Há coisas que, de fato, são incompreensíveis neste país. E uma delas diz respeito à evidente farra judicial que fez com que parte da Justiça simplesmente ignorasse a presença de membros do grupo político de Sarney no incongruente episódio da Gautama.
Não são documentos novos que surgem, é apenas o acesso da imprensa à famigerada agenda do empreiteiro a mostrar que o senador José Sarney está umbilicalmente ligado à Gautama e é um dos vilões da Operação Navalha, coisa que parte da Justiça brasileira fez questão de ignorar.
Desconfia-se, agora, que a empresa que ajudou Zuleido Veras a bamburrar dinheiro público pode ter financiado sozinha a candidatura do senador José Sarney no Amapá, além de contribuir para a de Roseana no Maranhão. Aliás, não há um só episódio escuso envolvendo dinheiro público em que não exale, como costuma dizer o deputado Domingos Dutra, “a catinga dos Sarney”.
É a Polícia Federal quem intui que a Gautama contava com a ajuda do senador José Sarney para obter a liberação de dinheiro para obras no Amapá. O Jornal Pequeno do último domingo está recheado de documentos que colocam Geraldo Magela, chefe do Departamento de Propinas da Gautama no trecho Brasília/Macapá-Macapá/Brasília no efervescente período das eleições.
No Maranhão não precisamos de investigação nenhuma para saber que Sarney trouxe a Gautama para cá. No caso do Amapá ouve-se a voz de Zuleido Veras dizendo que com certeza problema relativo a uma obra vai ser resolvido “pois aquilo é obra de Sarney e não é negócio que está solto”.
É preciso saber a diferença entre doações de campanha e patrocínio de candidaturas para que se possa precisar exatamente o que ocorreu com esta empresa no Maranhão e no Amapá. Doações de R$ 500 mil e R$ 1 milhão não podem ser consideradas mero contributo para campanhas. Revela muito mais o preço do tráfico de influência no Congresso Nacional.
As recentes investigações da Receita Federal, da Polícia Federal e do Ministério Público comprometem políticos de todos os matizes, como Romero Jucá e quase todos eles com algum tipo de ligação com o senador do Amapá.
Calhamaços e calhamaços de papelada criminosa são apreendidos todos os dias, mas, como sugeriu o renomado jurista Paulo Brossard, está ficando impossível cumprir a lei neste país. Diríamos melhor: é desaconselhável aplicar a lei no Brasil. Um exemplo disso são os vexames que passou o juiz De Sanctis ao determinar a prisão preventiva do banqueiro Daniel Dantas, depois de uma investigação que durou incríveis quatro anos.
A arte de engolir licitações, o superfaturamento, os providenciais empréstimos a fundo perdido, as emendas milionárias ao Orçamento da União com todos os seus desvios, todo tipo de crime financeiro envolvem a Gautama e a OAS, empresa da qual Zuleido Veras foi uma espécie de consultor político. E Sarney posa de paladino da moral pública enquanto fica cada vez mais evidente que se beneficia das atividades criminosas dessas empreiteiras.