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12 de julho de 2008

Dinacy Corrêa1

Eles e elas são adolescentes e adultos, homens e mulheres que chegam à escola noturna um tanto quanto exaustos, após a jornada diária de trabalho, mas sempre animados, cheios de sonhos e com projetos de vida...

Olá... Estamos de volta... E com novidades!

Que nos perdoem o possível oportunismo (quiçá, mesmo, a basbaquice) mas, desta vez, numa visão, digamos, mais abrangente, num perfil multidimensional, uma identidade coletiva, uma polifonia de vozes... estamos “matando dois coelhos de uma cajadada”: publicando as redações classificadas, premiadas e distinguidas com menção honrosa dos nossos alunos (fruto ainda da quinzena pedagógico/diagnóstica, já na sua fase final, com leituras e produções textuais – abril de 2008) e apresentando para o mundo uma “galera” meio diferente, muito especial. Trata-se de uma parcela do nosso alunado secundarista, oriundo, em sua maioria, do EJA (Educação de Jovens e Adultos), CESC-Anexo São Bernardo – que conta, com a Direção e Supervisão de Ensino, respectivamente, das super-dedicadas Professoras Rosélia Costa Ayres e Marilene Paiva. Uma realidade nova, e até fascinante, para nós, que trocamos, circunstancial e recentemente, o turno vespertino pelo noturno, no magistério do Ensino Médio.

Pedreiros, cabeleireiros, pintores, vigias, motoristas, empregadas domésticas, feirantes, vendedores itinerantes... eles e elas são também estudantes! E fazem um contingente complexo, heterogêneo, integrado por adolescentes e adultos, homens e mulheres que chegam à escola noturna já um tanto quanto exaustos, após a jornada diária de trabalho, mas sempre animados, cheios de sonhos e com projetos de vida... para vencer na vida! Somos suspeita para falar desse pessoal, é verdade. Os que nos conhecem mais de perto sabem que continuamos (malgrado todo e qualquer pesar), enternurada, pelos nossos educandos, jovens e (agora) adultos e sempre (re)encantada pelo Caminho – ainda que este se nos apresente, tantas vezes, ou na maioria das vezes, muito mais pedregoso e espinhoso que perfumado... É a nossa vida. Todo o nosso Amor. Por entre pedras e espinhos, aqui e ali se vão, também, abrindo flores e o Caminho, vez por outra, exala o seu perfume... E é nessa perspectiva, e num orgulho tal, que lembra o da mãe que assiste, cheia de ternura, ao primeiro sorriso do seu bebê, que apresentamos, aos nossos leitores, os nossos amados alunos, em suas dicções e emoções. Assim, para você, leitor, com muito carinho, um pouco de perfume...

18 anos de pura felicidade – Eu me chamo Ana Clysia e posso dizer que tenho 18 anos de pura felicidade. Sei que pouco entendo sobre a vida, o que é viver, por ser muito nova, mas sei que a vida é para ser vivida e eu aproveito-a, a cada minuto. Tenho uma linda flor plantada em meu coração: Ana Camila, que passou nove meses brotando dentro de mim, no meu ventre, e hoje me enche de sorrisos. Dedico quatro anos de minha vida ao homem que amo.

Lamentavelmente, hoje não convivo mais com o pai que tanto amo e que sempre estará vivo em meu coração. Não sei se é certo o que vou comentar, mas preciso; às vezes, me sinto sufocada e com necessidade de desabafar. Meu pai faleceu no dia 14 de abril. Ele foi assassinado. E sabe como? Pelas mãos da minha própria mãe... Mas eu não acho que devo ficar contra ela, sabe? Ele a espancou (como fazia sempre que a encontrava; os dois eram separados). Que pena! Ele deixou duas filhas e uma neta.

Hoje, convivo com essa dor recente. E mais doloroso ainda é não poder vê-la, minha mãe, que deve estar vagando pelo mundo, sem destino. Enfim, só o tempo poderá mostrar-me o caminho...

Uma grande lutadora – Meu nome é Erília de Fátima Castelo Branco Costa dos Santos. Sou natural de Penalva-Ma. Tenho 29 anos, 1:56m de altura, 59 quilos, olhos castanhos-claros, cabelos também e agora, curtos. Sou casada e tenho um casal de filhos: um de 12 e outro de 10 anos, que não moram comigo.

