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Data de Publicação: 22 de junho de 2008
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POR OSWALDO VIVIANI

SUSPEITA DE CRIME ELEITORAL

As vagas – mais de 1.200 – são de projeto da Odebrecht para duplicar ferrovia da Vale em Bom Jesus das Selvas

De Bom Jesus das Selvas

Nas últimas duas semanas, a cidade de Bom Jesus das Selvas, localizada no oeste maranhense (a 466 km de São Luís), foi agitada pela notícia de que um projeto de duplicação da ferrovia da Vale – que corta o município –, a ser tocado pela Construtora Norberto Odebrecht, geraria emprego para mais de 1.200 pessoas. Seria uma boa nova, considerando-se que o desemprego é uma dos maiores flagelos da cidade: segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Bom Jesus das Selvas é um dos lugares de onde sai o maior número de pessoas que realizam trabalho degradante (análogo à escravidão) nos estados do Pará e do Mato Grosso. O problema é que essa oferta de emprego, faltando pouco mais de três meses para as eleições, caiu do céu para parte dos políticos do município, que passaram a controlar o cadastramento dos candidatos às vagas.

Nos dois dias em que esteve em Bom Jesus das Selvas, a reportagem do Jornal Pequeno apurou que uma certa quantidade de senhas, para posterior preenchimento de fichas cadastrais, ficaram ao menos uma semana nas mãos de vereadores pertencentes à base de apoio da prefeita Maria de Sousa Lira (PT), que as distribuíram a seus correligionários.

Pessoas entrevistadas pelo JP admitiram que receberam senhas do presidente da Câmara de Vereadores, Luís Costa de Oliveira (“Professor Luís”), do PMDB, e da vereadora Adelaide Libânio da Silva (“Adelaide do Boca Rica”), do PRTB.

Dezenas de pessoas em busca de emprego aguardam todos os dias diante de um local alugado pela Prefeitura para pegar senhas (destaque) e fazer fichas

As senhas em poder do vereador Luís teriam sido distribuídas na própria Câmara Municipal por três pessoas ligadas ao vereador, de nomes Sérgio (“Serjão”), Neto e Lourivan. O vereador Irineu de Melo Cursino Filho (PP) também é suspeito de ter distribuído senhas a seus eleitores com promessa de emprego, mas o JP não encontrou na cidade quem confirmasse ter recebido o papel das mãos de Irineu ou por determinação dele.

Os três vereadores mencionados – Luís, Adelaide e Irineu – pretendem concorrer à reeleição. Eles negam as acusações.

Em entrevista ao JP, a prefeita Maria Lira negou até mesmo ter conhecimento da distribuição de senhas (veja texto em destaque), mas a reportagem apurou que um sobrinho da prefeita, de apelido “Beto”, e sua mulher, Tatiane, são os responsáveis por entregar senhas à população, num local (antigo Comércio Econômico) alugado pela Prefeitura.

O proprietário do lugar – situado na esquina da travessa dos Pinheiros com a rua Caxias – é Claudionor Dias, mas foi sua irmã, Marilene Dias de França quem, há pouco mais de duas semanas, fechou o negócio do aluguel com a Prefeitura, que se comprometeu a pagar R$ 280 mensais pelo espaço.

Dezenas de pessoas interessadas em pegar senhas ou preencher fichas cadastrais compareceram a esse local nos dois dias em que a reportagem do JP esteve em Bom Jesus das Selvas (terça, 17, e quarta, 18), mas nesse período “Beto” e Tatiane não apareceram por lá, apesar de um cartaz informar que o atendimento era feito diariamente.

Na terça-feira, às 9h30, a reportagem conversou com pessoas que estavam aguardando na fila há mais de três horas, como o desempregado Antonio da Silva Rodrigues, de 40 anos, que já havia esperado em vão pelo atendimento na segunda-feira, 16, uma vez que sua senha para preenchimento da ficha cadastral era para esse dia. “A Odebrecht é que deveria fazer as fichas e não deixar na mão da Prefeitura ou de políticos”, disse Antonio, que, assim como todos os que esperavam atendimento, acredita que o que está sendo oferecido é emprego imediato.

Cientes da utilização de ofertas de emprego como futura “moeda de troca” eleitoral, os vereadores da oposição – que já deram muito trabalho para a prefeita Maria Lira em outras ocasiões, como numa CPI sobre irregularidades no setor de transportes, em 2006 –, agora estão preferindo silenciar.

“Com tanta gente desempregada aqui na cidade, se nós, da oposição, criticarmos quem está prometendo emprego, o povo pode até se voltar contra a gente”, afirmou o vereador Ozéas Nunes da Silva (PRP).

O mesmo argumento é utilizado pela vereadora Raimunda Chagas Sousa Carvalho, a “Doquinha” (DEM). “Sei que cada vereador da base da prefeita recebeu 50 senhas e fichas, e a própria vereadora Adelaide admitiu para mim que recebeu, mas dessa vez eu não vou denunciar, é muito desgastante”, disse ela.

A denúncia sobre o controle da oferta de empregos por parte de políticos em Bom Jesus das Selvas já chegou ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral, via internet. Nenhum dos órgãos ainda se pronunciou sobre o assunto.

Prefeita afirma desconhecer uso político de oferta de empregos

A prefeita Maria Lira afirmou ao JP desconhecer o fato de que políticos estariam distribuindo senhas com promessa de empregos a moradores de Bom Jesus das Selvas. “Não sei de nada disso. Eu combato esse tipo de coisa. Se for constatado isso, quero que o caso chegue à Justiça Eleitoral porque eu sou uma defensora da lei 9840 [contra a corrupção eleitoral] e meu perfil político não é o de apoiar esse tipo de coisa”, disse a prefeita.

