Flávio Dino
O centenário da morte de um dos maiores romancistas da literatura brasileira, Joaquim Maria Machado de Assis, considerado por muitos o mais importante autor do século 19, já começou a ser comemorado em todo país. A lembrança da data foi garantida em lei - a de nº 11.522, sancionada em setembro do ano passado pelo Presidente Lula e que instituiu 2008 como o Ano Nacional Machado de Assis. Um justo reconhecimento, pois não tenho dúvidas de que o escritor sempre será lembrado espontaneamente por muitos brasileiros de hoje e de amanhã, dado à originalidade e qualidade de sua obra e também à sua trajetória pessoal.
Filho de um operário mestiço de negro e português, o menino que perdeu os pais cedo e foi criado pela madrasta Maria Inês, doceira de quem vendia os produtos, cresceu praticamente autodidata. Tinha saúde muito frágil, o que não o impediu de trabalhar desde a infância e de aprender, mesmo sem freqüentar a escola, latim, francês, inglês e alemão. A mesma determinação que o levou a publicar seu primeiro poema - "Ela" - aos 16 anos e, dez anos antes de morrer, a ser um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual ocupou a cadeira de número 23 e foi o primeiro presidente, por uma década.
É justamente a Academia que, agora, centraliza as comemorações do centenário da morte do autor de A Mão e a Luva, Helena, Quincas Borba, Dom Casmurro, Memorial de Aires e do genial Memórias Póstumas de Brás Cubas, apontada como a obra que inaugurou o Realismo brasileiro, mas que na verdade está longe de se enquadrar na estética realista do século 19.
Publicado em 1881, Memórias Póstumas é original e provocador: narrado por um defunto, o romance apresenta a vida de um anti-herói. Bem ao contrário da corrente dominante na época. Em face dos recursos narrativos de tal obra, Machado elevou a literatura brasileira a um patamar nunca atingido até então. Com efeito, Machado, como nos mostra um dos seus maiores estudiosos no Brasil, o crítico Roberto Schwarz, encarou o dilema brasileiro entre o universal e o particular. O escritor construiu, na forma romanesca, o processo social contraditório, fruto do amálgama entre liberalismo e escravidão vigente no Brasil, o que punha a nu a inviabilidade das promessas capitalistas européias para o mundo.
Muito mais de sua vasta obra - que além de romances e contos inclui ainda poesias, peças de teatro, crônica política e crítica literária, bem como traduções - será relembrado durante todo 2008, por meio da publicação de seus livros, da realização de debates e também da adaptação de Dom Casmurro para a TV.
A correspondência de Machado será publicada, organizada pelo acadêmico Sérgio Paulo Rouanet, que deverá trazer, em dois volumes, cartas inéditas do escritor. Além disso, desde abril e até novembro, a Casa de Machado, como também é chamada a ABL, vem realizando um ciclo de 20 conferências sobre ele, do qual participam acadêmicos e estudiosos de sua obra - brasileiros e estrangeiros. Noutra iniciativa, a Academia Brasileira de Letras firmou um convênio com o Ministério da Cultura para lançar todos os livros do autor a preços populares (entre R$ 3 e R$ 5) e até o final do ano vai publicar um dicionário sobre a obra de Machado de Assis.
Mais: no segundo semestre, a editora Nova Aguilar republicará, em três volumes, a obra completa do autor. A base será a primeira edição da obra completa de Machado pela Aguilar, organizada há quase 50 anos e que será agora atualizada em função do muito que se estudou sobre o autor nessas cinco décadas, incluindo novos textos de sua autoria e a evolução da crítica literária sobre seu trabalho.
A editora Record é outra que entra nas celebrações com a publicação de Almanaque Machado de Assis - Vida, Obra, Curiosidades e Bruxarias Literárias, cujo organizador, Luiz Antônio Aguiar, ainda publica uma versão em quadrinhos de "O Alienista", pela editora Ática, e, também pela Record, um livro em que 12 autores recriarão contos de Machado.
Homenagens mais do que merecidas ao famoso Bruxo do Cosme Velho, como era chamado Machado, em alusão ao bairro onde viveu no Rio de Janeiro. São todas iniciativas que devem ser aproveitadas, devoradas até, com a voracidade que invocou Brás Cubas, o principal personagem, na dedicatória de suas Memórias Póstumas. Que o apelo nos inspire a, um século depois, não ter medo de conhecer Machado!
O deputado federal Flávio Dino escreve para o Jornal Pequeno às quartas-feiras.