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O lazer

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Data de Publicação: 31 de julho de 2008
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Ralph J. Hofmann*

O que fará um homem com seu tempo de lazer? Um homem que não tem pensamentos abstratos, com pouca vida interna.

O ser humano dorme entre seis e oito horas das vinte e quatro. Passa três horas do dia com seus familiares ou amigos ou contatos profissionais comendo refeições. Oito ou dez horas trabalhando ou em trânsito, sobram aproximadamente três a cinco horas de lazer, em que um indivíduo poderá fazer exercícios físicos, ler, ver televisão, montar aeromodelos ou fazer sexo.

Mas o que fará um homem que foge desenfreadamente do trabalho regular. Que passa 82 % de seu tempo fora de seu escritório, e destes 82 % está 60% do tempo em trânsito em aviões, helicópteros, navios ou carros. Verá o Bob Esponja?

O que fará este homem que não vê noticiários para não se irritar, que odeia leituras, que não aprecia música se esta não puder ser acompanhada batendo numa caixinha de fósforos, e está excessivamente na mira do público para ter amantes teúdas e manteúdas. Companhias ocasionais? Nem falar. Apareceriam nas capas de revista em 24 horas.

Não parece ter uma intensa vida interna. Não aparenta estar considerando os destinos do mundo e do país. Parece ser um sujeito totalmente ligado a estímulos concretos, materiais. Não pratica o uso do poder senão em resposta a estes estímulos. Defende sua posição apenas pelo estímulo da vaidade, para ser “primo inter pares”, talvez a única faceta abstrata de seu ser. No mais é tão superficial como uma miss dos anos cinqüenta, com a diferença de que não alega ter lido “A Cidadela” de Cronin nem “O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry.

Claro que possui seus momentos de extravaso. Evoca seus dias de inocência com festas caipiras no dia de São João. Com churrascadas e coelhadas na granja que ocupa. Meras lembranças, pois para tanto aproveita o exército de estafetas graduados com os melhores diplomas que possam ser comprados, para buscar salsichas especiais na sua terrinha. Mas seus companheiros nestas tertúlias passam a escassear, mudam, passam a ser cada vez menos os companheiros dos seus anos de conquista. Muitos foram vítimas de sacrifícios ao deus do poder. Outros ao deus do dinheiro. Para ter companhia, não raro precisa convidar figuras emproadas que parecem estar fora de lugar, algo como homofobos em parada gay. De tênis camisetas e bermudas ou jeans informais parecem estar nus. Precisam da proteção de um terno de gravata e sapatos de couro alemão. Seu assador de costela favorito tentou ser banqueiro. Melhor teria sido o seu banqueiro aprender a ser assador de costela.

Mas deixemos isto de lado. Que importa se o homem não tem vida interna. Que importa se quase todos os seus estímulos são materiais. O homem é um vencedor. Casado com uma matrona enxuta neo-atraente, filho magnata das comunicações e informática, a família rapidamente se tornando grande latifundiária. A vida é boa! A vida é boa!

Nós é que somos uns despeitados por criticá-lo.

*Consultor de projetos de importação e exportação

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