PALAVRA DE ESPECIALISTA
Manoel Rubim da Silva
Auditor Fiscal da Receita Federal – Professor do Decca-Ufma
email: manoel_rubim@uol.com.br
Aproveitando algumas citações de Carlinhos Lira, em um show, sobre a epopéia brasileira dos anos cinqüenta, acrescentei mais algumas e cheguei, além, obviamente, do nascimento da Bossa Nova, às seguintes constatações: o nosso Presidente da República era Juscelino Kubitschek de Oliveira; Brasília começava a ser construída; o Brasil ganhava pela primeira vez a Copa do Mundo e Maria Esther Bueno o mundial de tênis; Eder Jofre consagrava-se campeão mundial de boxe; Pelé explodia para o mundo e ainda tínhamos o “demônio das pernas tortas” chamado Mané Garrincha, para não falar de Didi, Belini e muitos outros; Adhemar Ferreira da Silva, em Helsinque, na Finlândia em 1952 e em Melbourne na Austrália, em 1956, arrebatava a medalha de ouro do salto triplo, além de ter inventado, em 1952, a volta olímpica; a indústria automobilística brasileira nascia, via a Willys Overland do Brasil. Querem mais, ou podemos parar por aqui?
Realmente é muito difícil repetirmos todas as glórias dos anos cinqüenta, todavia, no campo econômico, alguns fatos, no momento, nos deixam empolgados. Vejam vocês, que em plena crise do país mais poderoso do mundo, econômica e militarmente, EUA, um dos nossos grandes parceiros no campo comercial, estamos, nós, brasileiros, a vivenciar: um crescimento econômico expressivo, com os preços, pelo menos dos alimentos, um tanto quanto assanhados, face à excessiva demanda; superávit das contas públicas, no primeiro trimestre de 2008, da ordem de R$ 43 bilhões de dólares, que nos levou a pagar os exorbitantes juros, e ainda ficarmos com uma folga de caixa no montante de R$ 4 bilhões; a bolsa de valores, Bovespa, atingiu um nível recorde no final da semana passada, levando o Ibovespa aos 69.366 pontos; o mercado de trabalho apresenta grande oferta de empregos; a arrecadação federal cresce exponencialmente, mesmo sem a CPMF, que faz com que o governo, diante da imposição do realinhamento dos preços de petróleo internos, com os praticados no mercado global, reduza a Cide, visando não repassar o aumento dos preços para os consumidores.
Duas semanas após o aumento da taxa de juros pelo Banco Central, assunto que abordei no artigo da semana anterior, os analistas econômicos, deste país e do mundo, são surpreendidos com o conceito, mais do que positivo, por parte da maior empresa do mundo especializada em avaliação de risco, a Standard & Poor’s, que atribuiu à economia brasileira o grau de “investment grade”, sinalizando que a nossa economia passou a ser confiável para os investimentos estrangeiros. Tão esperada avaliação teria acontecido em função de vários fatores, entre os quais destacamos: transição política sem sobressaltos; contenção da inflação via regime de metas, política de câmbio flutuante, baixa dívida externa, excepcional volume de reservas que saíram dos 17 bilhões ao final do governo passado para 200 bilhões atualmente, e crescimento do PIB. Com tal avaliação positiva, o Brasil terá condições, no médio prazo, de receber bilhões em investimentos produtivos, reduzindo, por conseqüência, a instabilidade dos investimentos especulativos. Por outro lado, as empresas terão muito mais facilidades em captar recursos, com ônus bem menor, no que respeita aos juros que serão cobrados. Tais benefícios, também, se estenderão à administração da divida pública interna e externa, dos vários níveis de governo, o que será benéfico para a reordenação dos recursos, antes destinados ao pagamento dos juros abusivos, em prol de muitas outras demandas sociais que se impõem.
Preparemo-nos, pois, não para ficarmos em êxtase, ou mesmo, como sugeriu o Jornal Britânico, “The Independent”: brincando o carnaval, fora de época, em comemoração à melhoria do conceito da economia brasileira. O berço é sim esplêndido, todavia não dá para ficarmos deitado, eternamente, sobre o mesmo. A sinalização é no sentido de que venhamos a arregaçar as mangas acima dos cotovelos, e “mandar ver”. Ao Estado Brasileiro cabem as tarefas de preparar as condições para que “o ambiente de negócios” seja favorecido. O Plano de Aceleração do Crescimento deve dar saltos, na concretização das obras concernentes a portos, aeroportos, estradas, saneamento básico, geração de energia, novos mananciais do melhor líquido do mundo, a água, segundo o saudoso Professor Waldemar Carvalho. Não se deve esquecer, todavia, da preparação das pessoas, via educação. Afinal, não há crescimento sustentável, sem investimentos e retornos, em educação. Como sempre digo em sala de aula: não há glorias, sem sacrifícios!