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Tecnologia ou astúcia maligna?

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Data de Publicação: 30 de junho de 2008
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-Anúncio da invenção de microchip para rastreamento pessoal preocupa evangélicos-

Imagine ser convidado para fazer parte de um experimento tecnológico que pode revolucionar vidas.

Mas não se trata de alguma terapia ou tratamento recém-descoberto para doenças graves.

A novidade consiste na introdução de um chip do tamanho de um grão de arroz no braço. A partir daí, todas as informações sobre o indivíduo – nome, idade, freqüência cardíaca, temperatura corporal, taxa de açucar no sangue e até a exata localização em que se encontra são transmitidas para a estratosfera, onde um satélite fornece todos os dados para uma central. Assustador? Por certo, ainda mais para quem já leu o Apocalipse, livro profético da Bíblia Sagrada, que antecipa para o fim dos tempos uma espécie de controle das pessoas exercido por figuras diabólicas, como o Anticristo e o Falso Profeta.

A notícia, espalhada recentemente pelo mundo, deu o que falar. Seres humanos, em tese, já podem ser monitorados 24 horas por dia. E na vida real, o que torna a coisa muito mais séria do que baboseiras como programas de TV tipo “big brother Brasil”. Pelo menos, é o que garante a Applied Digital Solutions, empresa americana sediada em Palm Beach, na Flórida. Ela desenvolveu o Verichip, dispositivo com capacidade para guardar informações que podem ser lidas através de scanners eletrônicos especiais. Pode ainda não ser a chegada da temida besta apocalíptica, que, segundo as Escrituras, vai tentar pôr um sinal em cada pessoa, (a marca da besta), mas que é um passo na direção de algo no gênero, não resta dúvida.

E, já de olho em hipotéticas apropriações indevidas da nova tecnologia pelo maligno, muita gente arrepia-se com a novidade.

“Esse negócio de microchip no corpo é uma armadilha do diabo” alerta o pastor Eliseu Pereira Lopes, da Igreja Batista do Calvário em Rio Claro-SP. Na mesma linha vai o pastor Martinho Semblano, da Igreja Nova Vida da Tijuca-RJ. Afirma ele:

“o fim está realmente próximo - pelo menos até agora este é o meio mais próximo daquilo que é antecipado nas revelações do Apocalipse”.

Por enquanto, os microchips de rastreamento pessoal só podem ser encontrados nos EUA, onde, segundo, a Applied Digital, há pelo menos 4.000 pessoas na lista de espera por um implante. As justificativas são diversas – desde gente que quer sentir-se mais protegida na eventualidade de um seqüestro ou assalto até hipocondríacos de todo tipo, além, claro, de quem não resiste a uma novidade. Maurício Ciaccio, gerente geral da Nordeste Segurança Eletrônica, bem que tentou importar o Verichip, mas as negociações não avançaram. Diz o executivo: “nossa intenção era utilizá-lo na área de segurança pessoal e patrimonial. O Verichip poderia ser vendido em shopping centers, já que seu implante é rápido e fácil”.

O autônomo Dílson Kutscher, de Pelotas-RS, , que mantém na web o Portal Anjo, especializado em temas escatológicos, chama a atenção para a estreita ligação do homem moderno com as inovações científicas. Ele, que se confessa católico, também manifesta preocupação com o tal microchip de uso subcutâneo: “quando o Anticristo estabelecer o seu domínio global, ele controlará o ser humano com muita facilidade, pois os homens já dependem literalmente da tecnologia”.

O médico Ricardo Luiz Mascarenhas, membro do ministério Cristo é a Resposta, é cauteloso na sua análise. Diz ele:

“é importante observar que a Palavra de Deus não nos autoriza a usar a imaginação para interpretar as profecias, pois há uma clara advertência em relação ao fato de que nenhuma profecia é de particular interpretação; precisamos aprender a respeitar os limites que a Palavra impõe à interpretação das profecias, usando o bom senso e deixando de lado a imaginação”.

Opinião semelhante tem o pastor Jorge Valle, da Assembléia de Deus, diretor do Instituto Bíblico de Campinas-SP: “precisamos estar preparados para, quando o fim efetivamente chegar, possamos ser arrebatados”

Profecias à parte, há muitos entusiasmados com o uso de chips acoplados ao corpo. É o caso do artista plástico Eduardo Kac, professor da Escola do Instituto de Arte de Chicago. Há cinco anos, numa performance artística batizada “Time Capsule (cápsula do tempo), ele introduziu um chip de rastreamento, usado para localizar animais, no próprio tornozelo. O objetivo? É ele quem explica: “eu queria confrontar uma memória natural com outra que se adquire artificialmente” Deu para entender? Bem, em todo caso ele se intitula o primeiro ser humano a ter implantado um dispositivo do gênero, embora aparentemente o objeto não lhe traga nenhuma vantagem prática.

Para o pastor batista Nilson do Amaral Fanini, experiente líder evangélico, “tudo isso que está acontecendo foi previsto no capítulo 12 do livro do profeta Daniel, que fala sobre o progresso da ciência; ainda bem que Deus, na sua onisciência, não precisa de chip nenhum”. Ele acha espetacular o avanço tecnológico, desde que a serviço do bem-estar do homem. Bem humorado, até encontra uma utilidade para o Verochip – “seria muito interessante colocá-lo em todas as minhas ovelhas, assim eu poderia saber por onde elas estão andando”.

Para o missionário Ingo Haake, membro da Igreja batista de Porto Alegre, e vice-presidente da Editora Chamada da M eia Noite, é preciso evitar o alarmismo. Declara ele que “nossa fé deve ter como firme fundamento a Palavra de Deus; conhecendo as profecias bíblicas, sabemos o que está por vir e não ficaremos tão abalados com novidades”. Lembra Haake que em passado recente outras tecnologias, e até mesmo o computador, foram satanizados por muitos evangélicos. Acrescenta: “também uso computadores, telefone, cartão de crédito etc. São elementos que no futuro poderão compor a estrutura de controle do Anticristo; agora, entretanto, ainda não há por que evitá-los”. Ressalta, todavia, que sempre haverá o risco de uso inadequado e até inescrupuloso, não só do Verochip, como de qualquer produto. Finaliza declarando que “a TV e a internet são fabulosas, mas também podem disseminar idéias prejudiciais e mesmo propagar o mal.

Júlio Aires

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