POESIA
Ano III - nº 129
Editor - Paulo Melo Sousa
Jorge Nascimento nasceu em São Luís no dia 8 de janeiro de 1931. Trabalhou no Rio de Janeiro, como revisor do Jornal do Brasil, a partir de 1956. Dez anos depois foi morar em Recife, retornando mais tarde para sua cidade natal. Aqui publicou, em 1972, Ausência Restituída, e Os Mortos não Lêem os Epitáfios das Manhãs, em 1987, livros de poesia. Trabalhou na Fundação Joaquim Nabuco, em São Luís, foi membro do Centro Cultural Gonçalves Dias e se integrou ao quadro da Secretaria de Cultura do Estado, tendo desenvolvido importante trabalho à frente do Suplemento Cultural Vagalume, publicado pelo extinto Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado – SIOGE. Dono de uma poesia forte, instigante, desafiadora, o poeta mora em São Luís.
Auto-retrato
Cresce dentro de mim, doloroso, humilde pranto;
Alma surda e esquizofrênica, inútil de tristezas,
Deserdei da vida pela aspiração do amargo canto
E mesmo assim ainda tive que banhar-me de torpezas;
Quem agora irá prover a insanidade do meu sonho,
Eu, que sempre tive o bem ajustado e negro desvario
De nunca permanecer nas proporções onde me ponho,
Errante e só, comandado pela minha bússola de desvio
Sempre a refulgir, nos oceanos de uma sinistra paz;
Meu reino imbecil, descoberto por defeituoso impostor,
Repetente de todas as classes da infâmia sempre audaz;
Minha terra sombria de obscenidade, na voz de um homem
A quem determinaram inteira sujeição ao destino opressor,
Abençoado, enquanto vida tiver, as horas que me consomem!