São Paulo – A atriz e comediante Dercy Gonçalves, aos 101 anos, morreu ontem, 19, no Rio. Ela estava internada no Hospital São Lucas, em Copacabana, desde a última quinta-feira, 17, com sintomas de pneumonia grave. O hospital confirmou a morte dela durante a tarde de ontem.
Memória – Dercy Gonçalves nasceu Dolores Gonçalves Costa, na cidadezinha Santa Maria Madalena, no estado do Rio, em 23 de junho de 1908. Nos anos em que lá viveu, Dercy colocou em polvorosa a pacata cidade, mesmo tendo no pai, um português de nascimento, a figura da severidade, do conservadorismo e da educação rígida. Sob as barbas dele, revelou bem cedo sua vocação artística.

Não raro, à noite, enquanto a família dormia, a já irriquieta Dercy costumava ir defronte ao espelho, molhava na boca papel de seda escarlate e com ele coloria as faces. Certa vez, o pai a pegou no pulo. Acordou altas horas da madrugada e percebeu a luz acesa no quarto das filhas. Abriu a porta e viu Dercy, de pé, com um vermelhidão no rosto e pó de carvão ao redor dos olhos, representando para as irmãs. O flagrante rendeu uma das maiores surras da vida dela. Mas Dercy continuou as peraltices. Era alegria dos clientes da alfaiataria do pai, cantava escondida, arranjou o primeiro namorada. A população da cidadezinha, escandalizada com as atitudes consideradas pouco aconselháveis para uma menina de família, logo a apelidou de “pola negri”.
Dercy ia contra tudo o que se possa esperar dela. Até mesmo quando o que se espera é muito escracho e deboche, ela é capaz de surpreender. Quando questionada por uma repórter de uma equipe de TV sobre o amor, Dercy respondeu categoricamente: “O amor não existe, o único amor que existe é o amor de mãe e filho, o resto é tudo sacanagem. Deus criou o sexo para que gerássemos filhos. Sexo é reprodução. As pessoas é que arranjaram um frenesi em torno disso. Eu nunca fui chegada em sexo.” Não era de se esperar que uma atriz que fugiu de casa aos 17 anos, começou sua carreira no circo e ficou famosa por ser desbocada a ponto de fazer corar as platéias mais despojadas, tivesse tal atitude.
(com Adriana Del Ré, d’O Estado de São Paulo)