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Os Estados Unidos e a América Latina

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Data de Publicação: 16 de julho de 2008
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Flávio Dino

A Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos, que foi criada em 1943 para combater o nazismo e desativada em 1950, voltou à ativa no último sábado, apesar da compreensível desconfiança dos países latino-americanos, inclusive do Brasil, que já manifestou preocupação com a medida. Trata-se de um comando naval que ficará responsável especificamente pelas embarcações militares daquele país em atividade nas águas da América Latina e do Caribe. Embora a princípio vá atuar sem embarcações próprias, a Quarta Frota já mantinha em atividade na região, no mesmo sábado de sua reativação, nada menos que nove navios. Quatro deles em missões anti-tráfico e os demais em treinamentos ou missões humanitárias, segundo informações repassadas pelo porta-voz da Marinha dos EUA à imprensa.

Também se pode medir a importância desse novo comando naval para o governo americano pela estrutura a ele destinada - um efetivo de 120 militares, que ficarão alocados na base naval de Mayport, Norte da Flórida, sede de várias outras importantes divisões das Forças Armadas norte-americanas e porto de 22 embarcações militares, entre cruzadores, destróieres e fragatas, além de base de seis esquadrões de helicópteros. Um poderio bélico de se temer, ainda mais pela proximidade de nosso continente.

Outro detalhe que intriga: a chefia do Comando Naval Sul, ao qual a Quarta Frota estará subordinada, foi designada a um militar que não fez carreira na marinha convencional, mas nos SEAL, uma força de operações especiais de elite que é mobilizada em ações anti-terrorismo e em combates não-convencionais.

São fatores preocupantes para todos nós, latino-americanos, também compartilhados pelo presidente Lula, que com propriedade vincula a investida norte-americana à descoberta de petróleo em vários pontos da costa marítima brasileira, na favorável distância de 300 quilômetros do litoral. O presidente vem declarando reiteradamente que os Estados Unidos precisam explicar bem qual é a lógica da reativação desta Quarta Frota numa região pacífica como a América Latina, “cuja única guerra que trava é contra a pobreza e a fome”.

De fato, estranha que medida tão polêmica tenha sido tomada justamente quando a América Latina vive um importante momento de impulso econômico, com a descoberta dessas reservas excepcionais de petróleo na costa brasileira e também o aumento da demanda mundial por produtos dos quais somos fornecedores - alimentos e biocombustíveis. E que, ao mesmo tempo, ainda atravessa instabilidades políticas e sociais – supostamente geradas por governos que os americanos consideram “socializantes” demais.

Somemos a esse contexto as recentes ações, lideradas pelo Presidente Lula, para a criação de um Conselho de Defesa Regional da América do Sul, e teremos uma receita próxima da que pode ter levado os Estados Unidos a voltar a patrulhar nossas águas oficialmente.

Autoridades militares e diplomáticas daquele país justificam que se trata de um ajuste operacional sem intenções agressivas, destinado a melhorar a capacidade de operações no combate ao narcotráfico, no manejo de desastres naturais e em trabalhos de cooperação.

Entretanto, nosso ministro da Defesa, Nelson Jobim, já adiantou que o governo não irá permitir que a Quarta Frota norte-americana navegue sem autorização pelas águas territoriais brasileiras. De acordo com ele, essas embarcações somente poderão atuar em áreas não jurisdicionais; em nosso mar territorial, que tem cerca de 3,5 milhões de quilômetros quadrados, só entrarão autorizadas pelo governo brasileiro e, ainda assim, para visitas cordiais. “A Quarta Frota não vai fiscalizar área brasileira, quem fiscaliza somos nós”, afirmou Jobim.

Também o meu partido, o PCdoB, se manifestou contra a medida, divulgando nota oficial de repúdio ao relançamento da Quarta Frota, que considera uma ação de caráter agressivo à Nação brasileira, assim como aos demais povos e países independentes da América do Sul, América Central e Caribe. Além de gravíssima ameaça à paz, à segurança, à liberdade e à soberania desses povos e nações. Tal relançamento, afirma a nota, fomenta a militarização no continente latino-americano, a corrida armamentista e a ameaça nuclear, porque a frota será equipada com porta-aviões com capacidade para lançar armas atômicas. É, portanto, uma forma de intimidação dos governos da região.

Por tudo isso, é necessária uma mobilização rápida e séria da sociedade brasileira sobre o tema, visando, inclusive, à solidariedade internacional. Para que a nossa América Latina não tenha a menor chance de se tornar a “bola da vez” em mais um conflito internacional. Somos, historicamente, um continente pacífico e assim queremos continuar, até porque a paz é condição imprescindível para o desenvolvimento que, finalmente, começamos a experimentar.

O deputado federal Flávio Dino escreve para o Jornal Pequeno às quartas-feiras.

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