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O homem e o monstro

O homem e o monstro

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Data de Publicação: 23 de junho de 2008
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Mateus Ferraz

O assassinato da menina Isabella Nardoni, de 5 anos de idade, além de despertar uma revolta tempestuosa na sociedade, suscitou também um antigo debate filosófico-teológico: a origem do mal. É claro que convivemos com as diversas expressões de maldade diariamente, mas, aparentemente, o mal cometido em larga escala, como nas guerras civis da África ou naquilo que aprendemos a categorizar conjuntamente como "violência no Rio de Janeiro" nos parece mais digerível quando comparado a um ato hediondo de jogar uma criança do alto de um edifício. A diferença está no fato de que as expressões de maldade coletivas, embora igualmente absurdas, são justificadas por motivações específicas tais como, conflitos ideológicos, desejo de poder ou até mesmo a desestruturação do sistema econômico social de um país que empurra os marginalizados à violência. Mas como justificar o crime contra uma criança de cinco anos?

A perplexidade é tanta que faz com que jornalistas e psicólogos se voltem para a discussão filosófica da origem do mal. De onde vem esta perversidade monstruosa? Como um ser humano, seja ele quem for, se vê autorizado a exercer sua força para destruir uma criança indefesa? As tentativas de explicação passam por diversas áreas, desde a neurociência até a psicologia. Os cientistas tentam mapear o cérebro em busca do compartimento onde se aloja o comportamento perverso enquanto os psicólogos tentam decompor a psique humana em busca de elementos trágicos na história de alguém para justificar sua psicopatia. E obviamente quando as respostas são escassas, todos acabam empurrando a bomba para os teólogos. Alguém tem que explicar essa deformação absurda.

O fato é que ninguém quer ouvir a explicação. Porque se atentarmos para o que diz as Escrituras, teremos que nos ver no reflexo do perverso.

O primeiro crime hediondo cometido na história da humanidade foi o fratricídio cometido por Caim, no mundo pós-edênico. A monstruosidade ocupa seu papel no drama da humanidade quando o homem se vê desconectado de Deus. E isso me parece bastante óbvio. Se o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, ele só pode desfrutar da plenitude de sua humanidade quando ligado a Deus. O que é desumano, como o ato de matar um irmão ou uma criança, acontece a partir da ruptura do relacionamento com Deus. Embora haja objeções ao uso do pecado como justificativa do mal, por ser uma explicação "religiosa", é a única que realmente faz sentido. O mal é uma escolha. Antes de assassinar

Abel, Caim recebe uma advertência divina: "eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo." O mal aparece na história da (des)humanidade como uma conseqüência direta da escolha do pecado. E aqui está a dificuldade. Pecado não é um ato, é um estado de rebelião. O ato é somente um desdobramento da escolha que fizemos enquanto raça. Portanto o mesmo estado de rebelião que produz em alguns a mentira, o adultério, o furto, o ódio, produz em outro o comportamento homicida. Embora um pareça mais monstruoso que o outro, os dois têm a mesma procedência. O monstro que matou a criança vive silenciosamente disfarçado em cada um dos que agora clamam por justiça. Basta dizer que nem precisamos de provas para desejar vingança. Basta que soltem os suspeitos nas ruas indefesos e outros monstros despertarão do sono e insurgirão com ódio contra ele.

Realmente, casos como os da pequena Isabella revelam a monstruosidade. No entanto, o mais assustador é que ao mesmo tempo em que vejo a monstruosidade do assassino, contemplo a contragosto o monstro dentro de mim.

É por isso que a resposta cristã não agrada. Porque a única solução é matar o monstro, e isso a Bíblia chama de "morrer para si".

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