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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 3 de maio de 2008
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FILHO DE FALSO PAI

Rio - No silencioso bar do discreto e estrelado hotel D`Inghilterra, onde a nobreza paulista costumava hospedar-se, na via Bocca di Leone, ali abaixo da Piazza di Spagna, antes de jantarmos na primeira noite de sua chegada a Roma, em abril de 91, Ulysses Guimarães estava magoado.

Tinha acabado de deixar a presidência nacional do PMDB, depois da devastadora derrota para a presidência da República, em 89. Ulysses se queixava de não ter continuado na presidência do partido e achava que o PMDB lhe devia isso, sobretudo depois da fragorosa derrota presidencial. Em tantas conversas de horas seguidas, ele passeando e eu, adido cultural lá, pajeando-o com carinho e emoção pelos caminhos eternos de Roma, ele citava vários governadores do PMDB e, sobretudo as bancadas do Senado e da Câmara, que não tinham acreditado na sua candidatura.

ULYSSES

Lamentava que nem seu dileto amigo Pedro Simon, governador do Rio Grande do Sul, se tivesse empolgado com sua campanha, tanto que foi a São Paulo conversar com Orestes Quércia, então governador, para convidá-lo, em nome dos demais governadores, a ser o candidato:

- Se o Simon chamou o Quércia, é porque não acreditava em mim. Também não sei por que o Waldir (Pires) deixou o governo da Bahia para ser vice, se durante toda a campanha em nenhum instante acreditou nela.

E contou a dramática reunião de Brasília, na véspera da convenção, na casa dele, em que quase todos os governadores do PMDB, mobilizados por Moreira Franco, governador do Rio, foram lá pedir-lhe que desistisse, porque não teria chances. Quem falou por eles foi Pedro Simon. Relembrou:

COVAS

- Quando perguntei quem seria o candidato em meu lugar, todos se calaram. Ali tive certeza de que o "calabrês" (era assim que às vezes se referia a Quércia) não estava me traindo. Ele foi correto comigo, como outros não foram. Se ele tivesse aceito o insistente convite dos outros para ser o candidato, bastava que eles o indicassem, eu teria retirado meu nome. Mas ninguém disse nada. A Mora (mulher de Ulysses) ficou irritada, levantou-se, foi buscar um café. E a conversa acabou ali.

Outro dia, na hora do "poire", perguntei-lhe por que criaram o PSDB:

- Foi a luta pela legenda para disputar a presidência da República. Isso veio desde a Constituinte. Quando o Covas (Mário) fez aquele belo discurso cheio de elogios a mim, mas exigindo que eu "não acumulasse a presidência da Constituinte e a presidência do partido", e eu não cedi, ele ganhou a liderança da Constituinte, derrotando o Pimenta da Veiga, que eu apoiei. Mas na eleição do relator-geral da Constituinte eles perderam: o Bernardo Cabral, com meu apoio, derrotou o Fernando Henrique. Estava clara a divisão. O Covas já saiu da Constituinte, em 88, candidato.

PSDB

Mas a legenda do PMDB era uma só e tinha dono: Ulysses. Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique, José Serra, Pimenta da Veiga (Minas), José Richa (Paraná), sabiam que não tinham força para tomar o partido. Com Ulysses no comando nacional e Quércia, governador até 91, no comando do partido em São Paulo, não teriam chance nenhuma.

Saíram do partido para fundar o PSDB. Ulysses não perdoava:

- Não queriam um novo partido, queriam uma legenda para abrigar a candidatura do Covas à presidência da República. Por causa deles, eu e o PMDB pagamos um preço duríssimo. Derrotaram-me fragorosamente, mas o Covas também foi derrotado feio em 89 para presidente e em 90 para governador. Duas devastações partidárias. Alegaram que não conseguiam conviver com o Quércia. Uma desculpa esfarrapada. Sempre tinham convivido, aceitado e usado a liderança do Quércia em São Paulo. Em 78, o Quércia, senador, comandou o PMDB paulista para eleger o Montoro senador e o Fernando Henrique suplente. Em 86, o Covas e o Fernando Henrique se elegeram senadores numa campanha com o Quércia para governador e indicaram o Almino Afonso para vice-governador do Quércia

COLLOR

Conclusão de Ulysses: o PSDB é filho de falso pai. Engana na certidão de nascimento. Os números de 89 provam que Ulysses tinha razão:

1. - No primeiro turno, Collor fez 28,52%, Lula 16,08%, Brizola 15,45%, Covas 10,78%, Maluf 8,28%, Afif 4,53% e Ulysses 4,43%.

2. - Em São Paulo, Collor teve 23,42%, Maluf 22,56%, Covas 21,80%, Lula 16,75%, Afif 4,64%, Ulysses 1,90%, Brizola 1,45%.

3. - Na capital paulista, Collor também ganhou de todos: Maluf, Covas, Lula, Afif e Ulysses.

(Os números estão, todos, em meu livro "A Historia da Vitória - Por Que Collor Ganhou" - Basicamente, porque ganhou em São Paulo e Minas).

KASSAB

Agora, o PSDB voltou a disputar o apoio do PMDB e de Quércia, seu presidente, para as eleições da capital. E foram as duas bandas tucanas: a do governador José Serra (com Kassab) e a do ex-governador Alkmin.

Também o PT implorou o apoio do PMDB e de Quércia para Marta Suplicy. Mas o PMDB sabe que o PT é inconfiável. Em 2006, Marta e Mercadante fizeram acordo e traíram. O PMDB preferiu Serra-Kassab.

O GENRO

O ministro Tarso Genro, da Justiça, está desolado. Considerava-se o mais importante genro do país. Descobriu que é o Cid Gomes, do Ceará

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