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Editorial
Crises e crises

Crises e crises

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Data de Publicação: 11 de junho de 2008
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Aparentemente, eles têm mais medo da cana de açúcar que da cana da polícia que dispara, inconseqüente, balas de gás lacrimogêneo para todos os lados. Trabalhadores rurais protestam incessantemente pelo Brasil afora, num movimento que já chegou aos Estados de Pernambuco, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Alagoas.

Talvez que nunca ninguém consiga explicar satisfatoriamente porque um país de proporções territoriais gigantescas como o Brasil nunca teve um Governo com os testículos necessários para implantar a Reforma Agrária. Eis aí um sonho que percorre todos os governos, desde Getúlio Vargas até aqui e, vez por outra, cai em desuso.Principalmente nesta hora em que os cálculos do Incra apontam que estrangeiros já compraram 5,5 milhões de hectares de terra em todo o país e os anúncios de vendas se espalham nas páginas da Internet de todo o mundo.

Na terça-feira, 10, em Passo Fundo (RS) pelo menos cinco trabalhadores ficaram feridos em confronto com a polícia. Ligados à Via Campesina e Assembléia Popular (que reúne trabalhadores do campo e da cidade) eles ocuparam uma empresa de alimentos da cidade. O protesto faz parte de uma jornada nacional contra a atuação de grandes empresas no país e expansão da monocultura da cana de açúcar. De acordo com os manifestantes, quatro transnacionais exportam 60% do que é produzido no país.

Essas manifestações devem crescer na medida em que a demanda energética exige a instalação de um número cada vez maior de hidrelétricas e produção álcool. Em Aratiba, também no Rio Grande do Sul, trabalhadores rurais bloquearam a estrada de acesso à Hidrelétrica de Ita. No Maranhão, a construção da Hidrelétrica de Estreito já foi suspensa pela Justiça pelo menos duas vezes.

No Espírito Santo, cerca de 500 trabalhadores realizaram um protesto contra a expansão da monocultura da cana de açúcar. A manifestação acontece em Montanha, onde deverá ser instalada uma usina pertencente a uma empresa estrangeira.

Tais manifestações estabelecem um confronto direto com o presidente Lula, paladino mundial do Etanol, que já foi vítima de censura internacional por conta da escassez e disparada dos preços dos alimentos. Muita gente acha que as monoculturas da cana, soja e eucalipto vão agravar essa situação no país.

É provável que ainda neste momento mil pessoas estejam fazendo manifestação em Alagoas, na Hidrelétrica, contra as obras de transposição do Rio São Francisco, a construção de novas barragens e a baixa vazão do rio. Em Santa Catarina, 700 trabalhadores estão em frente à empresa de papel e celulose e devem distribuir 500 mudas de árvores nativas e 15 toneladas de cestas básicas para a população de Otacílio Costa. E planejam plantar mudas em protesto contra a plantação de eucalipto e pinus que, de acordo com eles, ameaça o solo.

Em São Paulo, cerca de 600 trabalhadores ocuparam o prédio da Votorantim. No Ceará cerca de mil trabalhadores ocuparam o Porto de Pecém em protesto contra o modelo de desenvolvimento do Estado, provável implantação de uma siderúrgica e crise dos alimentos.

A crise energética, a inflação, a disparada dos alimentos, as monoculturas invadindo o país em prejuízo à agricultura, a fixação pelo etanol e a insegurança na economia mundial são situações de emergência. Não se espere que toda essa confusão não afete a economia brasileira. Porque ela já começa a mexer com uma coisa aparentemente mais difícil: a popularidade do presidente Lula junto ás classes menos favorecidas.

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