Quem leu no jornal Folha de São Paulo a coluna da jornalista Eliane Cantanhede, na última terça-feira, foi surpreendido por uma crônica chamada “Desânimo”, que coloca em xeque a realidade da mídia nesse país e, principalmente, a forma absurda com que o povo se alimenta de notícias.
Sob esse título, Eliane nos leva a repensar nossos princípios e discute nossos valores a partir da morte de 262 bebês na Santa casa de Misericórdia do Pará.
Esquecemos, de fato, o peso de fatalidades como essa para atender aos apelos da crise institucional causada pela prisão e libertação do senhor Daniel Dantas. O país preocupado se os “graúdos” que viraram ladrões devem ou não ser algemados, sem atentar para a realidade grotesca da saúde no Brasil, sem querer ouvir os gritos que explodem nos corredores dos hospitais, sem se comover mais com os motivos que nos levaram a essa degradação urbana.
Somos vítimas de nós mesmos, de um estado de impudícia que não nos permite mais avaliar o que descaracteriza mais este país como Nação, se os bilhões roubados por uma quadrilha de ladrões de gravatas ou o fato de que nossos filhos morrem impunemente por absoluta falta da presença do Estado..
Eliane, na verdade, escreveu a crônica definitiva, para nos mostrar que “bilhões de dólares saem, seja pelo ralo da corrupção, seja da mera ganância patológica, e faltam migalhas para salvar bebês, mães e famílias não só da morte, mas também do abandono e do desalento”.
A morte de bebês, de pais e mães de família, seja pela inapetência do Estado para curar seus próprios males, seja pela violência do banditismo ou da violência policial, vulgarizou-se ao ponto de não comover mais as pessoas deste país.
Sem querer talvez, ela nos diz que estamos perdidos em meio a uma guerra que não nos incomoda mais e nos faz sentir diminutos, nos apequena diante da porcaria que fizemos com nossas próprias almas. Os que se sentiram intimidados com a voz da jornalista, que se danem. Nós outros só temos que agradecê-la pela oportunidade de lembrar que as covinhas dos bebês, seus sorrisos apagados, são bem mais importantes que todos os ladrões e crises institucionais deste mundo.
Evidentemente que o debate nacional sobre corruptos e corruptores não deve ser esquecido, principalmente pela imprensa. Mas não podemos fazer de conta que a morte anunciada das crianças é fruto dessa corrupção deslavada, dessa gentil falta de sensibilidade que está tornando os bandidos de gravatas mais importantes que a saúde pública.
Parafraseando essa que é uma das melhores crônicas que tive a oportunidade de ler sobre as funções do jornalismo e a capacidade de comoção nacional: tudo neste país só dura “até a próxima bala perdida, até a próxima vítima indefesa, até a próxima família destroçada”.