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EditorialFerrolho na boca

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4 de julho de 2008
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Manifestações de solidariedade na Assembléia para com o diretor do Jornal Pequeno, indignação de segmentos da imprensa nacional, inclusive para com essa postura dos censores pós-ditadura que insistem em amordaçar a imprensa.

O golpe será sentido pelas gerações que nos sucederem, tanto quanto foi sentida pela nossa. Foi um horror que poemas tivessem que ficar engavetados durante tanto tempo apenas porque falavam de gente, e gente era coisa proibida na visão estreita dos responsáveis pela censura.

Não poder dizer, não poder falar, pensar sem expressar o que pensa é, talvez, o pior de todos os sofrimentos da liberdade. A imagem do ‘ferrolho na boca’ foi criada precisamente para isso: para que se transmitisse a sensação de sufoco, de enforcamento que perpassa a mente do censurado.

Nada pode ser mais incômodo que não se ter o direito de externar o que pensa. A ponto de alguns recorrerem ao suicídio estético e ético e aprenderem a dizer apenas e exatamente o contrário do que pensam e sentem.

A censura cria uma raça de consternados, de coagidos. Pensem em gente que não tem o direito de pensar e, definitivamente, estaremos diante da suprema prisão, aquela que não lhe cerca o corpo, cerca a existência, que não lhe restringe os passos, restringe a alma. Não há moral ou filosofia que justifique a censura. Ela constitui o crime supremo de criar pessoas sem cérebro. Sem cérebro sequer para enlouquecer ou ser débil mental.

Todas as tiranias precisam da censura para subsistir, pois em qualquer lugar em que o pensamento seja permitido, o poder das armas será derrubado pela força do debate, da discussão de idéias. Ou, como diz Maurício Tractenberg, a censura mata o debate e aniquila a discussão.

Nós vivemos tempos de reuniões proibidas, literaturas apagadas, jornais reescritos; tempos de músicas não ouvidas, de poesias não declamadas, de ensaios escondidos, de frases de amor não ditas ou engolidas pelas gargantas das metralhadoras e bocas dos canhões. Sem canhões ou metralhadoras, apenas com o poder das leis, da Justiça e do dinheiro, querem trazer esses tempos de volta.

Só a podridão intelectual apóia a censura. Que opressão pode ser maior que esta de ser obrigado a pensar o que outros ditam, a achar o que outros acham, entender só o que outros querem que você entenda?

A censura é a opressão extrema. Através dela quiseram proibir até o evangelho cristão que hoje guia grande parte da humanidade.

Fica decretado, portanto, que todo aquele que se utiliza da censura, da ameaça, do poder e do dinheiro para impedir que fluam as idéias e pensamentos alheios, seja sobre que assunto for, não fazem parte da humanidade. Fazem parte das sub-raças escamosas que trabalham pela destruição dessa humanidade.

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