional. Assim, compreendi que Marta e Maria não são modelos de comportamentos isolados, a serem adotados individualmente, como se alguém pudesse viver a vida toda contemplando ou a vida toda trabalhando. Marta e Maria são modelos comportamentais inseparáveis, que representam as nossas ambigüidades, nossos equívocos, nossas imprecisões e nosso jeito confuso de viver, colando em primeiro plano aquilo que deve estar em segundo plano e em segundo plano, aquilo que deveria vir em primeiro plano. Vamos dar uma chegadinha aqui na casa de Marta e Maria? Veja o que está acontecendo:
1. Jesus está sala sentado, ensinando, e Maria, aos seus pés, ouve atentamente cada palavra dita por Jesus.
2. Marta, em função da visita ilustre de Jesus, corre para dar uma geral na casa e preparar alguns deliciosos quitutes.
3. Lá pras tantas, Marta se dá conta de que está fazendo tudo sozinha, enquanto Maria, "joga conversa fora" com Jesus - em sua percepção, claro.
4. Marta se aproxima de Jesus e solta o verbo: - O senhor não se importa que a minha irmã me deixe sozinha com todo este trabalho? Mande que ela venha me ajudar.
5. Jesus olha para Marta e responde: Marta, Marta, você está agitada e preocupada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária! Maria escolheu a melhor de todas, e esta ninguém vai tomar dela.
6. Jesus não está dizendo a Marta que ela está errada e que Maria está certa. O que Ele está dizendo é que estão havendo comportamentos díspares, desiguais, diferentes, que precisam ser compreendidos.
Numa outra versão bíblica (RA), o texto diz que "Marta agitava-se de um lado para o outro, ocupada com muitos serviços". Jesus certamente observou toda aquela agitação e aguardou o momento de mostrar para Marta que, por traz daquele zelo doméstico havia era um descompasso, quem sabe produzido por um déficit emocional, uma necessidade latente de reconhecimento, de ser vista, de ser valorizada. "Marta, Marta, você está agitada e preocupada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária!". Ao contrário do que muitos pensam as palavras de Jesus para Marta foram palavras de ternura: "Marta, Marta"... O uso de palavras duplicadas por Jesus, tem esse sentido, além de contrastar com os estardalhaços de Marta e com sua atitude crítica em relação ao próprio Jesus: "O Senhor não se importa...". "Marta, Marta, o problema não está em mim, nem em Maria, mas em você. A vida, filha, tem poucas necessidades reais; você anda preocupada com muitas coisas, mas você pode passar sem muitas dessas coisas que estão ocupando o seu tempo". "Marta, Marta, o problema não é o que está acontecendo fora, mas o que está acontecendo dentro de você". Aplicação
Os comportamentos de Marta e Maria nos habitam, como numa representação clássica dos conflitos entre a natureza humana (carnal) e a natureza espiritual. E sempre geram muita desordem quando não são bem gerenciados. 4
Todos nós vivemos momentos na nossa vida, em que ora somos "Maria": contemplativos, cheios de fé e de bondade, sempre aos pés de Jesus em oração, lendo a Bíblia, testemunhando de Jesus até pra quem já é cristão... Outra hora somos "Marta", sem tempo para Deus, demasiadamente ocupados com inúmeros afazeres, vivendo sob a tirania do urgente. Como resolver isso? Para resolvermos isso precisamos encontrar o equilíbrio entre o primário e o secundário, entre o essencial e o funcional; isso em todas as áreas da nossa vida: espiritual, familiar, profissional, comunitária...
Enquanto não soubermos distinguir o que é primário e o que é secundário em nossas vidas, a serenidade e do equilíbrio pessoal não passarão de ideais inatingíveis.
O que é primário: A casa ou família que nela habita? O desempenho do filho na escola ou o filho? O emprego ou os benefícios sociais que ele gera? A reunião da célula ou a vida em comunidade? O que é primário? Arrumar a casa é importante, mas curtir a família é mais ainda. Acompanhar o desempenho escolar do filho é importante, mas ouvir o que ele tem a dizer é mais importante ainda; ser um profissional padrão é importante, mas agir de maneira ética e respeitar às pessoas que trabalham com você, é mais ainda; ir para o encontro da célula é importante, mas viver comunidade é mais ainda; vir ao encontro dominical é importante, mas sair daqui com o compromisso de levar a sério os princípios do Evangelho, é mais ainda; fazer coisas é importante, mas compreender por que as fazemos é mais importante ainda. ***** "As coisas mais importantes nunca devem ficar à mercê das menos importantes", diz um pensador do nosso tempo (S. Covey). ***** 5
Pense um pouco: se as coisas mais importantes devem vir primeiro, porque não fazemos primeiro o mais importante? Qual a razão desse descompasso? CONCLUSÃO Um amigo me disse: "não são as coisas primárias ou essenciais que complicam as nossas vidas, e sim as secundárias, quando não sabemos colocá-las no devido lugar". De fato. Você nunca ouviu um crente reclamando por ter passado mais tempo com Deus em oração e lendo a Bíblia; ou uma família reclamando porque, nesta semana, tivemos mais momentos de curtição e comunhão do que de costume; ou uma esposa reclamando porque o marido apareceu com a mania de ouvi-la atentamente, deixando em segundo plano a final do campeonato e o seu time do coração. Você também jamais ouvirá o seu líder de célula reclamando que, agora, vocês inventaram de cuidarem uns dos outros, levando as cargas uns dos outros, de se visitarem como irmãos e irmãs; pior, estão lendo a Bíblia todos os dias e não cessam de orar pela salvação dos seus familiares e amigos, não vendo a hora de eles ocuparem aquela cadeira vazia. Percebe? "Não são as coisas primárias ou essenciais que complicam as nossas vidas, e sim as secundárias, quando não sabemos colocá-las no devido lugar". POR FAVOR, PENSE NISSO: 1. De tudo o que você faz hoje, o que é primário e o que secundário? 2. Marta ou Maria? Qual tipo de comportamento tem prevalecido em seu estilo de vida? 3. Se as coisas mais importantes devem vir primeiro, porque você não consegue fazer primeiro o mais importante? Qual a razão desse descompasso?