Arleth Borges
Nas últimas colunas tenho abordado temas próprios do chamado “tempo da política”. O que trago hoje à reflexão dos (e)leitores não recebeu esse título, mas tem tudo a ver com o assunto, afinal refere-se à agenda de temas de interesses geral, no caso, a política pública de transporte coletivo, que não pode ser ignorado na avaliação dos atuais e futuros gestores da cidade. Pois bem, se entre nós os direitos sociais fossem levados a sério, o ônibus UFMA Integração seria um caso de denúncia por parte do Ministério Público; de interdição por órgãos de defesa do consumidor e de polícia contra aqueles que colocam seus lucros acima da dignidade das pessoas.
Dia desses, por acaso, no Terminal da Praia Grande, presenciei uma cena que me deixou perplexa: na plataforma Campus Integração, sob a luz das 14 horas, descortinava-se aos olhos de todos uma inacreditável cena em que uma fila de estudantes dava voltas e voltas pelo terminal e culminava em uma multidão dentro do ônibus, disputando um lugar indisponível para colocar o pé ou apoiar a mão, num ambiente asfixiante. Sequer os que tinham a sorte de conseguir um assento, escapavam ao desconforto, pois logo se convertiam em carregadores de grande quantidade de pastas e livros dos colegas que são transportados em pé. Um tratamento desumano, humilhante e totalmente injustificável em se tratando de um serviço público que é pago e caro. Uma cena triste de ver. Lamentei pela perda de pequenos e preciosos gestos como a vontade de ser pontual, tragada pelo congestionamento de gente; a perda do frescor que trazem de casa, dissipado no calor e superlotação dos ônibus; a perda do bom humor, devorado pelas longas esperas e pelo extremo desconforto do ônibus lotado, dos assaltos, abusos ... Isto é um “prêmio” aos jovens que ingressam na UFMA e no COLUN?
O assunto e o assombro ficaram engasgados e na primeira turma onde fui dar aula nesse dia, o 1º período do curso de Ciências Sociais, indaguei aos estudantes sobre o como vêem o ônibus do campus, e os depoimentos foram de tristeza e indignação. Disseram:
“A falta de respeito para com os estudantes demonstra os outros descasos para com a educação”.
“O ônibus do campus é uma forma de humilhação a que, infelizmente, estamos submetidos todos os dias”.
Ônibus? Trata-se de uma lata de sardinhas sobre rodas”.
“Um moinho de gastar gente”.
“É desconfortável, pois nos horários que mais necessitamos está sempre lotado”
“Um meio de locomoção cheio de futuros profissionais idealistas, porém lotado de suprimidas indignações”.
Uma dupla, de veio artístico mais apurado, cantarolou: “na UFMA, o busão parece panela de pressão, todo mundo apertadão, suadão e quase sem respiração”. Outros, resguardando as proporções dos eventos históricos, brincaram com a fonética das palavras referindo-se à aventura de chegar à UFMA como “campus de concentração”.
Uma aluna protestou e ponderou: “Nós estudantes da UFMA, para chegarmos à universidade todos os dias temos, primeiro, que enfrentar uma enorme fila; segundo, para chegarmos no horário, somos obrigados a irmos espremidos, apertados. Essa situação a nós estudantes já se tornou habitual, normal; porém, não deveria ser assim, não reclamamos, não fazemos nada. No período chuvoso, a situação piora: ônibus lotado, janelas fechadas, o ar falta, mas, como somos ‘obrigados’, como ‘é o jeito’, vamos assim mesmo. Mas de quem é a culpa? Nossa também!”.
Sei que toda denúncia deve ser acompanhada da versão dos vários lados envolvidos. Mas, os fatos ali falavam por si: aquela multidão num dia comum, sem programação especial na UFMA, e confirmada por muitos estudantes como sendo a regra; isso não tem estatística de empresa, fiscais ou órgão público que negue ou minimize.
Imagino que o problema não seja exclusivo da linha Campus integração. Mas nem por isso pode ser banalizado. Ainda que os responsáveis por esta situação não se incomodem com o desrespeito imposto aos estudantes, o assunto exige atenção pois o transporte coletivo é hoje um tema crucial para todas as grandes cidades. São Luís chegou à faixa de um milhão de habitantes e o máximo “avanço” incorporado ao sistema são os terminais de integração – muito providenciais para os empresários e nem sempre para a população, que é empurrada para o salve-se quem puder do carro próprio. Mas, ainda que houvesse dinheiro ou possibilidade de endividamento para todos, nossa São Luís de 395 anos não suporta um carro para cada pessoa ou família. É imperativo que haja uma política de transporte público acessível e de qualidade, que possibilite o fluxo das pessoas e nos preserve a todos desse trânsito caótico e dos graves prejuízos ambientais a que estamos submetidos.
Mas o que fazem as autoridades? Esperam a “panela de pressão” explodir em novos confrontos com os estudantes, como na memorável greve pela meia-passagem, em 1979? Para quem luta por direitos, atos como este são expressões de cidadania e até de heroísmo, mas, para quem tem responsabilidades como poder público, estas situações apenas estampam incapacidade e descompromisso.
Arleth Santos Borges é Doutora em Ciência Política, professora de Sociologia e Antropologia da Ufma e escreve para o Jornal Pequeno quinzenalmente (sextas-feiras).