Flávio Dino
A tuberculose, que no século 19 era tida como uma doença “romântica” que acometia poetas e intelectuais, hoje costuma ser encarada pela maioria de nós como coisa do passado, pois tem total cura se tratada. Entretanto, ela nunca foi erradicada no Brasil e, atualmente, voltou silenciosamente a acometer uma grande fatia de nossa população, bem como também da mundial, com um aumento assustador de casos e óbitos que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a reconhecê-la como uma emergência global desde 1993. Porém, passados 15 anos, quase 2 milhões de pessoas ainda morrem da doença todo ano no mundo e, no Brasil, que tem o maior número de mortes das Américas, são mais de 5 mil óbitos anuais. Se a situação não for revertida, a OMS prevê que o número de pessoas infectadas chegue a 1 bilhão até 2020, com 200 milhões dentre elas desenvolvendo a doença e 35 milhões chegando ao óbito.
É para combater tamanha facilidade de propagação - a infecção pelo bacilo transmissor se dá pelo ar, reduzindo as chances de proteção humana - que o Ministério da Saúde lançou, no dia 13 agora, a Campanha de Combate à Tuberculose, visando primordialmente conseguir o diagnóstico precoce da doença e o encaminhamento ao tratamento adequado, além de garantir sua continuidade até a cura. É mais uma campanha educativa levada a cabo pelo Programa Nacional de Controle da Tuberculose (PNCT), do Ministério, cuja missão permanente é a contenção da doença no Brasil. Mas dessa vez o governo estabeleceu metas para a campanha: quer reduzir o abandono do tratamento para menos de 5%, detectar 70% dos casos estimados da doença, curar 85% dos casos notificados, expandir a cobertura do tratamento supervisionado para os municípios prioritários e oferecer teste anti-HIV para 100% dos adultos com a tuberculose, já que ela está associada a outras condições de imunodeficiência, como é o caso da AIDS.
Podem parecer metas ambiciosas, a princípio, mas trata-se do mínimo necessário para sairmos da preocupante situação atual, em que estimativas apontam que são mais de 60 milhões os brasileiros infectados pelo bacilo da tuberculose. Estudos indicam que pelo menos cerca de 15% das pessoas que têm contato com esse bacilo desenvolvem a doença. De fato, só em 2005 foram registrados mais de 80 mil novos casos da doença no país, o suficiente para torná-la um grande problema de saúde pública. Atualmente, a tuberculose já é a quarta doença que mais mata no Brasil.
O governo centra a campanha em diminuir o abandono do tratamento pelos infectados porque este é o grande desafio e o maior fracasso até aqui no combate contra à tuberculose: levar o tratamento adiante. A maioria dos pacientes costuma abandoná-lo quando sente os primeiros sinais de melhora, mas a cura só é atingida com persistência e disciplina, pois o tratamento dura em média seis meses, à base de antibióticos que o paciente precisam ingerir diariamente, sem interrupção. Se o tratamento for abandonado antes do prazo, o bacilo desenvolve resistência à medicação e cria-se uma super bactéria, o que torna a cura mais difícil e um novo tratamento bem mais oneroso.
Por isso, é importante ficar alerta aos sintomas mais freqüentes da tuberculose - tosse que não passa por mais de quatro semanas, cansaço excessivo, febre baixa geralmente à tarde, suor noturno, falta de apetite, palidez, emagrecimento acentuado, rouquidão e fraqueza. Ao constatá-los, é preciso procurar um médico o mais rápido possível. Toda a população brasileira tem direito ao diagnóstico e tratamento gratuitos no Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, prevenir a doença, imunizando as crianças de até quatro anos com a vacina BCG, é outro instrumento eficiente nessa luta.
Campanhas como essa que o Ministério da Saúde está colocando nas ruas são fundamentais na conscientização da população sobre os perigos da doença e, conseqüentemente, na busca por tratamento. Realizadas com constância e abrangência, podem representar o caminho para a erradicação da doença entre nós. Não é um objetivo impossível, ao contrário. Temos o exemplo próximo de Cuba que, mesmo com todas as dificuldades econômicas que enfrenta, anunciou em 2005 que estava prestes a erradicar a doença em seu território. Para tanto, é exigido alcançar um número inferior a 5 doentes por 100 mil habitantes, meta que já é realidade em mais de 100 dos 169 municípios da ilha, segundo registros médicos divulgados por aquele país.
Evidente que nossas dimensões territoriais e populacionais exigem um esforço bem maior e talvez mais longo que o dos cubanos, mas somente começando agora a romper o silêncio sobre esse novo avanço da tuberculose é que teremos chance de um dia também chegar lá.
Além disso, não podemos descuidar de outro ponto primordial desse combate – a maior incidência de tuberculose ocorre nas classes menos favorecidas da sociedade, em virtude das precárias condições de vida, e também entre usuários de drogas e portadores do HIV, o que deveria nos levar a tratá-la como uma doença social. Assim, mais uma vez, ações integradas entre os diversos organismos e as diversas esferas de poder são a chave para bons e duradouros resultados.
O deputado federal Flávio Dino escreve para o Jornal Pequeno às quartas-feiras.