Opinião
José Luiz Oliveira de Almeida*
Nesses quase trinta anos de profissão já vivi e testemunhei de tudo um pouco. Já testemunhei mães implorando para que não soltassem o filho preso, já condenei pai que estuprou a própria filha, já lidei com mãe que abandonou os filhos por um amante, já julguei filho que matou o pai, pai que matou filho, irmão que matou irmão, já tive notícia de presos sendo torturados para confessar um crime que não praticou, já vi culpados absolvidos e inocentes, condenados, dentre outras coisas igualmente estupefacientes. Isso é o homem em sua inteireza.
Apesar de tudo que já vivi e testemunhei, ainda me emociono com determinados fatos, sobretudo se envolvem crianças. Conquanto já tenha testemunhado de tudo um pouco, não deixo de me indignar – sempre me indigno - com certas condutas praticadas em detrimento de um indefeso. Muitas, incontáveis foram as vezes que, assistindo a um jornal televisivo, embarguei a voz, chorei de forma contida, escondendo as lágrimas dos presentes, em face de notícias envolvendo o sofrimento, por exemplo, de uma criança.
Por já ter vivido e testemunhado de tudo um pouco, por amar despudorada e desbragadamente os meus filhos, cheguei a imaginar, numa determinada fase da vida, com o coração empedernido por tantos acontecimentos inusitados a maltratar-lhe, que não seria mais capaz de me emocionar profundamente com acontecimentos que não os envolvessem. Puro engano! O ser humano, pelo que ele tem de daninho e malsão, não me deixaria, sem mais nem menos, livre de emoções fortes, daquelas que testam o coração, daquelas que nos fazem lembrar que somos gente - com sangue nas veias e o coração pulsando.
Nesse sentido, nos últimos dias tenho vivido emoções arrebatadoras, desmedidas, incontidas e sem disfarce, em face dos crimes que vitimaram João Helio e Isabella. João Hélio, todos sabem, foi esquartejado, pendurado no cinto de segurança de um carro tomado de assalto; Isabella, mais grave ainda, foi jogada, ao que tudo indica, pelo próprio pai, como se um ponta de cigarro fosse, do sexto andar de um prédio de apartamentos.
E eu, logo eu, que pensava que já tinha vivido e visto de tudo, sou obrigado, não raro, a viver emoções desmensuradas, proporcionadas por meliantes de todos os matizes, os quais não hesitaram em trucidar dois inocentes, nos primeiros anos de sua vida. Uns mataram um anjo – João Hélio – por causa de bens materiais; outros, provavelmente, mataram outro anjo – Isabella –, quiçá, especulo, por vê-la como um estorvo a prejudicar a sua vida conjugal.
Quantos sonhos foram destruídos com essas duas mortes brutais! Mas é bom que não se esqueça: João Hélio e Isabella são apenas a face visível da violência que se pratica todos os dias contra crianças indefesas, sem que sequer se tenha notícia, porque não chegam ao conhecimento da mídia.
Resta indagar, diante de tão bárbaros, tão ignóbeis e abjetos crimes: por que essas coisas acontecem? Por que, outra vez, tinha que ser com duas crianças? O que levou alguém a apagar o brilho dos olhos de Isabella? Por que deixaram esquartejar João Hélio? Por que os deixaram sofrer tanto, sentir tanta dor? Por que, se há um ser superior, que tantos nos conforta, esse tipo de coisa acontece com dois inocentes, dois indefesos? Será que não havia uma força superior capaz de fazer cessar as ações que apagaram o cintilar dos olhos de dois inocentes? Até onde vai a maldade humana?
Os dois crimes, não precisava dizer, são chocantes, monstruosos, medonhos, pavorosos. Mas o crime de Isabella choca muito mais porque, ao que tudo indica, a serem verdadeiras as conclusões da Polícia Judiciária, foi assassinada pelo próprio pai – com a colaboração da madrasta –, que se desfez do seu corpo da sacada do seu apartamento, como se estivesse jogando fora um bagaço de laranja, uma casca de banana ou uma ponta de cigarro.
Como é estranho e contraditório o ser humano! Enquanto uns dão a vida pelos filhos, há outros, como o pai de Isabella – tudo está a indicar –, que roubam a vida dos filhos. Enquanto há pais que sentem as dores dos filhos, há os que os fazem sentir dor. Conquanto haja pais capazes de matar ou morrer pelos filhos, há pais que são capazes de matar o próprio filho. Nada obstante existam pais que sonham em preservar a pureza de suas filhas, há pais capazes de se satisfazer sexualmente em detrimento da candidez delas. Pese existam pais capazes de abandonar o mundo exterior para viver intensamente a sua relação com os filhos, há pais que os abandonam para viver uma aventura.
Eu sempre fui um pai extremado. Os defeitos – poucos – que meus filhos têm eu debito na conta do amor excessivo que dedico a eles. Eu é que, por amor, cometi alguns erros na criação dos meus filhos. E, por amor, sabe-se, a gente também peca. Por isso, por amar demais os meus filhos, é que me custa aceitar que alguém tenha coragem de matar o próprio filho. Máxime se se trata de uma criança indefesa.
Crianças como João Hélio e Isabella, reflito, diante de suas fotografias, parecia que tinham nascido para brilhar. Mas elas não podiam imaginar, ninguém podia imaginar que o seu brilho, a sua luz fosse apagada no limiar de sua vida, vida que, no caso de Isabella, parece ter sido roubada pelo mesmo responsável pela sua vinda ao mundo.
Eu tenho gravado na minha retina o sorriso, o rostinho de Isabella. Gravado também tenho na minha mente o sorriso sagaz e desavergonhado de João Hélio, ambos trucidados ainda no umbral, no começo da vida.
Jamais vou esquecer de Isabella; nunca esquecerei de João Hélio. Tenho certeza que a morte dos dois não foi em vão. Não pode ter sido em vão, sob pena de não se acreditar em mais nada. Tem que ter uma explicação para esse tipo de acontecimento. Eu não me conformo que alguém venha ao mundo, como vieram João Helio e Isabella, em troca de nada, apenas para morrer prematura, bárbara e covardemente, vítimas da maldade e das contradições do ser humano.
*Juiz de Direito da 7ª Vara Criminal
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