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Himenoplastia da pureza
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Himenoplastia da pureza

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Data de Publicação: 16 de junho de 2008
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Eudes Oliveira de Alencar

eudesalencar@hotmail.com

A história gerou um debate acalorado em todo o país. O estopim foi uma querela judicial entre um casal. Ele deixou a noiva na noite de núpcias alegando que fora enganado, a moça não era mais casta. Conseguiu a anulação do casamento. Os dois são devotos muçulmanos. O acontecido deu-se na França, berço do liberalismo e das lutas recentes – faz só 40 anos – pela liberdade sexual, liberação da mulher, igualdade de direitos, e outros movimentos que deram esta face à sociedade ocidental.

No mesmo país está na moda, entre garotas da religião islâmica, a himenoplastia, a restauração do hímen como forma restaurar a virgindade perdida. Nas palavras de uma recém operada: “Na minha cultura, não ser virgem é ser impura”. Mas tem a ver também com nunca poder casar, com a honra da família, vergonha, humilhação entre outras coisas. Um pai, em alguns países muçulmanos, pode matar a filha por causa de um mau passo. Por isso, uma outra se expressou: “Neste momento, a virgindade é para mim mais importante do que a vida”.

Num texto recente, o frade dominicano Frei Beto faz o seguinte comentário. “Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto? Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’”

Tentemos amarrar as três informações. Não entraremos no mérito da conservação da virgindade, tampouco nos valores da cultura muçulmana, menos ainda no debate sobre esta cultura estar minando a Europa com imposição de seus costumes, mas no que isso tudo evoca. A guerra sem dúvida, na aparência, se dá no choque de culturas: o liberalismo comportamental do ocidente e o que se poderia chamar de conservadorismo opressivo à mulher dos islâmicos.

Frei Beto toca no tema de forma bem humorada, mas o que se quer destacar é a inversão de sentido das coisas. Cuidar do corpo, preservá-lo, não prostituí-lo, é certamente o que defende o cristianismo. Este vai até mais longe do que qualquer religião quando afirma que o corpo é “santuário de Deus” (1 Co 3.17), portanto, receptáculo, espaço da manifestação do Sagrado. Porém, o corpo nem qualquer parte dele, deve ser absolutizada, seja no sentido daquilo que o texto do Frei Beto alega, o culto ao corpo em detrimento do espírito, seja no sentido de identificá-lo de maneira literal com valores morais, éticos e religiosos sob pena, nos dois casos, de banalizarmos, reduzirmos exatamente aquilo que se considera sublime, a ritos, comportamentos, purificações que, materializadas, desbotam o sentido do divino.

Desde sempre esta foi a grande armadilha do ser humano, daí nossa tendência à idolatria. O significado se perde e apegamo-nos à letra, ao real e dele nos alimentamos, tal qual um porco devora sua lavagem. O povo no Antigo Testamento representa esse embrutecimento e vejo cristãos hoje criticá-los porque, de forma recorrente, sempre estavam às voltas com ídolos, ou porque fabricavam ou se apropriavam dos vizinhos. Demorou a cura. Mas quando veio, isso o período de Jesus revela à perfeição, os hábitos e posturas, a letra sagrada, o templo, tornaram-se ídolos. Deus mesmo tornou-se um ídolo, um ser cheio de vontades e regras a quem se devia agradar com sacrifícios para a obtenção de bênçãos. As práticas que apontavam para a liberdade da amizade com Deus, desconectadas desta, tornaram-se motivo de escravidão, no que tiveram nos fariseus o ponto alto tanto da vivência como da imposição a outros. Quantos cristãos não fazem o mesmo?

Neste espaço, em que um bem espiritual é coisificado, seu valor iguala-se ao comum, daí porque pode ser negociado e a aparência toma um lugar excepcional e valerá muito mais que qualquer sentido. Não por outra coisa Jesus é rejeitado e causou escândalo e horror aos religiosos. Não por outra coisa o Templo tornou-se lugar para vendilhões e mercadejamento do que não tem preço. Ora, tudo isso não é nada mais, nada menos que a discussão que Paulo empreende de maneira magistral em Romanos (2.27, 29; 7.6 e 2 Co 3.6). Neste último versículo ele afirma: “É ele (Jesus) quem nos torna capazes de servir à nova aliança, que tem como base não a lei escrita, mas o Espírito de Deus. A lei escrita mata, mas o Espírito de Deus dá a vida.”

Em Romanos (cap. 2), Paulo fala da circuncisão que ganhou por si só a força da conversão, da pureza e obediência a Deus, quando as pessoas em sua vivência estavam cheias de mal. Uma marca só tem validade quando existencializada. Por sua vez, a existência da fé é mais importante do que a marca e esta não existe num mundo abstrato, mas no cuidado do outro, nos atos de bondade, no perdão, na misericórdia exercida. Paul Tillich, teólogo alemão, afirma que tudo que é absolutizado é demoníaco.

O debate na França coloca em lados opostos secularistas e religiosos, suspeito que seja inócuo. Os primeiros acham a virgindade uma bobagem e os segundos a supervalorizam. Não vulgarizo ou menosprezo a virgindade. No meio cristão até campanhas se faz entre os jovens pela sua conservação em certas igrejas. A coisa por si mesma. Sexualiza-se a fé. Demoniza-se o sexo. A questão, entretanto, não é manter o bom hábito – todo ele deve praticado e conservado –, mas temer quando aquilo que define a fé, a santidade e a relação com Deus, seja apenas este guardar-se de sexo pré-marital ou coisas semelhantes e elas ganham tal status na conduta de fé da pessoa que se torna a “prova” de sua santidade. A isto temo.

Nos muçulmanos este problema é muito mais grave, pois a virgindade que guardam com tanta tenacidade, oferecem-na como prêmio, pelo menos a todo homem, que no céu gozará – aqui em seu sentido mais sexualmente pleno – com setenta virgens. Elas são filhas de quem? A sociedade ocidental, cristianizada, mas não cristocêntrica, exceção aos burgos fundamentalistas que fazem disso um cavalo de batalha, saiu deste debate, abandonou-o até por medo de ser ridicularizada, por defender aquilo que ninguém vê mais como fundamental. Sabe qual é o problema? Nós defendíamos e ainda defendemos virgindade como um bem em si, tal qual um muçulmano. A questão é bem outra. A santidade do corpo.

Lembro, para finalizar, que aquela santidade do corpo tem a ver com compreensão da fé, de si, do outro. Jesus usa uma metáfora para explicar isso: “A lâmpada do corpo é o olho. Se o olho é sadio, o corpo inteiro fica iluminado.” (Mt 6.22 – EP) É como você e eu entendemos que é importante, por isso Paulo afirma em carta a Tito, que todas as coisas são puras para os puros, mas, para os descrentes, que são impuros, tudo é sujo, porque eles tem a mente e a consciência corrompida. (Tt 1.15)

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