Roberto Rocha
Ao finalizarmos o artigo da semana passada, prometemos um pronunciamento na Câmara dos Deputados sobre os critérios utilizados pela Procuradoria Geral da República, notadamente quando do oferecimento da denúncia decorrente da Operação Navalha. Como o questionamento terminou não sendo feito, pois não foi possível dispor do tempo requerido ao nosso partido, o PSDB, na primeira oportunidade lá estaremos para essa importante diligência.
Ao insistirmos na questão, não o fazemos por capricho, e sim pelo desejo de preservar a instituição PGR, que não pode continuar alvo de suspeição quanto à sua imparcialidade, além, é claro, de afastarmos de vez a incômoda idéia de que fomos discriminados por ela, uma das mais respeitadas instituições do país.
E a questão é muito simples. Diria mesmo que objetiva, cartesiana. A Procuradoria tomou por base os documentos apreendidos na Operação Navalha ao fundamentar a denúncia que ofereceu contra os que ali, a seu ver, se tornaram passíveis de tal medida, ou seja, alvos de fortes indícios de conduta delituosa.
Acontece que a documentação compõe um todo único, inescapável à isonomia, que é a igualdade de todos perante a lei, um princípio assegurado na constituição. O problema é que os procuradores designados para o caso não foram simétricos em sua hermenêutica, vez que usaram dois pesos e duas medidas.
De um lado, foram capazes de inferir que “chefe maior” não era outro senão o Governador do Estado do Maranhão, Dr. Jackson Lago. Mais: que AZ e Gordão eram secretários de Estado. E, para concluir, Gordinho, Zeus e Quantum, funcionários do Governo do Estado do Maranhão. Todos, em razão dessas alcunhas, foram severamente denunciados. Um verdadeiro show de ilações e conclusões desarrazoadas.
Do outro lado, porém, essas mesmas mentes brilhantes, capazes de associar pessoas às mais díspares alusões e dichotes, não identificaram, ou entenderam irrelevante, a existência de valores e percentuais ao lado de nomes como Roseana Sarney, PR Amapá, Ernane Sarney, FS, etc. Tudo num contexto relacionado a obras existentes no Maranhão e no Amapá. Mais claro, só se o autor desenhasse.
Se os procuradores quisessem realmente identificar negócios ilícitos, a agenda do sr. Zuleido Veras seria um verdadeiro mapa. Lá está, entre nomes, datas e locais, todo um conjunto de informações que podem, como um fio de uma meada, desvendar muitas e tenebrosas transações.
Da licitação da 2ª fase da adutora Italuís, falcatrua que ameaça o abastecimento de água nos lares ludovicenses, à licitação superfaturada da BR – 402, que a Gautama, segundo conversas grampeadas, tinha como certa em caso de vitória eleitoral de Roseana; das nebulosas tratativas no “Luz para Todos”, programa comandado pelo Ministério das Minas e Energia, cujo ministro caiu no curso das investigações, à LT Coaracy Nunes, a construção de uma linha de transmissão no Amapá, mas que estranhamente Zuleido registra nos acertos com Roseana aqui no Maranhão. Todos esses assuntos, a despeito da clareza ali assentada, a Procuradoria ignorou sem nenhuma explicação.
Porém, de tudo que contém a agenda do sr. Zuleido Veras, o mais revelador e intrigante continua sendo a parceria Lunus-Gautama, que resultou na entrega da Caema ao sr. Veras, uma espécie de arrendamento particular, sem similar na esfera pública em qualquer parte do mundo. Em matéria de distorção e descaminho da atividade pública, não se tem notícia de algo semelhante. Nesse campo, aliás, a Lunus se revelou bastante inovadora.
Em síntese, duas questões resultam bastante claras. Primeira, a Procuradoria Geral da República deixou de procurar os verdadeiros envolvidos com a Gautama. Segunda, vale repetir, toda vez que o sistema Mirante falar de Operação Navalha, estará falando da parceria Lunus-Gautama.
O deputado federal Roberto Rocha escreve para o Jornal Pequeno aos domingos. contato@robertorocha.com.br