Eudes Oliveira de Alencar
eudesalencar@hotmail.com
Como você definiria pessoa? O senso comum teria algumas respostas. Ser humano. Filho de Deus. Gente. As ciências humanas dariam respostas mais sofisticadas. Falariam de inteligência, criatividade, produção cultural, um ser com consciência de si mesmo, um ente dotado de valores morais e espirituais, indivíduo falante, capaz de produzir comunicação e interrelacionar-se por meio dela. Enfim, a lista seria longa. Provavelmente você não pensaria num chipanzé como pessoa, por mais desenvolvido que o bicho fosse, mesmo que tenha, dizem, 99% de coincidência genética com os seres humanos.
É verdade que, por diversos fatores, bichos são elevados à condição de quase-gente, mais pela fantasia de algumas pessoas do que por qualquer feito do animal e este, quando o faz, os demais não passam a acreditar que, por alguma mistério da evolução, o tal caminhe para ser gente. É verdade também que o mercado de cuidados com animais consome bilhões e é cada vez maior. Para se ter uma idéia, há mais pet shops em São Paulo que farmácias.
O nome dele é Hiasl. Nem me pergunte a pronúncia. É um chipanzé de 26 anos e vive em Viena, Áustria. Seu local de moradia será fechado e ele não pode ir para o zoológico. Alguém conseguiu dinheiro para garantir o abrigo do macaco, mas exigiu que houvesse um guardião legal. A lei austríaca só prevê esta figura para humanos. Pronto, instalou-se a piração. Ativistas dos direitos dos animais não titubearam: resolve-se o problema declarando-se que o macaco é pessoa, afinal, argumentam, o animal foi criado desde pequeno com pessoas, socializou-se com elas. Perderam em todas as instâncias e apelaram para a corte européia à qual pedem a anulação das decisões anteriores.
Munidos de declarações técnicas de especialistas de renome internacional no campo do direito constitucional, filosofia do direito, antropologia e biologia, alegam que aquela proximidade genética permitiria considerá-lo quase humano e então alopram. Chegam a dizer em suas alegações que, em teoria, um chipanzé macho copulando com um mulher, produziria filhos férteis, portanto, uma nova subespécie que se poderia, digo eu, chamar até de humanozé.
Há tempos se nota a completa perda dos marcos e fronteiras do que é ser humano. Chocamo-nos com atos de barbárie que não encontram explicação a não ser na bestialização da pessoa quando ela perde o referencial de humanidade e age animalizado, movido unicamente por instintos, sem qualquer avaliação moral das conseqüências de seus atos. Parece-me, no entanto, que algo mais sutil também ocorre no plano das idéias e isto é o mais devastador. Nossa primeira impressão está ligada normalmente aos atos de violência, a segunda tem uma pessoa (ou conjunto delas) por trás construindo uma compreensão, que por um lado eleva o animal e, por outro, rebaixa o ser humano.
É incrível que o século XX tenha produzido tantos marcos que priorizam e valorizam o ser humano tal qual é, como define a Declaração Universal dos Direitos Humanos – talvez porque tenha sido um período tão cheio de negação do valor humano – referenciais estes que ainda movem tantas ações importantes em favor daqueles que sofrem, são usados como objetos, destituídos de sua dignidade e, ainda tão perto, deparemo-nos com novos caminhos que mutilam aquela crença no ser humano como algo maior que sua materialidade.
O diagnóstico é simples, a meu ver. Tanto mais distantes de Deus, não por negarem sua existência – vive-se dias de indiferença abominável – tanto mais perdidos daquilo que se é. Deus, somente Ele, referencia o ser humano. Ainda que se considere o fanatismo (que alega servir a Deus), tão mais presente em nossos cotidianos, ou o aumento da religiosidade, a busca por uma espiritualidade sem âncora no Eterno, a explosão de idéias místicas, filosofias de auto-ajuda, todas carregam na barriga algo que lhes iguala: não há Deus pessoal com quem se relacionar. De fato, o próprio homem/mulher é seu centro de gravidade. Na física, este mesmo fenômeno numa estrela gera um buraco negro, monstro devorador de tudo, até da luz.
O relato bíblico central se vale de um animal (um cordeiro) como representação de um Homem. Cria com o ritual do sacrifício, uma expectativa sobre a manifestação de um Homem em quem todos os demais se completariam, porque ele seria o prelúdio da humanidade redimida e mais, cada indivíduo, dividido entre a aspiração por Deus e os desejos desencontrados que o arrastam para a destruição, posto que não produzem nada a não ser insatisfação, incompletude e aquilo que os hindus definem como samsara, um ciclo eterno de começos e finais desgraçados, cada um destes, seria sarado da dor intensa da amputação, da separação de Deus e naquele modelo de Homem encontrariam o caminho perdido.
Eu diria, sem medo de ser confundido com aqueles a quem o poeta José Chagas, em sua última crônica em O Estado do Maranhão, criticava por se valerem do excomungado para seus intentos religiosos nada louváveis, que se há uma ação diabólica e infernal em curso hoje em dia é esta, a desconstrução do ser humano. E são as muitas frentes de ataque, seja esta de elevar ou parelhar um bicho a gente, coisa que se faz até sem construções intelectuais, seja quando a pessoa se dissolve num nada de idéias tolas, seja quando se torna apenas atos reflexos em busca de prazer, ou ainda, quando se amesquinha valorizando bens, o corpo e o material.
Todos os seres vivos merecem respeito e cuidado, diria. Não é certo matar um animal, destruir seu habitat pela ganância desenfreada. Saibam que isto, aos olhos de Deus, é pecado. A própria redenção final, segundo a Bíblia, antevê um lugar para os bichos em perfeita harmonia com as pessoas. Nova terra não significa apenas um lugar paradisíaco para humanos, mas para toda a criação, donde se supõe que este todo: gentes, animais, plantas, rios, pássaros, é algo que contém uma sacralidade natural, conferida por aquEle que a fez e sobre cada qual disse: isto é bom.