Limpando o rabo com os gênios da literatura
JM Cunha Santos (interino)
A pretexto de uma peça de teatro, espanhóis decidiram fabricar rolos de papel higiênico com transcrições de poemas inteiros e trechos de romances, peças, novelas e ensaios dos maiores gênios da literatura mundial. Não foram presos, nem estão sendo processados. Pelo contrário. Estão vendendo muito e até exportando, principalmente para o Brasil, como não podia deixar de ser. E já tem escritor desconhecido sonhando em ganhar o mesmo lugar de destaque: o ânus do povo.
A TV Globo anunciou a idéia com efusão e muito respeito pela criatividade dos criminosos. E não é difícil imaginar o cara que se senta no vaso gritando com hemorróidas limpando sua barbárie estomacal com “O sentimento do mundo”, de Carlos Drumond de Andrade.
Esdrúxula idéia essa que, finalmente, permitirá ao “mundo do texto” e ao “mundo do leitor” encontrarem-se no mais perfumado ambiente de todas os ensaios anatômicas.
E eu nem quero imaginar aquela situação em que versos de “Os Lusíadas”, de Camões são levados ao PROCON porque foram grafados de forma errada e o exigente rabo do professor de português não gostou.
E menos ainda quero pensar, mas sou obrigado, na cena desgraçada que não me sai mais da mente. No Chá das 5 da Academia Maranhense de Letras dois renomados escritores se encontram e um pergunta para o outro:
- Com quem você se limpou hoje?
- Com José Saramago, único Prêmio Nobel em língua portuguesa da literatura mundial e autor de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. E você?
- Com JM Cunha Santos.
- Que decadência, rapaz! Que decadência...
Só quero é ver alguém se limpar com textos do atrapalhado cavaleiro andante D. Quixote de La Mancha e não cair na gargalhada chamando a atenção do escritório inteiro, aguçando a curiosidade intestinal de seus colegas de trabalho. Mas também não deixo de ter pena do infeliz que, por falta de opção, for obrigado a se limpar com “Marinbondos de Fogo”, de José Sarney. Vai passar o resto da vida de cu ardido. E liso.
A idéia é por demais supimpa. Nem Daniel Defoe imaginaria tão solução rabinária para seu desventurado Robinson Crusoé tentando construir uma civilização na mata virgem.
Pensem só em dois músicos se encontrando e um dizendo para o outro:
- Tou com uma diarréia dos diabos. Hoje foi preciso a Nona Sinfonia de Betoven inteira pra eu me limpar.
Assim, alcançaremos a tão almejada convergência da literatura mundial. Obra contra obra. Boa obra e obra ruim com direito ao mesmo espaço de uma Bienal ou Bianal, se assim preferirem.
Uma última situação me veio á mente e vou deixá-la para apreciação de namorados e maridos ciumentos.
- Menina, como Fernando Pessoa é macio. Passa e entra com tanta delicadeza dentro da gente.
- Deixa de tu ser analfabeta. Camões é caolho, mas é muito mais gostoso!
Vão procurar o que fazer, cambada de espanhol, fdp.
NÃO APAGARÁS O PRÓXIMO
Gente é como luz artificial. Pode ser apagada. Apagada, não morta. Somos desligados constantemente no decorrer da vida. A cada vez que somos obrigados a admitir um erro, por exemplo. Quando, impotentes, assistimos a um crime e acompanhamos a impunidade do criminoso, alguma coisa se apaga.
Qualquer derrota. Seja a reprovação em um concurso, um livro não aceito pela crítica, um grande amor que vai embora e uma porção de holofotes se desligam dentro da gente.
Se de alguma forma ou por qualquer motivo, não nos sentimos livres, se atentam contra nossa liberdade, o apagão é geral e não adianta que tragam montanhas de fósforos e castiçais.
Se ferem nossos semelhantes, avenidas inteiras se apagam em nossos corpos. Se ferem nossos filhos, são países imensos que ficam às escuras em nossas almas.
Há pessoas que se apagam menos e outras que se apagam mais. Há até aquelas que nunca acenderam: os famintos, os sem teto, sem educação, sem saúde, sem escola, se amor. Todos os dias há alguém trabalhando apaga-los dentro deles mesmos.
Mais triste ainda é que há pessoas que se divertem apagando pessoas. Dessas não gosto de lembrar. Mas posso me lembrar de cada um dos que riram às gargalhadas me apagando.
Sensato seria que todos brilhassem sempre e que ninguém, por inveja ou incompetência se esforçasse tanto para apagar o brilho de ninguém. Ninguém quer, nem precisa ser apagado.
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