Roberto Rocha
No artigo anterior, questionamos o estranho critério utilizado pela Procuradoria Geral da República ao avaliar as anotações da agenda do sr. Zuleido Veras. No oferecimento da denúncia decorrente da Operação Navalha, as contradições são gritantes, e é do nosso direito apontar o que parece afrontar o bom-senso. Por isso, revela-se irrelevante o fato de a coluna “Estado Maior” (do jornal O Estado do Maranhão, de propriedade da família Sarney) não ter gostado do texto, ainda que respeite a opinião dos que ali escrevem.
Ainda bem que vivemos sob uma República, e as instituições têm de funcionar de forma isonômica em relação a pessoas, partidos etc. Infelizmente, não foi o que aconteceu na condução da referida denúncia. Ali, estranhamente, a PGR não viu o óbvio, não enxergou os verdadeiros culpados, desprezou provas contundentes contra os senadores Roseana e José Sarney, tirou conclusões absurdas, findou por punir inocentes.
O mais estranho, de saída, foi não investigarem o Amapá, Estado onde a Construtora Gautama possui maior volume de obras, para onde mais emendas e recursos foram direcionados pelo senador José Sarney. Uma estranha miopia se deu, apesar de esses fatos estarem sobejamente referidos na documentação apreendida pela Polícia Federal.
A agenda do principal investigado, Zuleido Veras, dono da empreiteira Gautama, descreve minuciosamente a sua estreita relação com a senadora Roseana, seus encontros, suas conversas, seus negócios. Ali estão datas, locais, valores, tudo numa riqueza de detalhes que mais parece um roteiro cinematográfico.
Na folha da agenda correspondente ao dia 14 de abril de 2006 – fartamente comentada pela inteligência da Polícia Federal, porém desprezada pela PGR –, existem anotações de conversas entre Zuleido Veras e seu filho Rodolpho Veras sobre os assuntos que iriam ser tratados com a senadora Roseana Sarney. Entre eles, encontram-se: a) apoio à continuação da fase II do projeto da adutora Italuís. b) Licitação da BR-402, c) Ministério das Minas e Energia e d) LT Coaracy Nunes, uma usina de energia no Amapá.
Zuleido anota o repasse de R$ 1 milhão à campanha no Maranhão, R$ R$ 200 mil destinados à “Dama” Roseana Sarney, além de registrar AERO 200 e Ernane 20. Na seqüência, ao assentar um repasse de R$ 120 mil ao “PR – Amapá”, registra que o valor foi entregue ao interlocutor “FS”. Será que alguém é capaz de imaginar a quem se referem tais anotações. Tudo indica que PR – Amapá tem a ver com o ex-presidente Sarney. E “FS”, quem será?
Não vamos nos esquecer de que o senador José Sarney foi quem levou a Gautama para o Amapá, assim como sua filha, senadora Roseana, para o Maranhão. Vale lembrar que o aeroporto de Macapá surgiu em razão de uma emenda de autoria do senador, e que a Gautama jamais havia construído aeroportos anteriormente. Aqui no Maranhão, a direção da Caema entregue à Gautama, parceria articulada pela Lunus, e a falcatrua na licitação e contrato da fase II da adutora Italuís constituem marcas indeléveis de uma relação pra lá de espúria.
Se a PGR considerou “comprovação de corrupção passiva”, em prejuízo do governador Jackson Lago, uma anotação atribuindo o valor de R$ 240 mil à alcunha de “chefe maior”, por que não foi considerado sequer indício de idêntico crime a existência de nome e sobrenome da destinatária - Roseana Sarney – e a indicação explícita de pagamento de R$ 1 milhão feito por Zuleido Veras na mesma agenda?
Ora, se a PGR compreendeu que “Chefe maior” era o Governador do Maranhão, o que não deixa de ser uma ilação imprudente, por que não entendeu que “PR Amapá” era o senador José Sarney, ainda mais com “FS” lhe representando? Mais: será que passou despercebido ao PGR que o nome Roseana Sarney tem a ver com a senadora Roseana Sarney, do Maranhão?
A Procuradoria Geral da República tem o dever de vir a público explicar tão nítido indício de parcialidade, sob pena de comprometer sua tão respeitada imagem e atuação. Estaremos, na próxima semana, mediante pronunciamento na Câmara dos Deputados, cobrando explicações à PGR, tudo no bom exercício da cidadania que tanta ela própria sugere e defende.
O deputado federal Roberto Rocha escreve para o Jornal Pequeno aos domingos. contato@robertorocha.com.br