José Reinaldo
A história nos mostra por meio de inúmeros exemplos homens que tiveram muito poder em suas mãos e durante muito tempo pensavam em se eternizar mediante a construção de grandes estruturas destinadas a se tornarem símbolos do seu tempo e do seu poder. Os faraós, por exemplo, construíram enormes pirâmides a custa do trabalho escravo a que eram submetidos os povos vencidos em batalhas. E assim foi com quase todos que no fundo, na sua megalomania, achavam-se dotados de divindade, intocáveis e superiores. Sem dúvida é um processo doentio.
Sarney sempre tentou se imortalizar. Organizou-se para conseguir isso. Lutou por todos os meios para se tornar dono absoluto da informação no Maranhão, trabalho que levou décadas e acabou consolidado quando se tornou presidente da República. Queria, usando a mídia, projetar uma imagem de grande benfeitor do estado, digno de veneração. E sem contestação. Na Presidência da República e na Presidência do Congresso, procurou ajudar jornalistas e as empresas de comunicação, para que sua imagem no país fosse sempre favorável. Aproveitou a mesma circunstância para ser imortal da Academia Brasileira de Letras. O que faltava? Um símbolo de poder. Nada melhor que o Convento das Mercês, pela grandiosidade da sua história, púlpito onde o padre Antonio Vieira pregara e dirigira ao povo as suas palavras veneradas. Além disso, um prédio grandioso e belo. Cabia bem no figurino idealizado por Sarney. Aproveitando o poder da Presidência, mandou reformá-lo a seu gosto, e assinou um contrato com o governo da época passando o prédio para a fundação José Sarney, numa redação marota que serve a diversas interpretações.
Sarney finalmente tinha conseguido o seu palácio, que passou a ser visita obrigatória para todas as personalidades que viessem ao Maranhão. Um dos locais que mostrava aos mais íntimos era o destinado ao seu túmulo. Quando saiu da Presidência resolveu transformá-lo em Museu da Memória Republicana, um engodo, pois ali só constam os arquivos selecionados e recebidos por ele à época de sua passagem pela Presidência. Tudo dentro do roteiro do endeusamento pessoal. Bustos seus, há vários...
Agora ele tinha um palácio para chamar de seu. É onde acontecem as festas de seu grupo e para onde são levados seus convidados mais importantes. Quem não se lembra de Renan Calheiros, recebido com toda a pompa em uma festa de São João? Sarney não tem o Palácio dos Leões, mas tem o Convento. E pronto!
Seria tudo muito bonito, se não fosse um esbulho e uma enorme ilegalidade. Sarney privatizou na marra um bem público de inestimável valor histórico, tombado pelo Patrimônio Histórico. O Ministério Público Federal entrou com uma ação pedindo a anulação de todos os atos que levaram a essa privatização descabida e intolerável, ação essa que ainda não teve desfecho. O meu governo não se omitiu no assunto. Apoiamos a aprovação, pela Assembléia Legislativa, de um projeto de lei, de autoria do deputado Aderson Lago, anulando todos os atos que davam à Fundação José Sarney direitos sobre o Convento. Sancionei a proposta da Assembléia, que se transformou imediatamente em lei. Esta lei dava 30 dias de prazo para a devolução do Convento ao seu verdadeiro dono, o Estado do Maranhão.
Sarney ficou possesso. Vi que ele ia armar uma história, passando por vítima. Para evitar isso, assinei um decreto determinando que todo o acervo do ex-presidente continuasse a ocupar o mesmo espaço que ocupava naquele momento. Intocado. E mandei divulgar. O seu jornal publicou que o Convento seria invadido e tudo seria destruído. Mesmo certo de que nada disso aconteceria, determinei ao Secretário de Segurança que reforçasse o policiamento, pois eles mesmos poderiam armar alguma coisa e caracterizar vandalismo para o resto do país.
Uma tarde recebo uma ligação do Ministro da Justiça: Sarney tinha estado lá. Foi se queixar e se passou por vítima, evidentemente. O ministro me disse, com muita ironia: “Governador, por que está perseguindo Sarney, querendo despejá-lo do Convento, deixando ao desabrigo seus arquivos e documentos? Ele já está velhinho, não faz isso”. Eu lhe contei a história toda, sem nada omitir, sem manipular dados, e lhe enviei a cópia do decreto, dando todas as garantias de que o acervo ficaria no mesmo local, mas a administração do Convento seria do Estado. O Convento, na verdade, servia mais para festas de bumba-boi, casamentos de amigos, convenções de partidos aliados a ele, estacionamento pago de restaurantes da Praia Grande, eventos privados como o “Vale Festejar”, lançamentos de livros do Instituto Géia (de Jorge Murad), isto é, apenas coisas grandiosas e dignas do convento.
O ministro se deu por satisfeito e o Sarney foi buscar socorro com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Fizeram uma ação omitindo a verdadeira história e se fixando na versão de que estávamos na iminência de destruir o valioso acervo do ex-presidente. Um dos ministros do Supremo, sem nos ouvir, deu uma liminar no dia 23 de dezembro de 2005, mandando suspender a eficácia da lei aprovada pela Assembléia. Essa liminar nunca teve seu mérito julgado e assim Sarney até hoje usa o Convento como símbolo de sua glória e poder. Será que um fato como esse poderia existir nos estados do Sul e do Sudeste?
O senador ficou uma fúria pelo fato de o Estado querer a devolução de um bem tombado que não podia ser entregue ao uso privado. Em furiosa entrevista na revista Carta Capital, ele se revelou como é.
Cito apenas dois trechos da entrevista: questionado sobre o motivo pelo qual resolveu preparar o seu futuro túmulo em um prédio público e tombado pelo Patrimônio Histórico, ele respondeu dizendo que aquilo seria no futuro uma atração turística, pois muitos viriam ao Maranhão para visitar o seu túmulo, que seria local de romaria. O que me dizem disto? Em seguida, questionado por que é proprietário de um império de comunicações, ele respondeu, candidamente: “porque sou político”.
Deve ser por isso que seus clones que portam carteiras de jornalistas publicaram que eu fui internado na UTI da UDI, sangrando por todos os poros. E com a desenvoltura de sempre especularam os motivos dos sangramentos. É um Deus nos acuda! Estão cada vez mais doidos! Por que estão desesperados? De onde tiraram isso? Cruz-credo! Deus tenha piedade de suas almas e lhes perdoe pelo que me desejam!
O ex-governador José Reinaldo Tavares escreve para o Jornal Pequeno às terças-feiras.