Edson Vidigal
Sabido entre nós que ninguém se assume, pelo menos perante os outros, como tendo sido alguma vez na vida um otário, é sabido também que por essa premissa o malandro quando entra em ação já começa em vantagem.
É que ele sabe perfeitamente que se nada der certo não perdeu nada, e se der tudo certo será tudo certo mesmo, sem risco algum, a vítima do golpe nunca irá contar nada a ninguém.
E não irá contar porque, como bem lembra o poeta Fernando Pessoa, no seu famoso Poema Em Linha Reta, ninguém conta a ninguém as suas fraquezas, os seus tropeços, todos só preferem contar os seus sucessos, as suas vantagens.
(“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. Toda gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe, todos eles príncipes na vida.”)
E assim tem sido, quase sempre. A pessoa que cai na lábia do malandro e consente, de alguma maneira, que ele realize o seu proveito, no mínimo se apercebe depois cúmplice da ação que pode configurar uma contravenção ou mesmo um crime.
Por isso mesmo, depois de lograda, a pessoa prefere o silêncio, o que só estimula o malandro a prosseguir sobranceiro, senhor do tempo e da razão, e mais, pregador das moralidades públicas, do fura bolo ao cata piolho, todos os dedos em riste apontando nos outros os mal feitos em que ele próprio, o malandro, se especializou.
As vítimas de seus golpes contabilizam os prejuízos e, escaldadas, só cuidam de mudar de calçadas quando os avistam de longe em sua direção. Sofrem em silêncio e quando falam é a favor, jamais dirão em público ou em estado de sã consciência que em algum momento foram otários.
Otário, é claro, ninguém quer ser. Mesmo já tendo sido, e não poucas vezes. É um achaque ali, uma chantagem acolá, e a pessoa limpa nas ações das mãos e nas intenções da alma se deixando levar.
Por aqui mesmo, neste nosso planeta animal, sabemos de histórias incríveis, daquelas de se ficar horas imaginando, incredulamente, como pessoas tão experientes na vida, tão preparadas de estudos, tão merecedoras de suas aspirações as mais legítimas, escorregaram nas cascas de banana de malandros locais.
E tem malandro sorridente, a boca aberta mais parece um teclado de piano. É o alegrete, nada a ver com o molho para o churrasco. É o malandro alegre, motivos para estar sempre rindo não lhe faltam.
Quem não está achando graça de nada, mesmo porque já se escasseiam as razões para rir, é o nosso povo, agora novamente chamado a opinar em sufrágio universal e secreto, na condição de eleitor.
Esta semana chegou-me às mãos, em texto integral, uma pesquisa qualitativa através da qual, segundo os entendidos, o povo em geral, diante das poucas coisas que está conseguindo enxergar, se mostra bastante entediado.
Tomando-se como verdade a tradução literal da pesquisa, o campo agora está aberto e solto para muitas malandragens, e não é só para grandes malandros, os iniciantes certamente são os que podem mais se dar bem.
Para a sorte do nosso povo, ainda bem. Quanto a esses malandros, não os temos por aqui, quero dizer nem malandro velho nem malandro novo, não os temos mesmo, de jeito nenhum, nas vitrines da Rua Grande ou outro comércio local.
Mas voltando ao começo, ninguém gosta mesmo é de passar por otário. Não haveria otário se não houvesse malandro, nem a malandragem que não é só do malandro, é também do otário. Por mais enganado que tenha sido, ele, o otário, sempre agüentara firme, no calado, para não passar recibo.
Ah, você está rindo de quê? Ninguém por aqui é hiena, rapaz.
Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.