Instituiu-se a Lei Seca para evitar que motoristas irresponsáveis dêem cabo à própria vida e à vida alheia. Institua-se, pois, a Lei Seca para evitar que neste país o velho costume de “molhar a mão” não persista em meio às instituições públicas.
Imagine-se que o atendimento de acidentes em hospitais caiu 19% nos poucos dias em que vigora a Lei Seca no Brasil. Uma notícia até surpreendente para os padrões de aceitabilidade ou respeitabilidade dos brasileiros para com a legislação nacional. Dispa-se, portanto, o manto da impunidade com relação à corrupção para que não hajam dúvidas de que nessa banda suja e trôpega da América do Sul somos capazes de respeitar quaisquer leis.
Ninguém se iluda com o fato de que o trânsito no Brasil mata mais que muitas guerras por esse mundo afora, como a guerra do Iraque, por exemplo. Os que nas rodovias costumam molhar a garganta acabam, muitas vezes, marcando encontro de suas almas e das almas alheias no além. Mas com certeza os danos causados pelos que costumam molhar a mão não são inferiores. O dinheiro da corrupção no Brasil daria, tranqüilamente, para resolver a maior parte de nosso problemas na área da saúde. Até porque a inanição e a desnutrição geralmente têm origem precisamente aí, nos propinodutos de onde se desviam os recursos que deveriam satisfazer as expectativas da educação, da segurança, da saúde e de outras áreas essenciais para a vida urbana. Os que molham a garganta atropelam seus semelhantes literalmente; os que molham as mãos atropelam seus semelhantes e os semelhantes dos outros inconfundivelmente.
Sem sombra de dúvidas, portanto, que se a Lei Seca dos motoristas é capaz de esvaziar hospitais, uma Lei Seca para as mãos estendidas da improbidade o seria muito mais ainda. Sem catastrofismo, se formos conferir os mortos das gargantas molhadas e os cadáveres originados pelas mãos enxaguadas do crime contra o patrimônio público, o número de vítimas das mãos pode surpreender e ser bem maior que o número de vítimas das gargantas.
Por esse editorial não nos tomem por farsantes revoltados com a existência da Lei Seca. Não se trata de uma sátira à violência do trânsito. Estamos, na verdade, chamando a atenção para o fato de que o bafo que exala das gargantas não é maior que o mau cheiro que exala das mãos molhadas com o dinheiro público. A diferença é que as vítimas dos motoristas que dirigem por aí “na maior água” são muito mais visíveis ou palpáveis que as vítimas dos pilotos que dirigem esta Nação. O país acordou para punir a irresponsabilidade dos loucos do trânsito. Quando acordará para punir a irresponsabilidade dos bêbados da administração?