Praia Grande: nem para inglês ver...
Quando se fala na questão patrimonial de São Luís, pode-se afirmar que existe mais cacique do que índio posando de entendido. Livros são publicados sobre a área tombada, sobretudo aquela mais significativa, e que deu à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, passeios são agendados para o local, com guias improvisados, e grupos de turistas circulam por ali a todo momento, às vezes mais perdidos do que cegos em tiroteio, neste período de alta temporada turística. No conjunto de prédios históricos, o trecho mais significativo da velha e adulterada Atenas Brasileira, sem dúvida, está localizado na Praia Grande. É inegável o valor de imóveis azulejados como os que se destacam na rua Portugal, o apelo poético das escadarias da rua do Giz e do Beco da Catarina Mina, o permanente chamariz da antiga Casa das Tulhas, atual Feira da Praia Grande, o encanto da Casa do Maranhão, o inestimável acervo cultural da Casa de Nhozinho. Enfim, a quantidade de exemplos dignos de nota não caberiam neste espaço. Por outro lado, surpreende a todos a situação de abandono a que está relegada aquela área, sem que os especialistas se debrucem sobre o problema e o resolvam de uma vez por todas.
Apesar de existirem vários gestores públicos que citam o local em palestras e debatem a formação do mesmo em seminários dentro e fora do estado, esses mesmos gestores, inexplicavelmente, não circulam pela Praia Grande. Existem várias secretarias que estão instaladas ali, tanto estaduais quanto municipais, mas os responsáveis pelas respectivas pastas tomaram chá de sumiço da área há muito tempo, e desconhecem por completo o que acontece de fato por ali, a crua realidade do cotidiano de quem vive no local ou diariamente o freqüenta. Na última segunda-feira, um vendedor simplesmente derramou a água de um isopor no qual transportava camarão, em frente ao Odylo Costa, Filho, sem a menor cerimônia. A fedentina só diminuiu com a ação de duas vendedoras de coco, que lavaram a calçada, sob a indignação de vários turistas. Um dia depois, um bêbado, com problemas mentais, contorcia-se em frente a uma lanchonete cheia de gente, próxima a livraria do Poeme-se. Na mesma rua, a João Gualberto, ao lado da praça da Faustina, hippies fazem o almoço em plena calçada, assam carne, comem ali mesmo e jogam os restos de comida na rua, tudo na maior tranqüilidade. Tem até cachorro sendo criado ali, preso por uma corrente à grade de um prédio. Quando alguém reclama, sofre ameaça, e os hippies alegam que “a rua é pública”. Ora, senhores, justamente pelo fato de ser pública a rua não deveria ser loteada por esses ambulantes cozinheiros a céu aberto. E ninguém toma providência...
O visitante chega a um bar, pede uma cerveja e logo aparece um moleque com uma caixa de engraxate, e fica enchendo o saco do sujeito se este não quiser engraxar os sapatos. Repentinamente, um doente mental, mudo e embriagado, passa pela rua gritando coisas ininteligíveis, enquanto que ratazanas do tamanho de gatos saem dos esgotos e aproveitam as sobras de comida dos hippies. Recentemente, um sujeito foi espancado perto do bar do Porto. Um policial foi acionado, mas simplesmente respondeu: “não posso fazer nada”, e com razão, pois estava sozinho no posto e não poderia abandonar o local. Com freqüência assustadora, a Praia Grande fica às escuras, a manutenção dos postes é precária, e os buracos nas ruas são permanentes. Existe uma lei que proíbe o tráfego de veículos em várias ruas da Praia Grande, e tal não é cumprida nem pela própria polícia, que circula de carro pelo local. Caminhões afundam o calçamento histórico, quebram pedras de cantaria centenárias e tudo fica do mesmo jeito. A verdade nua e crua é que não existe manutenção do Centro Histórico e, ali, a lei não é cumprida, aliás, só é cumprida pelos mais fracos, como sempre costuma acontecer neste país rico em desigualdades.
Há alguns anos atrás, ainda havia uma maquiagem dessa realidade; alguns reparos aqui, uma pintura nova ali, os policiais circulando, nem que fosse para inglês ver...Hoje, a situação de abandono é lastimável, e até os ingleses estão reclamando da falta da maquiagem. Pelo visto, não deve ter caveira de burro enterrada ali, mas sim caveira de dinossauro... Cruz Credo!