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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 10 de junho de 2008
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A ELEIÇÃO DE PADRE GAITO

SALVADOR – Em 1954, a Bahia fez uma aliança política do crioulo doido: PTB, UDN e comunistas, que naquela época, no país, viviam brigando como gato e cachorro: para governador Antonio Balbino (PSD na legenda do PTB, apoiado pela UDN e pelos comunistas), para senador Juracy Magalhães (UDN) e Lima Teixeira (PTB).

Getulio havia se matado em 24 de agosto, a eleição seria em 3 de outubro e João Goulart, presidente nacional do PTB, já cogitado para vice-presidente de Juscelino, governador de Minas pelo PSD, veio à Bahia apoiar a chapa salada de frutas. Os candidatos foram ao interior fazer um comício juntos.

No comando do palanque, Padre Gaito, um vigário brigão, inimigo furioso do PSD, cujo candidato a governador era Pedro Calmon, baiano ilustre, reitor da Universidade Federal do Rio e membro da Academia Brasileira de Letras.

BALBINO

Juracy pegou o microfone antes de o Padre Gaito abrir o comício:

- Minha boa gente baiana! Meus amigos! Aqui, nesta noite, nesta praça, sobre todos nós, paira a alma de um homem que foi amigo de cada um dos candidatos e sobretudo do povo brasileiro, a quem deu sua vida e sua morte. Vamos, todos, rezar uma fervorosa oração em sua memória, de joelhos.

A praça se pôs toda de joelhos, como numa romaria do Padre Cícero. No palanque, também de joelhos, Padre Gaito, Balbino, Juracy, Lima Teixeira e João Goulart, com sua perna dura, de banda, apoiado nas costas de Balbino, como um Cristo torto. Rezaram, contritos, o Pai Nosso e a Ave Maria inteiros.

E o Padre Gaito, gordo e grande, começou o comício. Como sempre, agressivo, violento, apoplético contra os adversários. Foi falando, foi imprecando, foi ficando cada vez mais gordo, mais vermelho, já quase roxo.

JURACY

E Padre Gaito desabou no palanque. Caiu duro. Todos gritando se havia um médico. Havia. Mas, quando chegou, era tarde. Nada tinha o que fazer. Padre Gaito estava morto, ao pé do microfone. Um colapso fulminante.

Era o fim do comicio. Mas Juracy era profissional. Pegou o microfone:

- Meus amigos, meus irmãos! Padre Gaito morreu! Padre Gaito está morto! E vocês são testemunhas de que suas últimas palavras, na hora de entrar na eternidade, foram um apelo para esta cidade, sua cidade, a cidade da qual ele era o vigário, votasse inteira na nossa chapa. Que Deus o leve e nos ilumine!

Balbino, Juracy e Lima Teixeira ganharam. Ali e na Bahia toda. E, no ano seguinte, Jango também ganhava com Juscelino. Padre Gaito morreu por todos.

SALVADOR

As eleições para a Prefeitura de Salvador estão lembrando a de 54 aqui na Bahia: o samba do crioulo doido. O governador Jacques Wagner se elegeu com apoio de todo mundo, exceto o DEM. Até agora não apoiou de fato ninguém, a não ser evidentemente dizer que apóia o candidato de seu partido, o PT, o sério e exemplar deputado Walter Pinheiro, que não tem voto para se eleger sozinho e as esquerdas, como sempre, com um candidateco em cada partideco.

O prefeito João Henrique, também eleito, no PDT, por uma vasta coligação multipartidária, começou governando com todos, foi brigando, foram saindo e agora, para a reeleição, conta apenas com as poderosas muletas políticas e financeiras do ministro Gedel Vieira Lima, da Integração, do PMDB e sobretudo da transposição do São Francisco, que promete transpor águas, mas ninguém sabe se também transpõe votos.

Para vice, o prefeito, isolado, foi buscar um brilhante advogado tributarista e professor, negro, ex-prefeito nomeado de Salvador, Edvaldo Brito.

TRÊS EM SALVADOR

O ex-prefeito Antonio Imbassahy, do PSDB, com o aval de suas duas últimas excelentes administrações na cidade, também ficou partidariamente sozinho e tem como vice um renomado professor, também negro, do PPS. Mesmo assim, com só um partido e meio, é considerado certo no segundo turno.

Outra surpresa foi o jovem deputado e líder atuante e respeitado do DEM na Câmara Federal, ACM Neto, de 27 anos. Começou sozinho com seu ex-PFL e a memória do avô, mas articulou a mais ampla aliança até agora: tirou da disputa o mais indicado pelas pesquisas, o poderoso radialista Varela, da Record, que o apoiou e apóia, e chamou para vice um bispo do Edir Macedo e da Igreja Universal, do PR, e primeiro suplente de deputado federal.

Atrás deles, vários partidozinhos e o Neto, seu nome político, engordou sua turma e entrou para valer na disputa, inclusive na boca do povo. Muito dificilmente o segundo turno não será travado entre dois desses três candidatos: o Henrique isolado, o Imbassahy elogiado e o Neto engrossado.

MENDES DE BARROS

Alagoas está passando dos limites. E, evidentemente, não por culpa de seu povo, mas de seus dirigentes políticos. O governo do Estado vazio como um fim de feira. A Assembléia Legislativa transformada numa delegacia de maus costumes. E a violência política e pessoal se espalhando pelo Estado inteiro.

O ultimo absurdo, nesse final de semana, foi a invasão, depredação e roubo dos computadores do escritório de advocacia do consagrado advogado, ex-candidato do MDB a senador e durante muitos anos procurador geral da Assembléia Legislativa, Luis Gonzaga Mendes de Barros. Foi exatamente ele quem denunciou os escândalos e crimes da Assembléia Legislativa, que já levaram uma dezena de deputados à exclusão da mesa diretoria, e muitos outros à Justiça, à policia e à cadeia.

Pensaram amedrontar o Mendes de Barros. Parece que não o conhecem.

(www.sebastiaonery.com.br)

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