Jornal Pequeno - 54 anos
São Luís,
Edição22,675
Edição 22,675

Gospel
Almas crônicas
Oportunidade Divina ou Laço de Morte?
A IRA DE DEUS ou a ira do homem contra si mesmo?
PECADO E SALVAÇÃO

Almas crônicas

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 21 de julho de 2008
Envie para: Envie para o Del.icio.us  Envie para o Digg  Envie para o Reddit  Envie para o Simpy  Envie para o Yahoo My Web  Envie para o Furl  Envie para o Blinklist  Envie para o Technorati  Envie para o Google Bookmarks  Envie para o Stumble Upon  Envie para o Feed me links  Envie para o Ma.gnolia  Envie para o Newsvine  Envie para o Squidoo  

Eudes Oliveira de Alencar

eudesalencar@hotmail.com

Toda alma é crônica, disse meu terapeuta. Percebi que ele nem se dera conta da seriedade do que dizia. Não que tenha como quem fala ao léu. No contexto da conversa fazia todo sentido. E faz sentido quando se fala de gente. A questão é o quanto estamos conscientes disso. Parece que a prática comum é não saber, não querer saber. Esquecer-se de si e gozar é a regra máxima deste hedonismo. Anestesiamo-nos e tudo o que há ao redor adormece qualquer percepção, embora jamais disfarce aquela cronicidade, pois a dor, a falta, o não lugar, estão dentro de nós todos os dias. Pelo menos nesta perspectiva de vida nunca alcançaremos a completude. No ponto de vista cristão, apenas a promessa de, porque se a cura se instala, fica a saudade do lugar que ainda não se conhece e para o qual se deseja ir logo, ao qual chamamos céu, porque aí, então, esta alma, já não pertence a este mundo. Caído, diga-se.

A diferença fundamental entre crentes e não crentes não é qualquer manifestação exterior visível, pelo menos aquelas que se estabelece como tais, quais sejam: roupas, trejeitos, falas, tiques, carregar uma bíblia maior que um paralelepípedo de cantaria. Estas coisas traem aos que com elas são identificados quando sua alma sem maquiagem escapole ao controle de tais manifestações e se revela exatamente como é, cronicamente enferma. Isto porque o tratamento a que foi submetida era enganoso, comportamental, algo como se treina uma foca para segurar uma bola no nariz. A diferença angular revela-se em expressões como a que disse Isaías diante do inefável, do que não pode ser traduzido aos olhos ou fala. Esta é a forma desejável como alguém vê sua própria alma/pessoa: “Então eu disse: — Ai de mim! Estou perdido! Pois os meus lábios são impuros, e moro no meio de um povo que também tem lábios impuros. E com os meus próprios olhos vi o Rei, o SENHOR Todo-Poderoso!” (Is 6.5 – NTLH)

O terapeuta também, sabiamente – a humildade é sempre sábia – admitia que podemos mudar hábitos que, certamente, se são ruins, trazem bons dividendos ao que muda, mas eles são sempre limitados, porque não existe hábito ou comportamento distante da alma de ninguém, somos unos, embora permanentemente divididos. O ser humano inventa mil remédios que vão da religião à ciência, da terapia mais séria ao puro charlatanismo, tudo isso ganha um lugar no coração das incautas almas crônicas porque todos buscam a cura. Menos os indiferentes, os embrutecidos, os negadores que vagueiam sem se dar conta sequer de quem são. Há ainda uma categoria, os que se auto-enganam. Compram e produzem uma felicidade chocha ao estilo da incontável leva de formuletas de auto-ajuda que entopem as prateleiras das livrarias. Comem e nunca se fartam. Bebem e nunca se saciam. Mas continuam nesta festinha sem se dar conta de que toda embriaguez um dia cobra sua ressaca.

Qual é a saída? Sei que a muitos este texto parecerá fruto de uma desilusão e desesperança enfermiças, pois até agora se constata apenas a impossibilidade de cura, a não existência de algo bom que dê alívio, afinal, como é que estas pessoas estão vivendo até aqui? Ora, vive-se assim mesmo, pois é sabido que apesar dos males que se carrega, a maioria absoluta não se mata, acostuma-se, como quem carrega uma pedra no sapato que de quando em vez dá uma trégua, pois se esconde entre os dedos e não machuca. Pode-se continuar andando, é uma escolha. Mas se não se pára para tirar o sapato e, emborcando-o, vermos a danada da pedra cair no solo, nunca nos livraremos dela.

Uma primeira coisa é não esquecer que somos tortos crônicos como gente e por isso falhamos, decidimos errado, tomamos rumos estranhos, caímos, porque algo em nós, que alguns já cantaram como algo bonito, nossa humanidade mais tosca, é fruto da grande Queda da posição diante de Deus e se há algo bom, não nos iludamos inflando o peito, é resquício do que Deus deixou em nós. Nada é verdadeiramente nosso. Éramos filhos, amigos, companheiros, tornamo-nos estranhos, ameaçadores e ameaçados, medrosos. Não esquecer este estado, equivale a dizer: sou alguém de “lábios impuros”, que não significa algo como desbocado, mas alguém a quem falta pureza em sua essência, tende para o mal sempre e você e eu sabemos disso.

Interessante é que os sábios proclamaram desde tempos antigos, mesmo que de forma incompleta, que saber-se quem é configura um primeiro passo para a melhora – conhece-te a ti mesmo. A fé cristã diz que só conheceremos confrontados com a verdade, com o humano mais perfeito que existiu, Jesus. Temos falhado ao longo de milênios porque apegamo-nos ora a seres humanos que quase chegaram lá, ora porque criamos crenças as mais estapafúrdias, como substituto da cura. Mapas rotos que não mostram a saída do labirinto. Às vezes arranhamos a superfície e alguém logo diz, vejam como este ou aquele dogma é verdadeiro, olha que boa gente produziu! De fato, o tempo logo revela, nenhum de nós está imune a um esquadrinhamento profundo, pois bem raso ressaltam aos olhos nossas abismais incongruências.

Há muitos modos de produzir um pouco de conhecimento de si. Terapia é uma boa maneira, se não se é arrogante para colocá-la em pedestais auto-suficientes, pois aí já terá perdido sua eficácia. Ela jamais cura. Qualquer promessa neste sentido deve ser recebida com desconfiança. Se somos honestos devemos admitir, ela apenas mitiga a sofreguidão e dão-nos um fôlego para olharmos o que está camuflado em nós, escondido em esquinas e becos da alma. Não é pouca coisa.

Depois é necessário buscar a cura. Não será bastante caminhar em lugares longínquos em busca de remédios mágicos, essências especiais, talvez, mesmo com medo, acovardado, protegido pela escuridão da noite como o fez Nicodemos (Jo 3). Mesmo sem saber o que perguntar, é possível aproximar-se, expor-se sem vergonha da idade, da posição, da condição que nos deram ou que nos demos. Jesus é esta cura para ser aquilo que devemos ser. Bem, o começo dela. Falo nesta circunstância limitada, pois o que sua cura faz é adaptar-nos, preparar-nos para estar diante do Senhor dos Exércitos sem ter medo, porque pelo Filho se foi purificado da dor crônica, da vergonha e da maldição do estado de afastado, banido da presença do Altíssimo. Isto é tudo.

Recomende esta página Imprimir esta Matéria
Jornal Pequeno - O Órgão das Multidões
Copyright 2002 - 2007 Jornal Pequeno. Todos os direitos reservados
Rua Afonso Pena, 171, Centro - São Luís - MA
(98) 3232-7642 Geral - redacao@jornalpequeno.com.br