O país não tem que se assustar com as constantes prisões de figuras destacadas da vida pública, enroladas em todo o tipo de crime.
Do narcotráfico à lavagem de dinheiro, da evasão de divisas à pistolagem, “intocáveis” presumíveis estão descobrindo, de repente, que aquela história de que prisão foi feita apenas para pretos e pobres não é de todo verdade. Pode até ser que os chamados “grandes” passem bem menos tempo atrás das grades, mas eles estão chegando lá.
A verdade é que os colarinhos brancos estão cada vez mais enrolados nas próprias lapelas sujas. O Brasil descobriu, finalmente, que as classes abastadas, via de regra, enriquecem por via do crime. A prática do suborno serviu para emparedar atos de corrupção durante muito tempo, mas mostra a prisão do senhor larápio Daniel Dantas que está ficando cada vez mais difícil subornar autoridades.
A vigília constante de suspeitos de práticas inadequadas à vida pública por parte da Polícia Federal, o garrote sobre quadrilhas formadas por grandes empresários, megainvestidores, banqueiros e políticos para saquear os cofres públicos, tornam cada vez mais espetacular a atividade policial neste país. Afinal de contas, ninguém está interessado nas razões que levam às cadeias públicas pobres coitados e borras-botas que enveredaram pelo caminho do crime sarjados nos furúnculos da exclusão social. Mas a prisão de um Celso Pitta e de um Naji Nahas, no Brasil, já é espetacular pela própria improbabilidade.
A hipocrisia do país, no entanto, não podia perder essa oportunidade. Juristas de renome e até ministros de tribunais superiores já propõem rediscutir a utilização de algemas no ato das prisões. Estão querendo criar uma casta de criminosos superiores, os que não podem ser algemados, nem detidos sob os holofotes da imprensa. Mas estão pregando isso num país onde a maioria dos suspeitos é presa debaixo de porrada; um país onde qualquer juiz, advogado, promotor ou ministro sabe que a tortura é o principal fundamento das investigações policiais. Não choca porque só os pobres e sem eira nem beira são torturados.
Ladrão pobre é “vagabundo” e apanha nas vias públicas e, principalmente, nas celas isoladas dos cárceres fétidos para onde são recolhidos. Ladrão rico é sujeito de direito, habita prisões especiais e não representa ameaça física à sociedade. Mesmo que seus crimes sejam responsáveis pela desnutrição, inanição, tuberculose, esquistossomose, cancros e todas as desgraças virais que infernizam esta Nação.
Tanta hipocrisia dá para revirar o estômago. A verdade é que uma parte indisfarçável dos membros da Justiça, da classe política, do Ministério Público, da OAB, da Imprensa, acha errado prender pessoas “importantes” (ladrão de dinheiro público é status neste Brasil) porque se sente importante também. Até porque, em meio a toda essa azáfama, ninguém sabe a quem pertence o colarinho de ninguém.