Abimael Ferracinni*
“Irmã canadense” de São Luís
completa 400 anos e o Maranhão
desperdiça mais essa oportunidade...
Infelizmente, ainda são fortes as evidências de que pode se repetir o erro crasso que foi cometido no episódio da candidatura de São Luís para a Copa de 2014, remanescendo a suspeita de que ninguém aqui quer fazer do Maranhão um estado “de verdade”, republicano e moderno, plenamente integrado na comunidade internacional, motivo de inspiração e orgulho para todos os maranhenses, mas sim querem preservá-lo eternamente como um curral eleitoral, isolado e atrasado, totalmente submetido aos seus projetos políticos pessoais.
O fato é que todo o contexto adverso, demonstrado na primeira parte desse artigo, impediu que o Maranhão tomasse a iniciativa de estabelecer um sólido e saudável intercâmbio cultural com o chamado “Canadá Francês”, intercâmbio esse fundado em razões históricas, e não apenas em simples interesses comerciais, o que faria com que os canadenses tivessem respeito e admiração pela nossa sociedade, apesar da nossa pobreza e dos nossos problemas sociais.
Perdemos assim, entre outros possíveis benefícios, a oportunidade de atrair turistas canadenses para o nosso estado, num turismo de qualidade, familiar, sem a conotação mercenária e sexual que está criando problemas de prostituição aqui e nos demais centros turísticos do país.
Registre-se, porém, por uma questão de justiça, que esse prejuízo só não foi total porque a Prefeitura de São Luís estuda a possibilidade de publicar uma mensagem de parabéns à cidade de Québec, pela passagem do seu 400º aniversário, em alguns jornais do Canadá.
Com relação à tese que a professora Lacroix apresenta agora, de que São Luís teria sido fundada somente em 1616, por conta do traçado urbanístico que lhe deram os portugueses, cabe dizer que nunca se negou, nem se discutiu, que a cidade teria essas características, mas isso de forma alguma pode sustentar a idéia de que a fundação da cidade teria ocorrido somente no ano agora apontado pela professora.
A ocupação européia da ilha de Upaon-Açu foi constante, a partir de 1612. Não houve, aqui, um período de abandono do solo urbano, entre a ocupação francesa e a ocupação portuguesa, que pudesse configurar a fundação de uma nova cidade e nem há precedentes históricos que apóiem a idéia de que o traçado urbanístico é o que determina o nascimento de uma cidade.
Alterações urbanísticas radicais, trocas de nacionalidade e mudanças de nome são apenas novos capítulos na História de uma cidade e não servem para caracterizar uma nova fundação. Confira-se o caso do Recife, como exemplo.
Sob o domínio dos holandeses, a atual capital de Pernambuco passou por severas reformas, que lhe deram características típicas de uma cidade holandesa e ela teria sido, até, rebatizada com outro nome... Há algum historiador que, por conta desses fatos, defenda a idéia de que a cidade do Recife teria sido fundada por Maurício de Nassau?
E se este exemplo não for suficiente, deve-se então examinar o que se passou na cidade euro-asiática de Bizâncio, fundada pelos gregos, que depois se tornou Constantinopla, a capital do Império Romano do Oriente, e que hoje é a muçulmana Istambul, na Turquia... Fases, nomes, religiões, nacionalidades e estilos arquitetônicos distintos, na longa existência de uma mesma cidade, que nasceu grega. Apenas isso... Mesmo que a ocupação francesa de São Luís tenha sido breve, ela ocorreu e negá-la ou diminuí-la é faltar com a verdade para a nossa História. Os franceses fundaram São Luís e os portugueses deram continuidade a ela, modificando (ou não) o seu traçado original. Essa é verdade que há nesse episódio.
Se a professora Maria de Lourdes insiste em considerar “um absurdo” a idéia de que a cidade de Québec seria a “irmã canadense de São Luís”, por entender que os franceses permaneceram lá por mais tempo, dando à cidade canadense a arquitetura e a cultura típicas da França, alguém precisa lembrar à professora que os franceses que estiveram no Maranhão não deixaram esta terra por livre e espontânea vontade, mas sim foram expulsos por ordem do Rei de Espanha, em 1615.
