SÃO PAULO
Vereadores de SP têm dois tipos de santinhos: com e sem Alckmin
Líder da bancada do PSDB na Câmara de vereadores de São Pau- lo, o tucano Gilberto Natalini fez campanha, na terça-feira (29), num bairro da periferia da cidade. Chama-se Cidade Júlia. Um amontoado urbano. Algo como 80 mil moradias, dispostas de forma desordenada. Na próxima segunda (4), começam as obras do primeiro parque público do bairro. Um empreendimento que mobiliza as atenções do vereador Natalini há arrastados três anos.
Convenceu o governador José Serra (PSDB) a ceder um terreno do estado. E obteve do prefeito Gilberto Kassab (DEM) o dinheiro que financiará o empreendimento. Filiado ao PSDB, Natalini deveria pedir aos moradores de Cidade Júlia que votassem no tucano Geraldo Alckmin. Mas viu-se enredado num dilema. Um embaraço que ele próprio define como “surreal.”

“Eu, vereador Gilberto Natalini, conquistei aquela praça para comunidade. Consegui o convênio do Estado com a prefeitura. É difícil chegar para o eleitor daquela comunidade e dizer: ‘Olha, agora o nosso candidato não é mais o prefeito Kassab. Agora tem outro aqui, do meu partido, o Geraldo.”
O drama de Natalini é compartilhado pela maioria dos tucanos com assento na Câmara de Vereadores paulistana. Defenderam o apoio a Kassab até a última hora. Mas foram vencidos pela determinação de Geraldo Alckmin de disputar a prefeitura.
Numa campanha municipal, os vereadores funcionam como elo entre o candidato e os líderes comunitários e de associações de bairro. São peças-chave na guerra das ruas. No caso do PSDB, a dicotomia entre o prestígio a Kassab e o apoio a Alckmin injeta no dia-a-dia dos vereadores tucanos um drama de contornos esquizofrênicos.
“O candidato do nosso partido disputa a prefeitura com o candidato do nosso governo”, resume Natalini. “É uma situação surrealista.” O surreal plantou no quintal de Alckmin e de Kassab uma confusão que, no limite, serve à campanha rival da petista Marta Suplicy.
São 12 os vereadores tucanos que disputam a reeleição. Só dois entregaram-se de corpo e alma à campanha de Alckmin: Tião Farias e José Rolim. O primeiro aderiu por convicção. O outro, por pressão. Outros dois, Natalini e Ricardo Teixeira, decidiram, segundo apurou o repórter, realizar campanhas “solteiras”, dissociadas do candidato a prefeito tucano.
Natalini e Teixeira não vão nem mesmo gravar participações na propaganda televisiva do PSDB. “No meu caso, digo que está decidido”, atesta Natalini. “Não vou gravar participações para a TV. A esquizofrenia se entranhou na minha alma. Para a minha campanha é péssimo. Vou perder votos. Mas não tem jeito. Estamos trabalhando de forma amalucada.” Quanto aos demais vereadores tucanos, a maluquice é generalizada. A maioria já decidiu dar as caras na TV. Alguns já gravaram suas participações.
Nas ruas, porém, muitos distribuem dois tipos de santinho eleitoral: num deles, posam ao lado de Geraldo Alckmin. Noutro, estão sozinhos. Uma solidão imposta pela lei. Sujeitam-se à arrostar penalidades aqueles que fizerem campanha aberta por um candidato que não seja o escolhido na convenção do partido.
Os vereadores que pendem para Kassab adotam o discurso típico de quem se equilibra sobre o muro. “Temos dois públicos”, sintetiza o líder Natalini. “Gasto a maior parte do meu tempo dando explicações ao eleitor. Dá um trabalho desgraçado. Digo que tem o candidato do partido, que é o Geraldo. E explico que também tem o candidato do governo que ajudamos a eleger, que é o Kassab. Tenho de falar a verdade para o eleitor.”
Numa tentativa de atenuar a dubiedade, o vereador tucano carrega no discurso anti-PT. Criador do apelido “Martaxa”, Natalini explica: “Deixo claro ao eleitor que a nossa prioridade é impedir que a Marta e o PT retornem ao comando da prefeitura de São Paulo. Esse é o eixo da minha campanha.”
O diabo é que, do ponto de vista prático, a divisão entre o candidato “demo” e o postulante tucano não traz senão benefícios políticos à campanha de Marta.
(Blog do Josias de Souza)