Prefeita Maria Lira e vereador Luís: os dois negam uso eleitoreiro das vagas da Odebrecht

De acordo com Maria Lira, o que a Prefeitura está fazendo – e que ficou estabelecido com a Odebrecht – é um levantamento da mão-de-obra local, um banco de dados, e não um recrutamento para emprego. “Em nenhum momento demos a entender à população que estamos oferecendo empregos. Quem gerou a expectativa de que essa pesquisa é para emprego imediato nós temos de identificar e responsabilizar”.

A prefeita – que vai ser candidata à reeleição – afirmou, ainda, que sua relação com os vereadores que a apóiam é tão-somente “institucional”. “Se algum vereador da minha base de apoio na Câmara está fazendo isso [distribuindo senhas com promessa de emprego] não quer dizer que eu concordo”, disse Maria Lira.

(OV)

REALISMO FANTÁSTICO

História da cidade já teve padre aliado com pastor, invasão de índios e tatu envenenado

Bom Jesus das Selvas virou município há pouco mais de 14 anos, mas essa cidadezinha onde a poeira e a fumaça das madeireiras impregnam o ar o tempo todo e uma enorme cratera provocada pela erosão já engoliu várias ruas já tem histórias que caberiam bem no realismo fantástico de Gabriel García Márquez.

O primeiro prefeito de Bom Jesus foi um padre, José de Ribamar Silva Moraes Filho (PMDB). Para vencer a eleição de 1996 com mais de 80% dos votos, o Padre Ribamar fez uma aliança insólita: convidou para vice um pastor, Pedro Silva. Formaram a chapa “Bom Jesus nas mãos de Deus”.

Padre Ribamar (na foto com a mãe, Lúcia) foi o primeiro prefeito de Bom Jesus das Selvas

Pouco tempo depois de completar um ano no poder, o Padre Ribamar – que entre outras “realizações” criou uma “Delegacia do Fuxico” para multar quem falasse mal dele – foi afastado da Prefeitura sob a acusação de desvio de dinheiro público.

A denúncia nunca foi comprovada, mas o padre foi deposto assim mesmo, em março de 1998, porque um dos fazendeiros mais ricos da região, de nome Antonio Borges, tomou a Câmara com cerca de 40 policiais militares que mandou vir de Pindaré-Mirim, e fez os vereadores votarem pela cassação do padre.

O fazendeiro, que morreria na cadeia, cumprindo pena por envolvimento com o crime organizado, havia financiado a campanha do Padre Ribamar, e queria ser o prefeito de fato da cidade.

Revoltados com o impeachment do padre, mais de 100 índios guajajaras de aldeias que recebiam atenção especial do religioso invadiram a cidade e entraram em confronto com os policiais que estavam na Câmara. A refrega teve como saldo mais de 20 policiais feridos a facão e alguns vereadores com os olhos queimando por causa de uma “arma-surpresa” dos indígenas: pimenta.

Saiu o padre (que morreu em fevereiro do ano passado), assumiu o pastor Pedro, que também foi deposto meses depois por usar dinheiro público para comprar gel de massagem para um time de futebol da cidade. Passou a comandar o município o então presidente da Câmara, Aldo Cardoso. Mal assumiu, fugiu: ganhou de presente um tatu (iguaria tradicional da região) com votos de boa sorte. O tatu estava envenenado.

Depois dessa fase, digamos, tumultuada, Bom Jesus das Selvas conheceu um período de relativa tranqüilidade política com o prefeito Luiz Sabry Azar (DEM), de 2001 a 2004, e a atual gestora Maria de Sousa Lira (PT).

(OV)

Levantamento sobre a mão-de-obra deve ser técnico, sem ingerência política, diz Odebrecht

O responsável administrativo financeiro da construtora Norberto Odebrecht no Maranhão, Manoel Sandoval da Silva, disse ao JP que o que foi pedido para a Prefeitura de Bom Jesus das Selvas foi a realização de um estudo preliminar sobre a mão-de-obra local, e não um cadastramento para emprego imediato, como está acreditando a maior parte da população da cidade.

Ele informou que foi da Vale a sugestão para que se entregasse a tarefa da apuração desses dados à Prefeitura, já que em Bom Jesus não existe o Sistema Nacional de Empregos (Sine), órgão ao qual geralmente cabe realizar esse levantamento.

“Nós fomos contratados pela Vale para fazer o planejamento, o orçamento e o projeto básico da duplicação da ferrovia, obra que abrangerá praticamente toda a extensão da via férrea no Maranhão e que vai ter 26 meses de duração. O estudo sobre a mão-de-obra local, já que a Odebrecht tem como política oferecer trabalho prioritariamente a quem mora na cidade envolvida em seus projetos, é parte dessa etapa preliminar, e esse estudo deve ser eminentemente técnico, sem qualquer ingerência política. Isso ficou muito claro quando conversamos com a Prefeitura de Bom Jesus das Selvas”, garantiu Manoel Sandoval.

Ele contou que, ao saber, por meio de uma denúncia que lhe chegou pela internet, que o levantamento sobre a mão-de-obra do município estaria servindo aos interesses de políticos locais, viajou a Bom Jesus e se reuniu com a prefeita Maria Lira, para esclarecer os fatos. “Foi sugerido que o assunto fosse tratado numa audiência pública, mas não vejo como resolver esse caso técnico numa audiência que vai incluir outros temas, a maioria deles políticos e administrativos”, disse Sandoval.

Ele não descartou, em vista dos problemas surgidos, o rompimento da parceria com a Prefeitura de Bom Jesus das Selvas no levantamento da potencialidade da mão-de-obra local.

(OV)

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