FOGUETES, BALAS E JUSTIÇA
JOÃO PESSOA – Na noite de 21 de março de 1997, no Clube Campestre, a cidade de Campina Grande estava lá para comemorar o aniversário de seu mais ilustre filho, o ex-prefeito, ex-governador, senador e poeta Ronaldo Cunha Lima. Quando ele chegou, fogos, muitos fogos. Foguetes, muitos foguetes.
O esquema majoritário do PMDB na Paraíba estava imbativelmente combinado para as eleições de 98. José Maranhão, governador, candidato à reeleição. Ivandro Cunha Lima, deputado, irmão de Ronaldo, candidato a vice-governador. E Cássio, filho de Ronaldo, prefeito de Campina Grande pela segunda vez, candidato a governador em 2002.
Daí a pouco, chegou de João Pessoa o governador José Maranhão, para comemorar o aniversário do companheiro de cassação, de partido e de projeto político. Fogos, muitos fogos. Foguetes, muitos foguetes. Ronaldo, que conhece a liturgia dos fogos e foguetes na política, desconfiou. Havia mais fogos e foguetes para o governador do que para ele. Em Campina Grande, na terra dele, isso não podia acontecer.
RONALDO
E não podia ser coisa de gente da terra. Havia dedo de fora. Começou a crise. Ronaldo tomou os uísques de sempre e, na hora do discurso, em vez de versos e rimas, soltou os cachorros, de dedo apontado para o governador, ali perto, juntinho dele, dedo contra nariz:
- Governador, segure seus traidores, assessores e bajuladores!
O governador passou mal, retirou-se. Começaram os empurrões e palavrões entre os amigos de um e outro, que eram amigos de todos. Acabou a festa e a aliança. O governador deu nota oficial dizendo que fora agredido. Ronaldo disse que estava sendo traído. E os jornais publicaram as fotos do dedo e do nariz e o discurso sem rima contra os “bajuladores”.
Disputaram a convenção. Maranhão derrotou Ronaldo, foi candidato à reeleição e ganhou. Ney Suassuna saiu mesmo para o Senado e Ivandro, o vice irmão de Ronaldo, renunciou para o deputado Roberto Paulino.
Magalhães Pinto dizia que o bom da política era palanque, discurso e foguete. Mas às vezes foguete atrapalha.
BURITI
Em 1990, Ronaldo tinha disputado o governo do estado com Wilson Braga e ganhou. O ex-governador Tarcísio Buriti lhe fazia forte oposição. Numa entrevista à TV, acusou Cássio, filho de Ronaldo e superintendente da Sudene, de irregularidades. O governador foi ao restaurante onde Buriti almoçava com amigos e lhe deu um tiro na boca. Salvou-se por um fio.
Ronaldo não perdeu o governo, porque a Justiça o absolveu por “legitima defesa da honra”. Sub-judice até o fim, em 94 elegeu-se senador.
Os foguetes e a bala continuaram rendendo. Quando não são eles, é a Justiça. Em 2002, quem se elegeu governador foi o filho Cássio, reeleito em 2006 exatamente contra José Maranhão: 51% a 48% no segundo turno. Mas impugnaram a reeleição por “gastos públicos na campanha”. O Tribunal Eleitoral do Estado lhe cassou o mandato. O recurso está no Tribunal Superior Eleitoral. Como o pai, um governador “sub-judice”.
BERNARDO
Depois do AI-5, quatro amigos almoçávamos invariavelmente, uma vez por semana, no Yankee, pequeno, simpático e metido a besta (só podia entrar de paletó e gravata) restaurante do centro do Rio: Bernardo Cabral, deputado cassado do Amazonas; Humberto Lucena, derrotado para o Senado por pressão do governo militar; Ronaldo Cunha Lima, prefeito cassado de Campina Grande; e eu, deputado cassado da Bahia.
Cada um com seu projeto para depois da ditadura. Bernardo, candidato a presidir a Ordem dos Advogados, voltaria para Manaus para ser deputado e senador. Humberto Lucena, trabalhando na TV Tupi, voltaria para a Câmara, depois o Senado e o governo do Estado. Ronaldo voltaria à prefeitura de Campina Grande e seria senador e governador. Eu continuaria meu jornalismo com liberdade, faria livros e trabalharia na Europa.
Todos cumprimos. Só Lucena, duas vezes senador, não chegaria a governador. E Ronaldo ainda veria o filho duas vezes no governo.
Os Cunha Lima não têm do que se queixar. Nem da Justiça.
MARANHÃO
Outro fato político que só aconteceu aqui na Paraíba. Não há noticia de outro político brasileiro, no Império e na República, eleger-se deputado com menos de 21 anos. Como as Constituições anteriores, a atual é clara:
- Art. 14, parágrafo 3º - “São condições de elegibilidade: 18 anos para vereador; 21 anos para deputado federal, estadual ou distrital, prefeito e juiz de paz; 30 anos para governador e vice-governador; 35 anos para presidente e vice-presidente da República”.
O paraibano José Maranhão, nascido em 6 de setembro de 1936, em 3 de outubro de 1954, com 18 anos e menos de um mês, elegia-se deputado estadual na Paraíba, pelo PTB. O estado ainda não estava atacado pela febre impugnativa eleitoral, ninguém reclamou, ele cumpriu o mandato inteiro, reelegeu-se em 58 e 62, e em 66 (pelo MDB). Como secretario da Agricultura fundou associações rurais e cooperativas de produtores rurais, em tempos de Ligas Camponesas. Veio o golpe militar, foi cassado em 69.
Anistiado em 79, foi federal em 82, 86 e 90, vice-governador em 94, e em 98 o governador mais votado do país (80,72%). Desde 2002, senador, sempre pelo PMDB. E já é candidato a voltar ao governo em 2010.
(www.sebastiaonery.com.br)