MP do Reporto
A coluna Painel, do jornal Folha de São Paulo, publicou, ontem, com o título ‘O fiador’ que a articulação para aprovar a polêmica MP do Reporto envolveu carta-compromisso de Fernando Fialho, presidente da Antaq, a agência de transportes aquáticos, em que ele se dispõe a fazer audiências públicas para tratar do tema. Fialho, da cota de José Sarney (PMDB), ainda não cumpriu o acordo.
A nota do Painel remete à conclusão de que o senador José Sarney é como um polvo. Comanda todas as áreas importantes para atender interesses de toda a ordem. O banqueiro Daniel Dantas tem importantes negócios na área portuária e principalmente na MP do Reporto. José Roberto, muito amigo de Roseana, Jorge Murad e do próprio Sarney, trabalha para Daniel Dantas. Há suspeitas de que ele seja o contato direto de Dantas com Sarney, que mobilizou Fernando Fialho para ser o fiador da articulação. A operação da Policia Federal, no entanto, paralisou tudo.
Sarney também indicou a pessoa que vai resolver o assunto da fusão Telecom-OI , empacada na Anac. Essa pessoa vai ser conselheira da Anac; antes, era assessora de seu gabinete no Senado. Ela não é do ramo, mas vai para lá garantir voto em favor de Dantas. Daniel Dantas ganha com isso 1 bilhão de dólares. O banqueiro Daniel Dantas tem padrinhos fortes. Sarney que o diga.
O jornalista Diogo Mainard denunciou a jogada na revista Veja, edição de 21 de junho último, no artigo ‘Lulo-sarneysismo’, que o JP volta a reproduzir na íntegra:
Lulo-sarneysismo
“Olhe só que farra: - Uma afilhada de José Sarney está para ser indicada por Lula à Anatel.
- A Anatel está mudando a lei para beneficiar a Oi, que comprou a empresa do filho de Lula.
- Um dos donos da Oi, Carlos Jereissati, é sócio no shopping-center Praia de Belas, em Porto Alegre, de Jorge Murad, o genro de José Sarney.
Se tudo der certo, a árvore genealógica do lulo-sarneyzismo vai ficar assim: Lula nomeia a afilhada de José Sarney, ela muda a lei para favorecer o sócio do marido da filha de José Sarney, cuja empresa bancou o filho de Lula, que assina a lei.
Eu disse certa vez que o desejo de Lula era se transformar num José Sarney. Na verdade, ele foi muito mais longe do que isso: transformou-se num parente. Um parente político e empresarial. Os herdeiros das antigas dinastias européias se uniam em casamento. Os herdeiros das atuais dinastias políticas brasileiras se unem em empresas cotadas na bolsa de Nova York. De um lado, o rei de Garanhuns. Do outro, o rei do Amapá. No meio dos dois, o ducado tucano do Ceará.
De uns tempos para cá, sempre que eu denuncio alguma estranheza, os leitores reagem repetindo o mesmo mantra:
- Isso não vai dar em nada.
A estranheza denunciada neste podcast se refere à parceria entre o dono da Oi e os familiares de José Sarney, que cria mais um conflito de interesse na Anatel, como se não bastasse a empresa do filho de Lula. Qual será o resultado prático dessa denúncia? Nenhum. A afilhada de José Sarney será aprovada pelo Senado. A Anatel mudará a lei para permitir a venda da Brasil Telecom à Oi. O BNDES financiará o negócio. Carlos Jereissati controlará a companhia tendo menos de 3% de seu capital. Daniel Dantas aumentará seu rebanho de gado no Pará.
Mas é assim que funciona a imprensa. Quem tem o papel de julgar os políticos é a magistratura. Quem tem o papel de mudá-los é o eleitor. A imprensa pode somente noticiar e comentar os fatos. É pouco? Claro que é pouco. É melhor gastar seu tempo comigo ou com Tolstói? Claro que é melhor gastá-lo com Tolstói. A escolha para o jornalista diante de uma notícia é muito simples: consiste em publicá-la ou sonegá-la. Publicá-la nunca dá em nada. Sonegá-la sempre dá em algo ainda pior”.