Moro aqui no São Bernardo e trabalho, em casa de família, no Coatrac, para onde vou e de onde volto, a pé, todos os dias. No meu trabalho, faço de tudo: cozinho, lavo louças e roupas, passo, limpo a casa e tomo conta de duas crianças. Gosto do meu trabalho e da minha patroa, que é muito legal comigo: permite-me sair às quatro horas da tarde para chegar a tempo aqui no colégio. Não sou assalariada, etc., mas é tudo o que consegui, até agora. Já tentei arranjar outros empregos, com carteira assinada, mas as patroas não permitem que eu saia mais cedo para estudar.

Sou uma pessoa de convívio muito difícil, por ser extremamente explosiva e ter mania de limpeza. Isso faz com que aqueles que estão do meu lado acabem se afastando de mim. Tenho muita dificuldade para trabalhar em equipe, por ser muito polêmica e ter minhas próprias idéias. Não aceito injustiça e acho que as pessoas devem ser tratadas de forma igualitária. Não me considero uma pessoa feliz, mas venho lutando para mudar esse quadro. Talvez por ter sido criada por pais separados, por ter sido mãe muito cedo (aos16 anos) e ter tido poucas oportunidades na vida, ainda não tenha superado os meus traumas.

Parei de estudar aos 14 e só depois de onze anos voltei à sala de aula, com um sonho: ser uma enfermeira e mostrar para aqueles que sempre me pisaram por eu não ter estudado e por ser empregada doméstica, que eu posso e vou vencer! Tenho coragem, força de vontade e o principal: um Deus que está sempre do meu lado – o que me faz ser forte e querer lutar cada vez mais, com garra, para que os meus filhos venham a ter muito orgulho de mim.Viver é difícil e, às vezes, complicado. Mas, cada vez compreendo que não há vitória sem luta e por isso vou lutar até o infinito para alcançar todos os meus objetivos.

Nordestino, horticultor e estudante – Oi, meu nome é Edalib. Sou nordestino, natural de São Luís do Maranhão. Trabalho como horticultor e moro numa chácara meio distante daqui do São Bernardo – para onde venho todas as noites, estudar.

Quando eu era adolescente, não gostava de estudar, só vivia jogando futebol e correndo atrás de pipas. Minha vida era um atraso. Um dia, eu fiz uma viagem e gostei muito disso. Viajei para uma cidade chamada Marabá, um lugar muito quente, mas muito legal, onde conheci muitas pessoas, falando com sotaques diferentes e tive até uma namorada. Lá, a nossa juçara chama-se açaí; o suquinho, é chope e o bolinho de feijão, acarajé. As frutas são muitas e de todos os tipos e gostos: cupuaçu, castanha-do-Pará... E os rios? Muito bonitos, com lanchas, navios, canoas e barcas, passando. Há mais de seis anos, não volto a essa cidade do Pará. Tenho muitas saudades dos tempos em que pescava nos rios Tucunaré e Tocantins.

Aqui em São Luís, minha maior alegria e ter colegas – alunos e professores da sala de aula. Eu tenho vários sonhos. Um deles, estou realizando, que é concluir o Ensino Médio.

Sempre de bem com a vida e com o meu próximo – Eu me chamo Geraldina Teixeira Paiva. Tenho 61 anos. Nasci em Rosário-Ma. Sou viúva, mãe de três filhos. Considero-me uma pessoa extrovertida e gosto muito de fazer amizades. Moro aqui mesmo, no São Bernardo. Sou católica engajada, membro do Apostolado da Oração do Sagrado Coração de Jesus.

Na minha mocidade, pude aproveitar bastante: brinquei, dancei, namorei... Mas sempre fui responsável em minhas diversões. Comecei trabalhando bem cedo, em casa de família, para sobreviver e ajudar em casa. Casei, tive três filhos, depois fiquei viúva. Passei por muitas dificuldades, mas já estou na chamada 3ª. idade e não me deixo mais abater. Até porque, tenho muita fé e procuro estar sempre de bem com a vida e com o meu próximo (T. 201).

De Primeira Cruz para São Luís – Sou uma garota de 17 anos. Não sou daqui de São Luís; sou do interior, de Primeira-Cruz. Vim para cá com 12 anos, para poder terminar meus estudos, porque lá só tem até a 4ª. série. Foi muito difícil deixar minha família, minha cidade e vir embora, porque eu era muito apegada aos meus pais. E gostava muito, demais, do meu interior. Eu pensava que seria bom, vir, porque terminaria os meus estudos, me formava e realizava todos os meus sonhos (que um deles é ser advogada e ajudar minha família). Por outro lado, seria difícil, porque iria sentir falta dos meus, saudades da minha terra... Acontece que vim, para trabalhar em casa de família (aqui no São Bernardo).

