Joãozinho Ribeiro
O colorido das saias das coreiras repentinamente foi trocado pela escuridão do luto. Seu agradabilíssimo movimento, vai-e-vem, rodando, na dança e na umbigada, foi trocado pela quietude. Já não havia movimento. O batuque frenético, corações afinados, num canto só, silenciou. Tambor grande, meião, crivador. Afinados a fogo, tocados a murro, de repente, nada.
Aos 84 anos, Mestre Felipe vira azulejo. Subiu, quiçá a convite de São Benedito, santo por ele sempre louvado, que batizava-lhe o grupo, padroeiro do tambor de crioula, esse patrimônio cultural imaterial brasileiro que se confundia com o patrimônio humano por que choramos agora.
“Maranhão sou eu”, cantava. Natural de São Vicente de Férrer, onde, deixou o pedido, quis ser sepultado. Veio ao mundo em plena festa, junho de 1924, começando a tocar aos três anos. Nunca mais parou. Ensinou quem pode e quem quis, nas oficinas do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte).
Felipe viu ainda o tambor de crioula, tão seu, tão nosso, reconhecido Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, tombado pelo IPHAN há pouco mais de um ano, quando a rua de São Pantaleão virou passarela para milhares de devotos de São Benedito em festa grandiosa que tão cedo não nos sairá da memória. Talvez, homem simples que era, não tivesse idéia da importância de sua figura para tal. Influenciou um incontável número de artistas, eu mesmo já cometi uma ou outra toada.
Felipe Figueiredo, nome de pia do Mestre, não deixa dúvida: é uma das mais importantes figuras da cultura popular do Maranhão em todos os tempos. Mestre na confecção de tambores e na arte de “fazer tambor apanhar”, agora a realidade nua e crua nos esbofeteia a face. Viva Mestre Felipe!
[Mal chego de Cuba, onde integrava a comitiva do Governador Jackson Lago em visita ao país, recebo a péssima notícia do falecimento de Mestre Felipe, vítima de parada cardíaca e insuficiência renal. Sobre a viagem, escrevo depois. Uma boa notícia: as inscrições para a edição 2008 do Prêmios Culturas Populares do Ministério da Cultura já estão abertas. Maiores informações nos sites do MinC (http://www.cultura.gov.br) e da Secma (http://www.cultura.ma.gov.br). Este ano, o homenageado é Mestre Humberto de Maracanã
O secretário de Cultura do Estado, Joãozinho Ribeiro, escreve para o Jornal Pequeno às segundas-feiras.