Opinião
O voto 1
(Coelho Neto)
O alistamento eleitoral é um contrato cívico em virtude do qual o indivíduo, nascido em um país ou nele naturalizado, tendo atingido a maioridade e possuindo-se a si mesmo pela independência que dá a instrução, é aceito e reconhecido cidadão da Pátria, adquire direitos e obriga-se a deveres.
O direito do sufrágio permite ao indivíduo entrar no concerto da opinião com a sua vontade livre, elegendo para os cargos e funções da maior responsabilidade administrativa os homens que, na sua confiança, reputar mais dignos.
Aquele que se não é alistado é como o que fica fora dos muros da cidade e, assim como lhe nega o seu concurso, não tem o direito de exigir a sua proteção. O lavrador que não semeia não se pode queixar da terra porque se esteriliza ou só produz carrascal.
Tão condenável é o que não se preocupa com a direção da própria casa, como o que se mostra indiferente aos destinos da Pátria, e o voto, sendo um ato de consciência, pesa como valor na balança nacional.
Os governos, nas democracias, são a soma dos fatores individuais, representam o resultado da vontade popular, e se essa vontade não se manifesta logo a substitui a fraude, o dolo entra pelo abandono como em terras desprezadas cresce o ervaçal daninho.
Nas repúblicas, onde os homens tomam a peito os seus deveres não se lhes negam os seus direitos, e o voto, que é um dever cívico, é, ao mesmo tempo, o fiador de todos os direitos. Com ele o cidadão mantém o prestígio da Lei, conjura a anarquia e repele os audazes que assediam os poderes visando desonestamente os lucros que saem da fortuna pública, feita, moeda a moeda, da contribuição individual.
O voto é, pois, uma garantia da liberdade, um estimulo do progresso e uma defesa da fortuna. É mais: a demonstração da consciência de um povo que se governa com vontade própria e proclama seus condutores àqueles mais capazes e mais dignos de levarem com brio e honra o sacrário onde se conservam as tradições da Pátria.