No começo, era legal. Depois, foi ficando meio chato, só de casa para a escola, da escola para casa... No fim do ano, saí dessa casa e fui para outra, cuidar de uma menininha de cinco meses. Só que a patroa era muito má. Um dia, chegou até a armar a mão para me bater. Então, liguei para meus pais e disse que não queria mais ficar ali e nem mais em São Luís, porque não agüentava mais sofrer.

Meu pai veio e voltei com ele. Quando cheguei em casa, falei que não voltaria mais aqui para São Luís. Meus pais e meus irmãos conversaram muito comigo, me aconselharam, me explicaram que eu tinha que voltar, para terminar meus estudos. E assim, voltei para trabalhar em outra casa, que é onde eu continuo morando. Nessa casa, tudo é muito diferente das outras em que trabalhei e morei. Porque, onde estou morando (Cohab), eles são todos legais, me tratam como se eu fosse uma filha.

No interior, tive muitas amizades; só que minha mãe não aceitava. Pensava que as meninas me levavam para a perdição. Mas isso só dependia de mim mesmo... Essa é a história da minha vida. (C.G. de Menezes –T. 202)

Muito difícil viver sem minha mãe – Eu me chamo M.C.C, tenho 17 anos de idade. A minha vida não foi fácil porque, quando eu estava com nove anos, a minha mãe morreu. Esse dia foi um dia tão triste! Desde então, fiquei só, no sentido de não ter mais a minha mãe. Eu sou do interior de Icatu. Hoje, moro aqui em São Luís, no bairro São Bernardo, com minha irmã e meu sobrinho. Só que não está sendo fácil viver sem minha mãe. Cada dia que passa, penso mais, muito mais nela. Sou uma pessoa alegre, tenho responsabilidade com os meus estudos. Quando não posso vir para o colégio, procuro ir à casa de algum dos (das) colegas pegar a matéria que foi dada, o exercício... Tenho muita coisa para falar da minha vida que não dá para contar numa folha de caderno. (T. 202)

Trabalhando na passagem de Presidente Juscelino para Cachoeira Grande – Minha vida começou quando eu nasci, claro, no dia 18.02.72. Com meus cinco anos, já ajudava meus avós, na roça, e estudava pela manhã. Já na idade de sete para oito anos, estava trabalhando na passagem de Presidente Juscelino para Cachoeira Grande. Continuava ajudando minha família. Com quatorze anos, vim para São Luís, para continuar meus estudos e trabalhar para ajudar minha família. Na idade de dezesseis para dezessete anos, já estava casado com Liliane, que já estava grávida de minha filha, que se chama Natali. Com dois meses do nascimento de minha filha, pedi contas da minha firma, para trabalhar em outra, para ganhar mais e lá estou até hoje. Tenho treze anos nessa firma, que se chama FORMART.(Adinael – T. 202)

Deixei de estudar para ajudar minha família – Sou Elizângela, 31 anos. Por onde devo começar? Nesta vida, passei por muitas coisas. Quando eu tinha quinze anos, deixei de estudar para trabalhar, para ajudar minha família. Passado um tempo, conheci uma pessoa com quem namorei, mas não era do gosto da minha família e aí eu engravidei com 18 anos. Ele não assumiu, mas sempre lutei para criar meu filho. Depois de quatro anos, conheci um homem bom e maravilhoso, que hoje é meu marido e também um grande amigo. Ele, sim, me ensinou o que é Amar de Verdade. Estamos juntos há oito anos. Ele fez com que eu voltasse à escola e hoje estou aqui e vou terminar meus estudos, se Deus quiser. Tenho pai, mãe, irmãos e dois filhos, que são minha vida. Pelo que passei, posso dizer que as coisas fáceis são dos covardes e as coisas difíceis são dos heróis. (T. 201)

Minha filha é o Amor da minha vida – Meu nome é Thiago, tenho 19 anos, sou solteiro e muito feliz, pois tenho uma linda filha que amo muito. Ela tem dois aninhos. Sou extrovertido mas, nos momentos certos e em outros momentos, procuro ter postura, sei também ser comportado e sincero. Sou um pouco orgulhoso e também vaidoso. Eu deixo meu cabelo bacana, etc. Eu sou assim: alegre... e me divirto muito com minha filha, pois amo muito essa “telosa” (cheirosa). Ela é o Amor da minha vida, tudo o que Deus me deu. Sou muito responsável por ela.

