CASO DOS EMASCULADOS
Familiares dos meninos emasculados – crime que chocou São Luís de 1991 a 2003, tendo como autor o mecânico Francisco das Chagas –, participaram ontem, de audiência com secretários estaduais, Conselho Estadual da Criança e Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos. A reunião foi mediada pelo presidente do Conselho de Direitos Humanos, Luís Antônio Pedrosa, que apontou falhas no acordo feito com o governo, e propôs soluções urgentes para as famílias das crianças assassinadas.

Segundo relatório, as famílias dos emasculados estariam insatisfeitas com a qualidade dos imóveis doados; com a demora no recebimento da documentação das casas onde foram abrigados, demora na construção de uma delegacia no município de Raposa, e falta de escolas de ensino fundamental, próximo ao Residencial Estrela Dalva, na Cidade Olímpica, onde moram.
De acordo com a Comissão que acompanha a execução do acordo de solução amistosa, várias casas apresentaram problemas no piso, foram invadidas por água da chuva, possuem fechaduras iguais, isto é, todas podem ser abertas com uma mesma chave. E, isso, acabou sendo a principal reclamação das famílias no relatório apresentado na audiência. “O engenheiro Magno Cruz foi cauteloso em seu lado de avaliação das casas, e disse que a maioria não apresenta condições dignas de moradia”, afirmou o presidente do Conselho de Direitos Humanos, Luís Antônio Pedrosa.
O secretário Adjunto de Cidades, Heraldo Marinelle, que esteve presente na audiência, disse que sabe dos problemas estruturais em algumas casas, mas alegou que muitas famílias não têm deixado as equipes entrarem nas casas para fazer as reformas. As famílias alegam que as tentativas de reformas prejudicaram ainda mais a estrutura das casas. Ainda assim, Luís Antônio Pedrosa disse que as famílias precisam deixar as equipes entrarem nas casas, até para terem o argumento de que não atrapalham o trabalho do governo.
Decisões – Entre as várias decisões tomadas ontem, ficou estabelecido que a Secretaria de Cidades tem 15 dias para apresentar uma decisão do Ministério das Cidades, sobre a entrega da documentação das casas às famílias.Também ficou estabelecido que dentro de 60 dias, a Secretaria tem que concluir todas as reformas das casas, ou seja, dia 18 de agosto de 2008.
Em relação à educação, ainda em 2008 deve ser iniciada a construção de uma escola com 10 salas e uma quadra poliesportiva, na Cidade Operária.
(Da Redação)
Crimes começaram em 1991
Em setembro de 1991, foi encontrada a primeira vítima maranhense, Ranier Silva Cruz, 10 anos, morador da Vila Nazaré, no Maiobão. Ele desapareceu em 11 de setembro de 1991 e foi encontrado seis dias depois nas matas do Sítio Paranã, também no Maiobão, com os órgãos genitais extirpados, perfurações nas costas, vários hematomas, olhos e lábios lesionados por instrumento pontiagudo e cortante.
De setembro de 1991 a dezembro de 2003, 22 meninos com idades entre 9 e 15 anos foram assassinados e submetidos a atos de violência sexual em áreas periféricas dos municípios que compõem a Ilha de São Luís (um dos casos ocorreu na cidade de Codó, a 291 quilômetros da capital). Em 11 casos, os meninos tiveram comprovadamente os órgãos genitais extirpados. Muitas vezes os corpos foram encontrados em matagais, nas comunidades da periferia de São Luís.

Jônatas Silva, 15 anos, foi morto em 6 de dezembro de 2003. A mãe dele, Rita de Cássia, só viu o filho 16 dias depois, quando só existiam seus ossos. Ela contou que o filho foi atraído pelo assassino, sob a alegação de que iriam colher juçara. “Me despedi dele, no café da manhã. Ele ficou olhando para mim, por um bom tempo. Parecia que queria me contar algo. Daquele momento em diante, nunca mais olhei meu filho. E dói saber o que pôde ter acontecido com ele, pois os pais de outras crianças foram obrigados a comer churrasco dos próprios filhos, forçados pelo assassino. Não consigo nem imaginar o que Jônatas deve ter sofrido”, disse ela.
Rita de Cássia da Silva compareceu à audiência de ontem e disse que não acredita em nenhuma das promessas de melhoria das moradias, e que, o que ela queria mesmo, era sair do Residencial Estrela Dalva e ter a vida digna que tinha antes.