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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 3 de julho de 2008
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O BÊBADO E OS BANCOS

RIO – O bêbado entrou no ônibus aos tombos. Mal vestido, sujo, tossindo, tropeçando, tremendo, com um jornal na mão, sentou-se ao lado de um padre. A cada arranco do ônibus, tombava para o lado do padre, que, irritado, o empurrava sem piedade ou indulgência, e com nojo.

O bêbado abriu o jornal, tentou ler, mas não conseguia porque tremia muito. Bateu no braço do padre:

- Padre, o que é artrite?

- É uma doença muito ruim, muito triste, muito feia, muito nojenta, que dá nas pessoas que bebem muito.

- E mata, padre?

- Mata, sim, e mata rápido. Ou o doente pára de beber ou morre logo.

- Padre, o senhor jura que não está me enganando, não?

- Juro por essa cruz que está aqui no meu peito.Não estou enganando. E tem coisa pior. Quem morre de artrite, porque não parou de beber, não vai para o céu, nem mesmo para o purgatório. Vai direto para o inferno.

- Coitadinho dele, padre.

- Dele quem?

- Do papa, padre. O jornal aqui diz que o papa está com artrite.

O padre se levantou, foi lá para a frente, trocou de lugar.

CRISE

Os bancos também, coitadinhos, estão com artrite. E vão direto para o inferno. Há anos e anos puseram o mundo dentro de seus cofres, arrancando lucros de 50% quando a média de crescimento da economia mundial não chegava a 5%. Agora começam a chorar lágrimas de sangue:

1. “Relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), uma espécie de banco central dos bancos centrais, sediado na Suíça, afirma que o mundo vive hoje a maior turbulência financeira desde a Segunda Guerra e que a união de desaceleração econômica e inflação está empurrando a economia mundial para um ponto crítico”.

2. “Segundo o relatório, inovações no mercado financeiro, frouxa regulamentação interna e externa e fáceis condições monetárias globais por um longo período nos levaram à atual situação adversa. O texto atribui parte da culpa pela crise aos próprios bancos centrais, por não terem tomado medidas para evitar o surgimento da bolha de crédito”.

3. “Para o BIS, países emergentes, como o Brasil, devem aumentar as taxas de juros (sic) e permitir a valorização de suas moedas para deter o contágio inflacionário. A inflação do “Euro” bateu em 4%, a mais alta desde que os dados começaram a ser coletados, em 1997. Em reunião hoje, o Banco Central Europeu deve elevar os juros” (Folha).

ARTRITE

Eis aí : “situação crítica”, “inovações no mercado”, “contágio inflacionário”, “sistema bancário paralelo”. Tudo isso quer dizer que o “cassino” dos bancos está com “artrite”, como ensina o Houaiss:

“Artrite: inflamação de uma articulação. Degeneração da cartilagem articular, que pode ser primária ou devida a trauma e afecções. Doença crônica que se manifesta especialmente nas articulações e caracterizada por dores, inflamação, limitação dos movimentos e deformação ou mesmo destruição das articulações”.

É exatamente o que está acontecendo com o “cassino” dos bancos: “inflamação”,“degeneração”, “deformação”, “destruição das articulações”.

LULA

Palmas para Lula que, na reunião do Mercosul na Argentina, agiu como se espera de um presidente altivo de uma Nação soberana, em um discurso brilhante, forte, destemido, verdadeiro, denunciando que a responsabilidade pela crise internacional é dos chamados “países ricos”, o G-8, que discriminam, exploram, e na hora da crise imploram ajuda.

Foi sintomática e gratificante a explícita e sorridente solidariedade das duas valentes presidentes sul-americanas, Michele Bachelet (Chile) e Cristina Kirchner (Argentina). Elas sofrem as mesmas discriminações e retaliações que o Brasil e, como nós, tambem têm que tolerar uma grande imprensa vendida, sórdida, a serviço dos interesses dos que acham que ainda nos exploram pouco. Justiça se lhe faça. Lula lá fora é incomparavelmente melhor.

CARVALHO

Outro que está merecendo palmas, e calorosas, é o Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República, pela entrevista nas “Páginas Amarelas” da “Veja” desta semana. Quem é bom nasce feito:

1. “A cabeça de Lula é a do peão do ABC. O núcleo da preocupação do presidente é com emprego e salário. Se o banqueiro tiver lucro, tudo bem. Ele diz: ‘Eu prefiro que esses caras tenham lucro, do que fazer um Proer para eles depois’. Mesmo em relação à reforma agrária eu não sinto que ele se empenhe tanto. Nem quanto ao ambiente. Ele acha importante a preservação, mas entre um cerradinho e a soja ele é soja. O ambiente é importante, mas não é decisivo. O decisivo é a economia.”

2. “José Dirceu e Lula não são tão íntimos assim, nunca tiveram relação de amizade. Foi repassado dinheiro aos partidos como ajuda de campanha, não para os caras votarem com o governo. Quando a gente fala que não teve mensalão é nesse sentido. Não é que eu concorde com isso.”

3. “Outra noite trágica foi o dólar na cueca... Era uma sucessão inacreditável de picaretagens.”

(www.sebastiaonery.com.br)

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