Professora, eu sou assim... Pra me conhecer melhor, só falando em particular. (Thiago Matos T. 201)

Sou como um passarinho – Eu sou uma jovem muito amada. Em primeiro lugar, por Deus e em segundo por minha querida família. Sou uma menina alegre, sou como um passarinho saindo da gaiola. Gosto de sair, de me divertir bastante, mas também tenho minhas responsabilidades, que são as minhas sobrinhas a quem amo muito, como se fossem minhas próprias filhas e meu emprego de que gosto muito. Sou uma menina que tem uma família muito linda. Juntos, somos muito felizes. Temos saúde e isso é o que importa. O resto a gente vai conseguindo a cada dia que passa. Eu sou uma jovem feliz. (Weldiane Rabelo Oliveira – T. 202)

Trabalhando em casa de família – Eu vou falar de minha vida. É muito boa, mesmo, pois eu comecei a trabalhar com minha mãe. Com a idade de nove anos, eu ia para a roça, plantar mandioca, feijão, arroz e outros plantios. Quebrava coco babaçu, com minha mãe, capinava a roça... Já com os meus doze anos, fui trabalhar em casa de família. Só aqui em São Luís, estou com quinze anos trabalhando numa casa. E gosto muito de fazer as minhas obrigações, tudo certo. Só em Belém, trabalhei dez anos! Tenho treze filhos. Amo meus filhos. Já tenho uma neta de dois meses! É só isto mesmo que eu quero dizer; certo? (Maria dos Aflitos Freitas – T 201)

Apresentando-se em 3ª. Pessoa – Lenildo Pessoa Serra nasceu no dia 07 de maio de 1981, na Santa Casa de Misericórdia, em São Luís, Ma. Está cursando, pela segunda vez, o último ano do Ensino Médio. Tem os seguintes cursos: bíblico, cabeleireiro, de reaproveitamento de alimentos, de movimentação e operação de transportes perigosos – MOPP. É portador de CH na categoria D. É membro da Igreja Batista Maranatha, no Ipem, São Cristóvão, na mesma cidade onde nasceu. Casou-se no dia 05 de dezembro de 2003 com Celijane Vasconcelos. É pai de dois filhos: Ana Beatriz e Luciano. Atualmente, exerce a profissão de cabeleireiro, na mesma cidade. É filho de Maria Raimunda Pessoa e Justino Santos Serra – separados quando ele tinha apenas nove anos de idade, quando foi embora com sua mãe e suas duas irmãs: Vilma, a mais velha e Rosângela, a mais nova, ficando com seu pai os outros dois irmãos: Cláudio José, o mais velho dos homens, e Nildo, o do meio. Lenildo conseguiu superar o trauma da separação de seus pais e hoje se dá muito bem com os dois! (T.201)

Ainda não sei quem sou – Ainda não sei quem sou. Já fiz de tudo e sei que ainda farei muitas coisas boas ou, infelizmente, ruins. Às vezes, sou triste outras, alegre... Não sou de ignorar, mas tenho sido muito ignorado. Já fiz, faço e ainda farei de TUDO para vencer na vida. Já fui, de carregador de frios, abaixo de zero, a cortador de cana. Já fui menino, hoje sou homem (ou talvez nem tanto – um dia, porém, serei um grande homem em todas as áreas de minha vida!). Amo muito o meu filho e assim, também, a minha mãe. Amo os meus sobrinhos e assim, também, os meus irmãos. Amo os meus amigos, muito mais do que a mim mesmo e muito menos do que o meu Deus. Nem tudo o que quero, posso ter, mas tudo o que tenho é porque lutei. E se hoje eu sou reconhecido por isso, é porque eu batalhei muito. Mesmo assim... ainda não sei quem sou. (José Sergio – T. 202)

E uma página é muito pouco para a extensão, amplitude e profundidade digamos filosófico-existencial de nossa galera.Vamos ficando por aqui com esta pequenina mostra. Até uma próxima...

1 Professora Estadual do Ensino Médio e da UEMA. Membro da AVL (Academia Arariense –Vitoriense de Letras). E-mail: dinaletras@ig.com.br

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