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Você tem medo de quê?

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Data de Publicação: 30 de junho de 2008
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Eudes Oliveira de Alencar

eudesalencar@hotmail.com

A vida é um risco e o medo é um ingrediente fundamental nesta equação singular. Na medida certa é remédio. Pouco mais, adoece. Pouco menos, torna-nos temerários. Ele, como toda criança tem medos, assim mesmo, no plural. Eles têm caras de monstros, bichos horríveis, escondidos dentro do guarda-roupa, embaixo da cama, e me surpreendeu com um lugar inusitado, eles também saem de dentro da parede. Tentei racionalizar e consolá-lo com uma frase fantástica, retirada dos mais profundos e sábios compêndios da psicologia infantil. Seu medo está aqui, disse eu, tocando levemente em sua cabeça. E arrematei. Nada, nem bicho, nem gente ou qualquer outra coisa pode sair de dentro de uma parede que é sólida, feita de tijolos.

Ele nem se abalou: É, mas não adianta dizer isso para uma criança, ela não vai deixar de ter medo. Ela sempre vai pensar que o bicho está lá dentro. Foi uma maneira elegante de dizer que ele sabia disso – que a parede é sólida(?) – e que saber só, às vezes, não adianta muito. Fiquei eu com cara de tacho e me sentindo um tanto ridículo por minimizar algo para o qual a racionalidade é como bala de festim, faz barulho, se tanto, mas não mata nada.

Ainda bem que ele não sacou uma de suas muitas tiradas e me colocou num beco sem saída ao lembrar que Jesus, em dado momento depois de sua ressurreição, atravessou sim uma parede. Simplesmente surgiu dentro do local onde os discípulos se escondiam – o que não deixou de causar certo medo – depois da caça às bruxas feita pelos religiosos após sua crucificação. Não foi um feito de super-herói, era simplesmente outro estágio de ser. Os teóricos da nova onda quântica, pois é, quase tudo hoje tem esta palavra derivada da física, muito mais ainda no misticismo moderno. Eles adoram este tipo de coisa. Ah, quântico é a parte da ciência física que estuda as interações da matéria a nível atômico. Não entendeu? Não se impaciente. Mas é aí em que certos fenômenos subvertem nossa forma normal de pensar. Um corpo pode estar em dois lugares, o sólido pode ser, ao mesmo tempo, vaporoso. E velocidade e posição de um corpo nunca são certos. Isso explica atravessar uma parede.

Bom, mas toda esta história é para voltar ao tema medo, o que já abordei aqui em outras oportunidades. Tomo como exemplo a passagem de Jó 3.25,26 (versão EP): “O que eu mais temia aconteceu para mim, e o que mais me apavorava me atingiu. Vivo sem paz, sem tranqüilidade e sem descanso, em contínuo sobressalto.” Isto não é o retrato de um pessimista inveterado como pode parecer. De fato, ouvi interpretações apressadas atribuindo este medo de Jó a toda sua situação de desgraça, como se ele fosse uma espécie de ímã atrator de misérias. Ora, isto é, por bem dizer, uma leitura sem obedecer à lógica do texto, a situação emocional do personagem e ainda as condições especiais em que este homem se encontrava. Como se depreende da leitura, tudo que lhe aconteceu não decorre de que tenha errado, como o próprio Deus testemunha a seu respeito. Não há qualquer sombra de avexação na vida anterior, mesmo que se considere o zelo pelos filhos, e fazia sacrifícios em nome deles supondo que tivessem pecado (1.5).

Então, que tipo de medo é este? A fala aparece no final de um discurso bastante dolorido no qual questiona sua existência diante da perda descomunal que lhe foi infligida. Sem querer acrescentar nada ao texto, parece-me que Jó entende que a vida humana tem, dado por Deus, um propósito de bem-estar, realizações, valor e, acima de tudo, para uma profunda relação com Ele. Fora disto, por que existir? Pergunta. Quer dizer, o sofrimento sem causa, sem propósito que muitos de nós nos esforçamos por ter quando desafiamos leis humanas ou não, físicas ou emocionais, é só isso mesmo, dor despropositada. Quantos de nós não juntamos com as mãos e espalhamos com os pés nossa vida com uma tenacidade invulgar?

Assim, o zelo anterior de Jó sugere que seu medo era transgredir a lei de Deus. Este é um medo fora de moda. Ele era reverente, reto e íntegro, diz Deus sobre ele (2.3). Sua calamidade nada tem a ver com transgressão ou preocupação doentia. Ora, aquele que tem em si as qualificações que Deus lhe atribuiu, não pode valorizar os bens acima de seu Senhor e ele de fato entende assim quando diz: “o Senhor o deu e o Senhor o tomou...” Portanto, aqui passa longe a relação de causa e efeito entre os eventos de que foi vítima e o medo, ou pecado, ou qualquer pseudo-lei teológica de prosperidade.

Vejamos o quadro anterior. A vida de Jó é de plena felicidade como se costuma almejar e dez entre dez de nós tem como paradigma. Dinheiro, saúde, família saudável, liderança, respeito da comunidade, reconhecimento. Bem, tudo isso foi perdido. A expressão usada no noticiário funesto é: falava este mensageiro ainda quando o outro disse... Assim, um após o outro relatou a morte de todos os filhos, o roubo dos bens, os desastres, o assassinato de funcionários e, por fim, a doença que não precisou de aviso. A seqüência, a violência, a proximidade dos fatos, claramente não parecia coincidência, havia algo agindo. Jó atribuiu a Deus. Esta é, por si só, uma perspectiva incomum.

O medo de Jó não é também um medo normal, tem direta relação com o contexto em que se encontra. Não se trata de ansiedade, reação fóbica, pessimismo. É a reação de um homem no limite de suas forças, cuja dor é insuportável, tanto física como emocional. Seu medo não é falta de fé. A experiência de vida lhe ensinara que coisas ruins acontecem sem que se saibam as razões. Seu estado explica isso, e não há como não ter medo deste desamparo. Estava tudo bem e de repente... Seu medo se conecta com o pressentimento de que ele tão somente iniciava sua longa jornada naquele túnel escuro. Quantos anos ele viveu naquele estado? Não se sabe. Minha suspeita é que se passaram quem sabe um lustro ou mais.

Ter medo faz parte, mas que tipo de medo, você alimenta? Infantis como monstros saindo de dentro de uma parede ou tóxicos, cavernas de pessimismo? Reativos ao mundo enlouquecido como se você não tivesse a quem recorrer? Medos paralisantes, peçonhentos, que lhe impede de dar um passo na direção de uma conquista? Não alimente seu medo, no início ele parece um monstrinho quase inocente a quem se dá petiscos, numa hora ele se torna tão grande que a vida acaba. Aquele menino não se livrou de seus monstros, mas ele os enfrenta quando dorme só todo dia. Jó temeu, mas foi até o fim de sua agonia para, ao final, restaurado pelo Senhor da Misericórdia, dizer que antes – no período em que eu e você consideraríamos a máxima felicidade – ele O conhecia apenas de ouvir, seu sofrimento atroz, no qual temeu, o fizeram vê-Lo como é.

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