Se Daniel de La Touche e seus comandados permaneceriam aqui, se hoje falaríamos o idioma francês e viveríamos numa cidade de características francófonas e se as condições no Maranhão seriam bem melhores do que sempre foram, mais uma vez, isso não é História, é mera especulação.
Não se trata, aqui, de glorificar os franceses e nem de desonrar os vínculos históricos e culturais que temos com Portugal, mas sim de estabelecer, com precisão e imparcialidade, o que realmente aconteceu na ilha de Upaon-Açu, no início do século XVII. Um trabalho que todo bom Historiador sempre deveria fazer.
Lamenta-se que a Faculdade que formou a professora Lacroix não tenha lhe ensinado essa lição. Ou que ela não a tenha aprendido.
E, depois de reafirmar como um “absurdo” a existência do vínculo histórico entre Québec e São Luís, sobreveio a notícia de que a professora Lacroix viajou para o Canadá, justamente para participar das celebrações dos 400 anos da cidade de Québec, numa viagem que talvez seja financiada pelo dinheiro que ela obteve com a venda de seus livros por aqui.
Enfim, assim é o Maranhão. Foi a esse ponto que chegamos. Quem deveria trabalhar para o aperfeiçoamento da nossa História se nega a fazer isso e prefere se promover com o uso de uma controvérsia antiga, que nem é considerada por Historiadores sérios do Brasil, nascida das mentes delirantes de intelectuais pretensiosos, que aparentemente fizeram isso apenas para semear a discórdia entre nós, enfraquecendo ainda mais o valor histórico e institucional do Maranhão.
Que sociedade democrática e madura podemos ser, quando até mesmo um “intelectual”, ou uma autoridade acadêmica, não reconhece que cometeu um equívoco e arrogantemente se recusa a corrigi-lo?
Que tipo de pessoas somos nós, que consideramos esse ato de reconhecimento de um erro como humilhante demonstração de fraqueza, a ser evitada a qualquer custo?... Afinal, não é próprio do ser humano cometer erros e buscar consertá-los, sempre que possível?...
O que mais impressiona não é a professora Maria de Lourdes divulgar essas idéias e omitir informações sobre a cidade de Québec e o “Canadá Francês”, uma região que, sabe-se agora, ela conhece há anos, com o intuito de preservar a seriedade de sua pesquisa e as vendas de seus livros.
O que impressiona realmente é ver como há pessoas aqui dispostas a utilizar essas idéias como pretexto para sabotar qualquer iniciativa de se romper esse isolamento sócio-cultural que ainda existe no Maranhão, como se isso fosse possível em plena era da internet e da globalização, numa demonstração do que somos uma sociedade de otários ou, pior, de pessoas que sempre encontram motivos para fugir dos desafios inerentes à vida, evidenciando o quanto são levianos e covardes.
E há até quem pense que, agindo assim, estará sendo esperto e que se “dará bem”, lucrando algo com essa atitude. Não se percebe que, com essas ações, destruímos o tecido social, prejudicando a todos e que, em algum momento e de alguma maneira, esse prejuízo também afetará aqueles que deram causa à ação nefasta.
Não se trata de um clichê moralista, nem de um princípio meramente religioso, mas da constatação empírica de que, enquanto vivermos em sociedade, precisamos observar as regras da boa convivência e a ética no trato com os semelhantes, sob pena de transformarmos em paranóica e ineficiente a sociedade em que vivemos.
Finalizando, segue aqui um recado para a professora Lacroix: Sinta-se à vontade para considerar esse artigo como uma crítica “agressiva”, professora... Mas esteja ciente de que a senhora fez por merecê-la.
Simplesmente não se pode mais admitir que permaneçam impunes as afrontas que estão sendo cometidas contra a História de São Luís, especialmente quando essas afrontas estão sendo praticadas por alguém que, por dever de ofício, teria a obrigação de combatê-las.
Afinal, parafraseando o provérbio popular, “Quem fala, ou escreve, o que não deve, corre o risco de ler, ou ouvir o que não quer”.
*Escritor
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