O Oráculo de Touraine*
A primavera das incertezas nos bate a porta mais uma vez. Oh, como é estranhamente saboroso e amargo o gosto das discussões a respeito dos rumos desta terra de aldeia. Tantos rostos diferentes, colados em vidros, pintados em paredes, transformados em números como se tudo não passasse de um show.
Quem vai defender a proliferação dos reservatórios de lama das vias públicas? Quem será contra? Quando alguém vai se lembrar de que a distribuição de papéis inúteis não é geração de emprego, mas poluição? Quando alguém de bunda sensível se candidatará a combater os bancos de fibra dos coletivos? Onde está o ofendido com o IPTU, o mesmo que se excita e enrijece vereadores tarados pelas migalhas distribuídas em votações de “reajuste”?
Tempos difíceis estes em que os representantes da “Família” usam vermelho como pano de fundo. Tempos estranhos estes em que o melhor passado já passou há mais de 20 anos. Nossa cidade parou nos últimos 20 anos por quê? Talvez se perguntarmos aos candidatos estupradores, corruptos, defensores de boca de fumo, parasitas de invasão, compradores de voto, saqueadores de órgãos públicos, sanguessugas da cultura e detratores da Câmara Municipal, obteremos alguma resposta pouco convincente. Afinal, eles convencem apenas com dinheiro ou grandes campanhas publicitárias, nunca com palavras.
Ah, e não esqueçamos do povo que vende seu voto e depois reclama da miséria. Como eles são belos, com suas consciências vazando catarro enquanto criticam àqueles que apenas representam sua falta de vergonha na cara e fragilidade de caráter. Os protagonistas da corrupção entram em cena muito antes de qualquer propina. O mantra dessa cidade hipócrita “Quanto você vai me dar?”.
Às vezes penso em dar-lhes tiros e assassinar de uma vez por todas o adubo que nutre a cidade feia, a corrupção ativa, a falta de segurança, as filas de gigantes na Central de Consultas, as filas no Terminal da Integração. Enfim, toda a falta de respeito com o povo nasce da falta de respeito do povo para com ele mesmo. Assim aglomeram-se uma série de outras desgraças que nascem daqueles que deveriam ter consciência de seus erros, mas preferem votar em algum comprador de culpa.
Compradores de culpa fazem excelentes negócios: primeiro negociam suas almas com o diabo, depois usam o dinheiro para garantir ao povo algum retorno financeiro em tempos de eleição e depois arrecadam milhares votos. E, finalmente, resgatam cada centavo pago aos idiotas desviando recursos e aceitando propinas de compradores de culpa maiores que eles.
Somos todos estrelas neste show de insensatez. O povo comum está na base da pirâmide. Seja por um emprego, tanque de gasolina ou copo de cerveja, ele adora negociar com compradores de culpa. Os compradores de culpa são remunerados pela corrupção, a mesma que inferniza a vida de quem os colocou no poder. Quem os critica depois de se vender acha que faz um bom negócio... O outro povo comum, o que vota com suas convicções, não desiste e nem se vende. Os candidatos do povo comum que não se vende são basicamente dois: os honestos e os mentirosos. Os honestos são sempre os idiotas que não ganham eleição porque não compram o povo antes do dia da votação. Os mentirosos têm prazo de validade, prometem e não cumprem, basta focar no passado e tirar conclusões.
São Luís é uma cidade às avessas... Dizem que é a Ilha Rebelde. Há há há. Se toda “Ilha Rebelde” possuísse uma Câmara de Vereadores como a nossa, o mundo nunca teria saído da Idade Média...
Mas, nós continuaremos acreditando em paredes pintadas, trocados, tanques de gasolina, promessas de emprego e conselhos de “amigos” como solução fundamental para nossos problemas? Prefiro acreditar que não, pelo menos por dois meses é bom acreditar que não. Depois, se comprova o contrário, a cidade volta a ser uma aldeia esburacada sem perspectivas, com vereadores incompetentes e todos voltam a reclamar...
*Ninguém especial