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Adivinhar pensamentos. É possível?

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Data de Publicação: 2 de junho de 2008
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Talvez esteja com os dias contados a capacidade de esconder o lugar mais secreto de todos que um ser humano pode ter, a sua mente. Nos Estados Unidos, cientistas da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, testam um programa de computador acoplado a uma máquina de ressonância magnética, que é um aparelho capaz de “ver” o cérebro funcionando, isto é, registra as áreas cerebrais ativadas quando se faz uma ação, pensa ou fala. O computador relaciona a área ativada com palavras num grande banco de dados, assim pode simular o fenômeno da telepatia, ler o pensamento.

A pesquisa está apenas no início, mas arranca entusiasmada fala de um dos cientistas que disse: “Acreditamos ter identificado vários dos tijolos que o cérebro usa para construir significados”. O resultado do experimento, portanto, é mais profundo, não registra palavras soltas, mas a relação desta com seu significado. No caso, diz-se que pensar uma palavra que tem a ver com alimento, esta faz conexões às regiões responsáveis por olfato, cheiro, paladar.

Evidente que os cientistas tendem a ver apenas o lado bom da pesquisa, e há de fato. Mas os perigos disso são gigantescos. Já imaginou, daqui há alguns anos uma pessoa com o aparelhinho do tamanho de um Ipod, chega perto do outro e apenas lê o que aquele está pensando? Não haverá mais segredos. Claro, exagero um pouco, haverá algo que bloqueie, ou as pessoas aprenderão a burlar o aparelho pensando bobagens, por exemplo. Mas como descobrir que ali do lado, um discreto senhor idoso e que aparentemente apenas lê o jornal do dia está, na verdade, lendo você?

Lembrei do episódio com Sara mãe de Isaque que, escondida atrás de uma cortina, ouvia a conversa de seu marido com uns visitantes que pouco adiante se sabe que são anjos, enviados para a destruição de Sodoma e Gomorra. Um deles disse a Abraão, naquela altura com quase cem anos, que teria um filho de sua mulher dali a um ano. Ela, escondida, riu-se. Era, humanamente falando, uma piada. Logo após, o anjo não somente revelou a atitude de Sara como a desmentiu quando ela resistiu dizendo que nada tinha feito. Em não poucas passagens Jesus lê a intenção, o significado, a palavra não dita de algum interlocutor, para surpresa boquiaberta de quem era interpelado.

Na casa de Simão, o fariseu, uma prostituta se aproxima, chora, ajoelha-se e unge os pés de Jesus e os beija para espanto e incômodo de todos. O dono da casa “disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora.” (Lc 7.39). Jesus lhe conta uma parábola sobre dois devedores e só então Simão se dá conta que seu pensamento foi lido pelo Mestre.

A ciência é algo bom e só raramente confronta a religião, mas não há dúvida que a cada dia, e cada vez mais rápido, coloca situações que devem ser repensadas e estudadas para ver que parte do sagrado ela fere. Digo que esta experiência não considera a riqueza, a profundidade, e o universo da subjetividade do ser humano. Como relata um dos pesquisadores, a capacidade de ler o pensamento é melhor quando se pensa coisas concretas, por exemplo, uma fruta.

Não é crível que o ser humano pode, um dia, ser totalmente devassado, mas a simplificação que técnicas como essa podem gerar, no sentido de tornar alguém passível de ser lido, joga-o na condição rudimentar de um autômato. Desfigura a singularidade que é o que nos torna quem somos. Esta constituída de experiências boas e ruins que se tornaram aprendizados, mas que a um toque se tornarão relatórios impessoais de uma vida.

Em mãos erradas um aparelho desses causaria grandes estragos a muitas vidas e a nudez certamente ganharia outra dimensão. Haverá coisa mais terrível do que a nudez interior exposta de forma, é de se esperar, nada respeitosa e sempre voltada para fins que sequer hoje podemos imaginar?

Imagino que nos sentiríamos todos como Adão diante da terrível realidade de uma nudez que foi muito além da simples falta de roupa. Era um saber amedrontador de seu pecado, mas pior que isso, de que Deus sabia claramente e não havia onde se esconder. Bem que ele tentou fazê-lo atrás de uma moita, como uma criança que ainda não é capaz de saber que apenas colocar as mãos nos olhos não faz com que a realidade desapareça.

Uma discussão que surgirá é sobre o direito à privacidade, o que em nome da sanha desmedida pela segurança leva hoje os governos a instalarem câmeras-vigia, buscas na internete, sistemas de controle de comunicação. Com um aparelho desses disponível o que não farão? Terá como efeito tornar-nos mais transparentes? As pessoas serão mais verdadeiras?

O salmista, ao contrário de Adão, não tem medo de que Deus o conheça em profundidade. Primeiro, porque apesar disso, ele sabe que não será rejeitado. Segundo, porque tendo acesso aos seus pensamentos, Deus usa isso como combustível na relação que tem com este homem, o que faz com este homem se conheça ainda mais e também conheça a Deus. Por isso, sem medo de ser conhecido, necessidade premente que cada um de nós tem, quando não precisamos usar máscaras nem salamaleques para aparentarmos o que não somos ou para nos adequar a um contexto que pede determinado comportamento, Davi clama sem medo de ser feliz: “Ó Deus, examina-me e conhece o meu coração! Prova-me e conhece os meus pensamentos.” (Sl 139.23 – NTLH)

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