Vanessa Vieira
Uma equipe de pesquisadores do Canadá, dos Estados Unidos e da Inglaterra acaba de dar um passo decisivo para que as pesquisas com células-tronco embrionárias se convertam em tratamentos efetivos nas clínicas e nos hospitais. Pela primeira vez, eles conseguiram induzir uma célula-tronco embrionária humana a se transformar em três tipos específicos de tecidos cardíacos, todos importantes para o funcionamento do coração. O estudo é um avanço rumo aos transplantes de tecidos desenvolvidos em laboratório. Há muito tempo à comunidade científica sabe que as células-tronco embrionárias são capazes de se converter em qualquer um dos 216 tipos de célula do corpo humano. Isso faz delas, hoje, a principal esperança para tratar problemas tão distintos como diabetes e doença de Parkinson, ou para devolver os movimentos a pessoas paraplégicas ou tetraplégicas. Apesar disso, as pesquisas com células-tronco embrionárias continuam proibidas em muitos países, entre eles o Brasil. A alternativa que se oferece são os estudos com células-tronco adultas, com potencial infinitamente mais limitado no tratamento de doenças.
Nas pesquisas com células-tronco embrionárias, o desafio consiste em dominar o processo pelo qual elas dão origem a cada tipo de tecido. Na prática, os cientistas ainda não sabem que comandos determinam se uma célula-tronco vai se transformar em osso, fígado ou sangue. Foi exatamente essa barreira que a equipe chefiada pelo geneticista Gordon Keller, do McEwen Centre for Regenerative Medicine, em Toronto, conseguiu driblar no caso de células cardíacas. Ao tratar as células-tronco embrionárias humanas com fatores do crescimento nas quantidades e nos momentos corretos, os cientistas descobriram que poderiam favorecer sua transformação nas chamadas células progenitoras cardiovasculares. Essas células progenitoras, por sua vez, são capazes de dar origem a qualquer uma das células especializadas do coração: os cardiomiócitos, as células da musculatura lisa dos vasos e as células endoteliais.
A segunda fase da pesquisa incluiu transplantar as células cardíacas criadas em laboratório para o coração de ratos com deficiência cardíaca. A função cardíaca dos ratos foi melhorada em 31%, sendo que nenhum dos animais transplantados desenvolveu tumores, o que é comum acontecer em experiências similares com células-tronco adultas reprogramadas para se comportar como embrionárias. Em um estudo recente em que se tentou transplantar esse tipo de célula para 36 camundongos, dezesseis morreram e muitos desenvolveram tumores. O estudo da equipe de Keller é o quarto publicado desde o ano passado que demonstra que as células cardíacas derivadas de células-tronco embrionárias melhoram as funções do coração quando transplantadas para roedores com infarto. Para a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, o sucesso no desenvolvimento e no transplante de células cardíacas obtidas a partir de embriões mostra que a pesquisa com células-tronco adultas não substitui os estudos com células-tronco embrionárias, apenas os complementa. “As células-tronco embrionárias ainda têm muito a nos ensinar”, ela diz. “Disso depende o futuro da medicina.”